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Disney World: escola risonha e franca

Ciência e tecnologia também são grandes atrações na festa de 20 anos do maior parque de diversões do mundo.

Flávio Dieguez

Quem entra pela porta dos fundos nos pavilhões A Terra e Os Mares Vivos, em Disney World, não vê nada parecido com os tradicionais desfiles de Mickey Mouse e sua turma, shows de bonecos e brinquedos eletrônicos. Em vez disso, o inusitado visitante encontra técnicos e cientistas trabalhando — exatamente como em qualquer universidade do mundo. Nada menos que oitenta pesquisadores, naqueles dois pavilhões, se dedicam em tempo integral à tarefa de decifrar os mecanismos da vida marinha, da ecologia ou do reino vegetal, assim como em criar novas tecnologias. Mas é um erro pensar que as atividades acadêmicas são incompatíveis com a atmosfera de entretenimento e fantasia que fez de Disney World o mais sofisticado parque de diversões já construído.

Os Mares Vivos são na verdade um aquário como nunca se viu igual: com 60 metros de diâmetro, 8 metros de profundidade e 23 miIhões de litros de água, ele contém um oceano real, um pedaço do Caribe engaiolado na maior instalação de estudo da vida marinha. Revelado ao público através de grandes janelas de vidro — por onde desfilam tubarões, arraias, moréias e outros habitantes do Caribe —, o microoceano é ainda mais impressionante quando visto por inteiro, nos fundos do pavilhão. Por ai circulam especialistas como John Gory e Mark Xitco, que procuram compreender a inteligência dos golfinhos. Em traje de mergulho, Gory abandona por um minuto suas tarefas para explicar que, como os golfinhos não têm mãos, não podem ser comparados aos chimpanzés

Por isso mesmo, um curioso projeto em curso é criar um grande tablado subaquático no qual esses animais possam, de alguma forma, “escrever”. A exemplo do que se faz com chimpanzés (SUPERINTERESSANTE ano 4, n° 6), espera-se que os golfinhos manipulem figuras ou peças desse tablado, de modo a responder a perguntas que Ihes forem dirigidas. Não há dúvida de que eles têm elevada capacidade de compreensão, pois ao longo de dois anos de pesquisa aprenderam a utilizar diversos instrumentos — como engenhosos tubos de pressão, por meio dos quais podem soprar e manipular peixes fora de seu alcance. Não menos instigante, embora um pouco mais prosaica é a tentativa de obter melhores dados sobre a vida do peixe-boi, célebre habitante do Amazonas que também vive em água salgada.Mamífero, como os golfinhos, mas quase extinto nas costas americanas, ele encanta o público ao exibir seus 800 quilos diante das janelas internas do aquário — especialmente agora, quando se faz acompanhar da cria. nascida em setembro do ano passado durante um raro parto em cativeiro.

Como se vê, não é difícil criar uma agradável combinação de aula e recreio, pesquisa séria e espetáculo. Tal mistura nem mesmo é novidade: sempre constituiu boa parte do gênio e da inspiração do ex-desenhista Walt Disney, desde a época em que os grandes parques ainda eram um mero sonho em sua mente.A diferença é que hoje a pretensão é muito maior. Não por acaso, os pavilhões mais diretamente ligados à ciência e tecnologia — como A Terra, Os Mares Vivos, Maravilhas da Vida, Energia e outros — foram reunidos em uma única área de Disney World, o EPCOT Center. Sob a sigla EPCOT (que significa protótipo experimental da comunidade de amanhã”), esse centro busca realizar pesquisas avançadas e fazer com que adultos e crianças participem da aventura do conhecimento. Na avaliação de Peter Cook. coordenador de comunicações do grupo de ciência e tecnologia do centro, a fórmula funciona a contento.”É divertido e você aprende pouco. Mas aprende. E, o que é melhor ainda, fica uma impressão positiva do que aprendeu.” No pavilhão Os Mares Vivos? por exemplo, o público inicialmente assiste a um filme que narra a origem do oceano e apresenta o projeto de uma futura comunidade a ser construída no fundo do mar. Em seguida. um elevador hidráulico conduz a platéia a um simulacro dessa base submarina, e é através de suas grandes escotilhas que se observa o microoceano e seus habitantes.

De quebra, o visitante pode ver demonstrações sobre técnicas de mergulho, ou deliciar-se com um aparelho que gera ondas em miniatura e reproduz, em escala menor, o caprichoso relevo da areia sob o vai-e-vem da água. Mas não importa o tema: a arte de simular é o segredo fundamental de todas as atrações. Como se elas fossem — em três dimensões e ao vivo — uma diabólica extensão de um desenho animado. O melhor exemplo da força da ilusão talvez seja o pavilhão dedicado ao mundo do movimento, em EPCOT Center. A bordo de pequenos carros, os visitantes são conduzidos a uma alucinante viagem no interior de salas escuras, onde às vezes se tem a impressão de estar caindo no olho de um ciclone.

A pesar disso, tudo depende de um simples jogo de imagens projetadas no teto das salas, criando variadas sensações de velocidade e de rotação. Com um pouco de autocontrole, os observadores atentos verão que em nenhum momento se altera a marcha dos carros, na verdade bem lentos. Isso não impede que se sinta toda a força da matéria em movimento. O efeito é tão bom que mal se percebe sua intenção básica: mostrar a importância do movimento para a civilização. O espetáculo acontece logo depois de uma seqüência de cenas bem-humoradas, protagonizadas por bonecos mecânicos, que recriam a história dos meios de locomoção, da roda ao avião. No ato final, as lições do passado projetam-se para as décadas vindouras, na forma de uma maquete em grande escala mostrando uma imaginária cidade do futuro e suas sofisticadas vias de transporte.

Em Jornada à Imaginação, o apelo futurístico é o próprio lema do espetáculo. Em camarotes móveis, que se deslocam pendurados como cabides à parede, as pessoas relembram como as gerações passadas idealizavam a tecnologia à frente de sua época. Televisores, robôs. carros ou naves espaciais surgem como engenhocas das quais é impossível deixar de rir. E as próprias cenas convidam a isso, por exemplo, quando apresentam a viagem à Lua numa enorme bala de canhão, descrita no século passado em um romance do francês Júlio Verne. Participam do vôo até galinhas (mecânicas, naturalmente), e na ausência de gravidade elas flutuam caoticamente no interior da suposta nave e pousam na cabeça dos tripulantes.

Mas o humor, em momento algum, contradiz a mensagem repetida com entusiasmo contagiante ao longo da apresentação: “Aquilo que se pode imaginar, pode ser feito”. Se é verdade que as tentativas pioneiras são geralmente canhestras, elas merecem respeito como inspiração para o mundo de amanhã. Como não podia deixar de ser, o passeio termina apresentando algumas das atuais visões do futuro. Uma das mais bonitas e bem realizadas é um vôo simulado ao espaço que acaba por levar o visitante a uma grande estação orbital perto da qual se vêem, entre outras coisas, mulheres trabalhando no vácuo. Essas paisagens — da mesma maneira que os alucinantes redemoinhos do pavilhão do Movimento — são criadas por uma refinada tecnologia de cinema, capaz de produzir as mais fantásticas imagens com grande realismo.

Para isso se utiliza um conjunto de projetores especiais, localizados em ângulos estratégicos, e telas igualmente inusitadas, muitas vezes em formato curvilíneo. Certas salas de projeção acabam se tornando um show à parte, mais interessante que os filmes apresentados. É o que se vê no pavilhão dedicado à Energia, cuja tela é dividida em grande quantidade de pequenos painéis de três faces, como um prisma, que podem girar em torno de si mesmos. De início, todos eles voltam a mesma face para a platéia, de modo que a tela tem o aspecto trivial de uma superfície lisa. Durante a projeção, porém, uma pane dos painéis gira e forma um plano inclinado com relação ao resto da tela: assim, podem-se projetar dois ou mais filmes ao mesmo tempo.Com agilidade eletrônica, os projetores inundam a tela de imagens em efeitos sensacionais. Ainda mais impressionantes são as salas suspensas, empregadas, por exemplo, no pavilhão Maravilhas da Vida. Nesse caso, porém, os artifícios de simulação só podem ser contemplados a partir das instalações subterrâneas de Disney World. Embora pese mais de 20 toneladas, sem contar a platéia de 15 pessoas em seu interior, a sala pode ser literalmente chacoalhada em todas as direções, de modo que a platéia tem a sensação de estar num grande veículo que, em alta velocidade, breca e acelera com violência, faz curvas fechadas e se inclina abruptamente para cima e para baixo, as vezes em ângulo de quase 45 graus.

O próprio público vê apenas as portas das ala de projeção e, ao atravessa-las imagina estar entrando na cabine de um fantástico submarino que se pode microminiaturizar e injetar num organismo vivo. Assim, tem início uma divertida e educativa aventura pelo interior do corpo humano. Incríveis panoramas se descortinam como se estivessem sendo vistos através de uma grande escotilha do submarino — na verdade, uma tela onde se projeta um desenho animado. Mas a melhor parte do show é a imitação dos supostos movimentos do veículo. E não é à toa que as pessoas têm de usar cintos de segurança, como nos aviões: as sensações que experimentam pouco ficam a dever aos sobressaltos de uma montanha-russa.No subsolo, o técnico Bruce Milner revela os truques do brinquedo. Antes de mais nada, existem seis poderosos macacos hidráulicos que mantêm a. sala supensa a cerca de 3 metros de altura — isto é, na linha do piso em que se movimenta o público. Assim que o filme começa, os braços mecânicos alteram a posição da cabias da maneira correta. Como supervisor de operações, Milner não tem autorização para mostrar as engrenagens em detalhes — compreensivelmente, mantidas em segredo. Mas ele explica que o conjunto de macacos hidráulicos era parte de um simulador de vôo, usado para treinar pilotos militares ainda sem capacitação para entrar num avião de verdade.

Adquirida e adaptada pelos engenheiros de Disney World, a peça contém 36 transdutores, ou sensores, que analisam a posição da cabine a cada momento e transmitem esses dados a um microcomputador (um PC comum, de 40 megabytes no disco rígido). Com base nessas informações, os chips calculam a força que cada macaco deve exercer — estendendo ou encolhendo seus braços mecânicos — para mudar novamente a posição da cabine. Isso assegura uma perfeita coordenação entre os movimentos mostrados pelo filme e os movimentos da cabine. O esquema funciona tão bem que foi usado em outros locais, como no show Viagens Estelares. Nesse caso, a trepidante sala de cinema imita uma nave espacial em manobras próximas à imaginária lua de Endor.

Vale a pena lembrar que Viagens Estelares não faz parte do EPCOT Center, mas de um outro conjunto de atrações, os Estúdios Disney. Cada conjunto desses recebe o nome de parque temático e seu modelo básico é o Reino Mágico, onde se encontram algumas novidades, como a Montanha do Espaço, assustadora versão da montanha-russa, mas inteiramente no escuro. Nesse brinquedo, comandado por microcomputador, a posição de cada carrinho também é determinada por transdutores, como em Viagens Estelares. De maneira geral, porém, o Reino Mágico reúne espetáculos mais tradicionais, como Vinte Mil Léguas Submarinas, que reproduz uma curta viagem numa cópia do submarino Nautilus, criado pela ficção de Júlio Verne. No mesmo estilo pioneiro pode-se ver a histórias. dos presidentes americanos, todos reunidos num mesmo palco. O ponto alto do espetáculo é a figura de Benjamin Franklin (embora não tenha sido presidente), que muitos ainda consideram o mais perfeito boneco mecânico de Disney World.

Para corrigir esse engano, ninguém melhor que o experiente John Jensen, atual diretor do departamento de mecanização e automatização e um dos mais antigos especialistas de Disney World. Em seu escritório, rodeado por novos e veIhos computadores, além de alguns bichos mecânicos, ele conta que existem bonecos mais aperfeiçoados que o venerável Benjamin. O campeão atual é a figura que representa o Mágico de Oz, nos Estúdios Disney, ou uma dupla de piratas em Disneyland — irmã mais velha de Disney World, na Califórnia. Bonecos ainda melhores, antecipa Jensen, se apresentarão num novo parque em estágio final de construção na França. De qualquer forma, o desempenho de Benjamin Franklin marcou época e, sem sombra de dúvida, ainda hoje causa profunda impressão. Jensen explica que ele é capaz de realizar 29 movimentos diferentes, durante 14 minutos de atuação. É curioso descobrir nos bastidores as velhas máquinas eletrônicas que inicialmente coordenavam movimentos e sons associados aos bonecos. Maiores do que se poderia esperar e de aparência um tanto desengonçada, elas acabaram substituídas por pequenos e eficientes micros. Freqüentemente se diz que os bonecos de homens ou animais são tão perfeitos que podem ser confundidos com seres vivos.

Na verdade, é muito fácil perceber as diferenças — desde que se consiga fixar a atenção sobre elas. Mas a grande virtude dos espetáculos consiste justamente em conquistar a atenção do público e enredá-lo na trama de uma fantasia, seja esta qual for. Não importa se o objetivo é provocar um simples susto ou ensinar a importância da ciência e da tecnologia. O imenso aquário que faz as vezes de oceano, em Os Mares Vivos, não é mais real, ou menos divertido, que um passeio pela Montanha do Espaço. O que conta, nos dois casos, é o encantamento que os magos de Disney World sabem criar como ninguém.


Para saber mais:

A ciência vai ao parque

(SUPER número 1, ano 3)


Atrações variadas

Os diversos conjuntos de atrações, chamados parques temáticos, têm uma área equivalente a alguns quarteirões, cada um. e situam-se em locais diferentes de Disney World. Esta ocupa uma vasta propriedade de mais de 100 quilômetros quadrados nas proximidades da cidade de Orlando, vizinha de Miami. A maior parte da propriedade não tem construções de qualquer espécie e uma parcela considerável é preservada em estado selvagem. Para proteger a fauna e a flora originais da região. Apesar disso, os visitantes se deslocam sem problemas e em poucos minutos de um local para outro. Os meios de transporte são ônibus comuns ou o agradável trem monotrilho, espécie de metrô suspenso, que corre encaixado sobre uma viga de concreto. Como uma de suas estações fica no quarto andar do hotel Contemporary Resort, causa espanto aos recém-chegados vê-lo atravessar o prédio a 15 metros de altura. Os adultos que resistem à tentação dos brinquedos, e se cansam de ciceronear as crianças, podem acrescentar a seu programa atrações de natureza bem diversa, como uma visita às lojas do centro comercial. Um cálculo revela que em vinte anos elas já venderam 31 milhões de camisetas estampadas do Mickey. Outra cifra astronômica são os 6 000 itens alimentícios servidos nos hotéis e lanchonetes do parque; ou os 33 000 funcionários que, nos locais públicos, agem como personagens de um espetáculo encenado em toda a Disney World.

Primo pobre do elefante

Chester é um privilegiado membro da espécie dos peixes-bois, mamíferos vegetarianos que ingerem até 100 quilos de plantas ao dia e podem superar 1,5 tonelada de peso. Sua mãe, Lorelei, foi uma das primeiras representante da estirpe a nascer em cativeiro, no Seaquarium de Miami, em 1975 e sua cria teve o mesmo destino: veio ao mundo e está crescendo em perfeita segurança, em Disney World. Assim, escapa à triste sina da extinção que ronda os remanescentes da espécie, em particular os grupos que vivem na costa sudeste dos Estados Unidos. Estima-se que atualmente essa população não supera os 1 500 indivíduos. A situação é ainda mais dramática porque muitos peixes-bois têm sido mortos de maneira estúpida: tão grandes quanto lerdos, assim que trocam o mar pela água doce, acabam atropelados pelos velozes barcos de fundo chato, muito comuns nos pantanais da Flórida. Mas talvez o próprio Chester ajude a mudar tal destino, pois aquilo que for possível aprender a seu respeito poderá ser usado para proteger seus parentes selvagens. Com certeza, sua simples presença diante do público já contribui para sensibilizar as pessoas da necessidade de proteção. Ao mesmo tempo que assistem às suas evoluções ao vivo, as pessoas podem ver cenas do seu emocionante parto em televisores próximos. Além disso, investiga-se sua vida e a de sua mãe em busca de informações básicas — difíceis de obter entre grupos livres. Um dado importante que se desconhecia há menos de um ano era a taxa de crescimento dos filhotes. Agora se sabe que Chester, nascido com 35 quilos, ganhou peso ao ritmo de 720 gramas ao dia. A meta é fazer as medidas completas da fisiologia dos animais: sua eficiência em assimilar alimentos, como seu organismo controla a temperatura interna e assim por diante. Na Amazônia sua silhueta, associada à de um homem gordo, deu origem a lendas fantásticas. Mas se ignora que, embora mais parecidos com as focas, os peixes-bois são mais próximos dos elefantes. Isso mostra como é importante conhecer melhor os hábitos desse animal.

Buzzy usa a cabeça

Relapso personagem do show Comando do Crânio no pavilhão Maravilhas da Vida, o boneco mecânico Buzzy não se contenta em conquistar a simpatia da platéia repleta de crianças. Ele aproveita o sucesso e ensina uma gozada lição sobre o cérebro e suas relações com o corpo. A aula. claro. não é convencional. No papel de um piloto novato Buzzy enfrenta um difícil teste: dirigir o cérebro de Bobby, garoto de 12 anos às voltas com problemas típicos da idade, como encontros com garotas e brigas na escola. O palco é o próprio crânio do garoto. Buzzy não ouve as instruções do professor, um severo general, e conduz seu “vôo” ao desastre — o estresse. que só não chega a ocorrer porque Buzzy reage a tempo. Ele percebe que a melhor maneira de reduzir tensões é não perder a cabeça, não deixar o cérebro à deriva a cada estímulo do mundo exterior. Assim, ganha-se tempo para refletir, consultar a memória e tomar decisões racionais.