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É hora de sabermos a verdade sobre violência sexual

A maioria dos estupros termina impune, apoiados na vergonha, na culpa e no silêncio que caem sobre as vítimas

Alice foi estuprada três vezes. Na primeira vez, ainda criança, não sabia direito o que estava acontecendo. Foi um amigo da família que abusou dela – e ameaçou machucá-la caso ela contasse para alguém. Na segunda, aos 20 anos, a violência sexual veio de um ex-namorado. Ele a dopou com um remédio e a moça só acordou no meio do ato. A terceira vez aconteceu com um desconhecido, que a pegou com uma arma no meio da rua, e a estuprou em um terreno baldio.

A história de Alice ilustra perfeitamente a triste realidade do abuso sexual no Brasil – a violência pode vir de dentro de casa, do parceiro íntimo e do estranho na rua. Estima-se que meio milhão de pessoas são estupradas todos os anos no país – e a maior parte desses crimes termina impune, apoiados na vergonha, na culpa e no silêncio que caem sobre as vítimas.

Desde que a SUPER publicou uma capa sobre o assunto, centenas de mulheres corajosas escreveram contando suas histórias. Quase todas ouviram que haviam sido responsáveis pelo crime que sofreram, e muitas tiveram dificuldades em encontrar ajuda depois da violência. Por isso, produzimos essa série de vídeos. A ideia é ajudar as vítimas de estupro e mostrar que a melhor maneira de lutar contra a violência sexual é quebrando o silêncio que a cerca.

No primeiro vídeo, Alice conta sua história:

Hoje, lamentavelmente, o Brasil é tratado como um país extremamente violento e hostil contra as mulheres. Nós temos taxas de assassinato, taxas de violência sexual, taxas de violência física que podem ser consideradas incompatíveis com a pretensão de se chamar a nossa sociedade como sociedade civilizada.

Jefferson Drezett, diretor do Núcleo de Violência Sexual e Aborto Legal do Hospital Pérola Byington

Um aspecto que faz a mulher que foi estuprada sentir ainda mais culpa tem a ver com a ingestão de álcool. Camila passou por essa situação em 2011, na Universidade de São Paulo (USP). Numa sexta-feira, estava em uma festa do curso de Arquitetura e Urbanismo bebendo com alguns amigos. Em determinado momento da noite, acabou se perdendo do grupo. Do estupro, tudo o que ela lembra são flashes. As cicatrizes ainda estão no corpo de Camila, mas permanecem também em outros aspectos da vida: nunca mais conseguiu entrar na USP.

Ela relutou muito para fazer a denúncia, mas fez. No segundo vídeo, Camila explica a necessidade de denunciar e também questiona o horário de atendimento na Delegacia da Mulher:

Se na infância o maior risco de estupro está dentro de casa, na vida adulta o problema maior está na rua. Segundo o IPEA, 60,5% dos crimes são cometidos por desconhecidos. E o problema é que pouquíssimas vítimas procuram ajuda. Na América Latina, o número varia entre 10% e 15%. No caso de Roberta, hoje com 32 anos, o auxílio foi fundamental para que ela retomasse a vida.

Em 2001, Roberta se dirigia ao ponto de ônibus acompanhada de cinco amigas e um amigo quando o grupo foi surpreendido por um homem armado. Após amarrar o amigo de Roberta com corda de varal, o homem estuprou todas as mulheres do grupo. Depois do ocorrido, elas foram em busca de auxílio no hospital Pérola Byington, um Centro de Referência da Saúde da Mulher que fica em São Paulo. Lá, o exame, as medicações e os encaminhamentos psicológicos foram feitos.

Roberta sentiu as consequências do estupro quando descobriu que uma das amigas estava grávida do namorado, mas o tratamento cancelou a gravidez. Veja o relato dela no terceiro vídeo e entenda como e onde a vítima pode buscar ajuda:

Entrevistas completas

Jefferson Drezett, diretor do Núcleo de Violência Sexual e Aborto Legal do Hospital Pérola Byington

Rosemary Miyahara, psicóloga e coordenadora do Centro de Referência às Vítimas de Violência do Instituto Sedes Sapientiae