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É com você, leitor

A sua obsessão por filmes, programas de TV, livros e revistas está causando uma revolução - é o que diz o americano Henry Jenkins

Inara Chayamiti

Quem é fã de algum seriado de TV já sentiu um aperto no coração ao fim de um novo episódio. O que vai acontecer com o Sawyer? Quem são Os Outros? Algum tempo atrás, você teria de se contentar com as conversas no cafezinho e roer as unhas por uma semana até descobrir. Mas, como esta é a era da internet, dá para discutir a trama em fóruns online, baixar fotos dos próximos capítulos no celular ou até distribuir histórias que você mesmo escreveu com os personagens da série para qualquer um ler. E tem tanta gente fazendo isso que os produtores de seriados – e os produtores de todo tipo de informação – começaram a prestar atenção no movimento. Entramos no que Henry Jenkins, professor de estudos de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, chama de cultura da convergência, na qual os consumidores participam cada vez mais da produção e da difusão de informação. Segundo Jenkis, as produtoras de séries, filmes e livros já estão descobrindo como tirar benefício dessa tendência. Perceberam que podem ganhar audiência ao contar suas tramas em vários tipos de mídia – daí o nome convergência – e estimular a participação do público. Mas há quem diga que a interferência dos fãs é exagerada, a ponto de ferir direitos autorais. É sobre isso que ele fala na entrevista que deu à SUPER.

O que é a cultura da convergência?
É vivermos em um mundo em que toda história que é contada a alguém passa por diversos veículos, como TV, cinema, celular, internet, videogames. E em que o fluxo dessa história é moldado tanto por decisões tomadas pelas companhias que produziram o conteúdo quanto pelos indivíduos que o recebem.

Como isso funciona na prática?
O conteúdo idealizado pelo produtor é hoje só uma parte do processo, e não o principal. Se você cria um programa de TV, você sabe que ele vai ser reeditado e redistribuído pela internet, que as pessoas vão falar sobre isso em fóruns de fãs, vão escrever elas próprias novas histórias em cima da trama. O conteúdo original se tornou apenas o pontapé inicial, a partir do qual o consumidor irá criar novas experiências. E isso não representa, necessariamente, um dano à história que deu origem a essa cadeia – na verdade, sem esse processo, ela pararia de ser difundida e morreria. Assim funciona a nova cultura participativa.

Como os produtores de conteúdo, como estúdios que fazem séries para a TV e filmes, estão encarando essa mudança?
Eles estão tendo que se adaptar. O foco agora está em histórias contadas por vários tipos de veículo, conhecidas como transmidiáticas – em cada mídia diferente, a história ganha uma nova camada, que nos conta algo que não saberíamos assistindo ao programa de TV, por exemplo. Na internet, podemos descobrir o que aconteceu antes ou após o episódio, ou o ponto de vista específico de um dos personagens. Outras informações podem estar em conteúdo para celular, quadrinhos… Isso gera um envolvimento maior com a história, porque queremos nos aprofundar, descobrir curiosidades e desvendar mistérios quando nos interessamos por uma trama.

Qual é o melhor exemplo dessa tendência?
A série Lost. Desde o começo, o programa já previa a difusão da sua trama por várias plataformas. Não por coincidência, essa é considerada a série mais famosa da última década. Nos EUA, Lost é um livro, é um game que pode ser jogado em rede, está em episódios para celular. Se você apenas assistir à série, você vai consumir pouco do que Lost realmente é. Outro exemplo de sucesso seria American Idol, que estimula as pessoas a buscar informações online e votar nos competidores por telefone.

Mas os fãs estão indo além dessa participação encorajada. Alguns escrevem suas próprias histórias com base em personagens de tramas já existentes, uma prática chamada de fan-fiction.

Essa é a principal característica da cultura participativa. Se sabemos que nossa série preferida vai acabar, não nos contentamos em mandar uma carta para a emissora e torcer para que o programa não saia do ar. Hoje vemos fãs de Jornada nas Estrelas fazendo seus próprios episódios da série e colocando na internet. [Na TV, a trama de Jornada nas Estrelas deixou de ser exibida em 2005.] Alguns membros do elenco original chegam a trabalhar junto com atores amadores para produzir os episódios. Com isso, essas pessoas acabam perpetuando a série, o que é bom tanto para os fãs quanto para a marca.


E quanto aos produtores contrários a esse tipo de participação? Eles já até fecharam sites de fãs.

A postura de defesa dos direitos autorais terá de mudar. Hoje, consumir é combinar conteúdos diferentes. Elas não podem impedir um fã de fazer algo com o que produziram. Mas a indústria está se mostrando cada vez mais interessada em abrir o uso de seus direitos autorais para que fãs criem seus próprios conteúdos. Em alguns casos, já aconteceu. A indústria começou a perceber que essa participação fortalece suas marcas e o vínculo delas com o público.

Até mesmo os spoilers (“estraga-prazeres”, que descobrem segredos das séries e divulgam na internet) podem contribuir de alguma forma para o sucesso de um seriado?
Podem. Essa prática de revelar curiosidades e mistérios de séries é uma maneira de intensificar a relação de fãs com um programa. Faz com que o público continue assistindo e comentando – o que atrai mais uma legião de espectadores. Portanto, é uma forma de prorrogar a vida da série. Você pode até não gostar dos spoilers, mas eles aumentam seu envolvimento com seu programa preferido e conectam pessoas que possuem interesses comuns.

Qual indústria vai ser mais afetada ou mesmo destruída pela cultura da convergência?
Na verdade, acho que não podemos falar na extinção de uma indústria em si, e sim do modelo em que mídias diferentes ficam completamente separadas umas das outras. Se a cultura da convergência continuar se desenvolvendo como está hoje, em uma década não vamos ter uma empresa que produza conteúdo para TV, outra para jornal, outra para rádio. Vamos ver apenas grandes indústrias de mídia, que deverão englobar tudo isso.

O que vai acontecer com os produtores que não seguirem a tendência e continuarem fazendo filmes simplesmente como filmes, por exemplo?
Eu acho que ainda teremos filmes apenas como filmes e programas de TV como simples programas de TV. Mas, à medida que eles fizerem sucesso, passarão a sofrer pressões de mercado e do público para que se desenvolvam em outras plataformas de mídia. Até porque as pessoas poderão assistir a qualquer programa televisivo no celular, na internet ou em novas plataformas que surgirem.


Por que a pressão do público começou agora?

O que impulsionou a vontade de participação das pessoas, nos últimos anos, foi o avanço da tecnologia. A Internet absorveu ferramentas das mídias tradicionais [como programas de edição de vídeo e áudio] e também nos permitiu compartilhar tudo com outras pessoas. Assim, podemos escrever histórias, compor músicas, publicar fotos e receber a contribuição de outros internautas. Mas, na verdade, a confusão entre quem é produtor e quem é consumidor sempre existiu, por causa do interesse do público. As décadas de 1960 e 1970 contribuíram muito para isso, porque naquela época as pessoas começaram a imprimir seus próprios fanzines, graças à fotocopiadora.

A participação é importante para o consumidor?
Significa uma mudança de comportamento. Antes, éramos convidados a apenas receber as informações que a TV ou o jornal nos davam. Com as novas tecnologias, podemos produzir e participar. Isso muda nossa vida, porque a comunicação está em tudo o que fazemos. Se queremos acompanhar a rotina de nossos filhos enquanto trabalhamos, podemos receber um vídeo deles brincando pelo celular, por exemplo – ou seja, produzimos conteúdo no nosso dia-a-dia. Também mudou o modo pelo qual escolhemos candidatos políticos. Veja o caso do presidente que os EUA acabaram de eleger. A campanha de Barack Obama usou todas as mídias possíveis, de YouTube a videogames. Então, quando um cara digital como o Obama ganha de outro como John MacCain, que nunca usou a internet, vemos essa mudança.

Que tipo de consumidor seremos no futuro?
Não podemos prever isso. E esse, aliás, é um ponto interessante. Há dois anos, enquanto eu escrevia o livro Cultura da Convergência [lançado em outubro de 2008 no Brasil], o Second Life estava apenas começando, o YouTube ainda dava seus primeiros passos, a web 2.0 era embrionária e a distribuição digital de conteúdo televisivo praticamente nem existia. Essas são mudanças que aconteceram em apenas 2 ou 3 anos, mas eu não pude prevê-las. Na verdade, é difícil imaginar como vamos mudar nossa relação com as mídias até em um futuro curto. O que posso dizer é: os diferentes tipos de mídias vão se integrar ainda mais, e nós vamos continuar a consumir, produzir e participar.

Podemos dizer, portanto, que estamos assistindo à democratização da cultura?
É possível que sim. Eu diria que uma sociedade que tem uma cultura participativa é uma sociedade em que, possivelmente, as pessoas são mais incentivadas a falar e a trocar ideias umas com as outras. E essa combinação é o que promove um impulso democrático. Não é a tecnologia que faz isso acontecer, e sim a cultura em torno dessa tecnologia. Uma sociedade em que você pode colocar seus pensamentos na rede e ter acesso a ideias de outras pessoas cria um enorme potencial para o avanço da democracia.

Ela está entre nós
Como a cultura da convergência já influencia o que você lê e assiste

Lost
A série original se desdobrou em livros, revistas, jogos para internet, videogames como PlayStation3 e episódios extras só para celular. No site do programa, é possível ouvir podcasts com o elenco e ler a biografia de cada personagem.

Harry Potter

O bruxinho nasceu nos livros e chegou ao cinema. Quando fãs começaram a escrever suas próprias histórias de Hogwarts e divulgá-las em sites, a Warner Bros., estúdio que têm os direitos da trama, tentou impedir – acabou recuando pouco tempo depois.

Matrix

Além da trilogia de filmes, Matrix virou uma coleção de 9 curtas de animação, chamada Animatrix. A trama também foi parar em histórias em quadrinhos e inspirou diversos jogos para a internet, que expandem a história contada nos filmes.

Barack Obama

A campanha que elegeu o presidente dos EUA foi baseada em uma miríade de mídias. A propaganda política apareceu em games, no twitter, e no Second Life. O site oficial do candidato pedia que eleitores dessem propostas e discutissem projetos em fóruns.

Super
Sim, aqui você também tem vez! Em outubro de 2008, a seção 5 Luxos e 1 Lixo deixou de ser publicada na revista. Mas ela continua viva na comunidade da SUPER no orkut – lá, leitores publicam suas listas de coisas que consideram bacanas e irritantes.

Henry Jenkins

• Tem 50 anos e mora em um alojamento estudantil no campus do MIT, junto com 145 estudantes universitários.

• É mestre em estudos de comunicação e doutor em comunicação em artes

• É fã de Heroes, Lost, American Idol e Survivor.

• Tem uma espada de Jornada nas Estrelas pendurada na parede de sua sala de estar e foi figurante em um dos filmes da série, da qual é fã desde a adolescência.

• Sua mulher também é fã de Jornada nas Estrelas. Eles estão casados há 29 anos e têm um filho, que mora em Seattle.

• Sua comida favorita é pizza, “porque nela todas as comidas convergem”.