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Espírito crítico contra a fórmula do desastre

Treinados para decorar regras, estudantes perdem o senso crítico na hora de solucionar problemas de matemática.

Luiz Barco

Alguns pais passam anos tentando convencer os filhos a disputar uma vaga na faculdade que eles, mais velhos e experientes, consideram a melhor, sem ligar a mínima para os sonhos dos garotos. É uma contradição: deseja-se que o rebento seja feliz – mesmo que para isso tenha de sofrer muito. Um dos resultados dessa maneira de encarar as coisas é a transformação dos estudantes em autômatos que, na batalha por uma vaga na universidade – quase nunca a que eles realmente gostariam de cursar –, tornam-se totalmente dependentes da indústria do treinamento para os vestibulares. Esta faz dos moleques ótimos, incríveis executores de regras, porém sem o menor senso crítico.

Quer ver como? Há alguns anos, eu ajudava um colega a corrigir provas de alunos do curso de engenharia civil. A questão pedia o dimensionamento da tubulação de uma casa popular. Um dos alunos, bem informado, pois conhecia toda a seqüência de cálculos, não colocou adequadamente a vírgula de um dos dados do problema, transformando 4 polegadas em 400. Até aí tudo bem. Pode acontecer a qualquer um. Só que ele chegou à conclusão de que o tal cano deveria ter 10 metros de diâmetro. Assim, com a maior naturalidade. Nem notou que pela sua tubulação poderia, com folga, passar a casa toda. Por que será que o aplicado aluno não percebeu o absurdo? Talvez porque a escola exija resultados e não espírito crítico. E porque ele confia demais nas fórmulas.

Estou exagerando? Acho que não. Algo de quase perverso realmente ocorre com nosso sistema de ensino. No final do ano passado, uma universidade paulista elegeu um problema de progressão geométrica para seu vestibular. Era sobre o último capítulo de uma telenovela, no qual seria revelado o nome do assassino. O enunciado supunha que um funcionário da emissora tivesse comentado com dois amigos, no dia 1º de outubro (um mês antes do desfecho ir ao ar), quem seria o culpado. Acrescentava ainda a informação de que cada pessoa nova que ficasse sabendo do boato num certo dia o contaria a outras duas no dia subseqüente. Assim, ao findar o dia 1º , duas pessoas novas, além do funcionário que iniciou a cadeia de boatos, conheciam o final da novela. No segundo dia, cada uma dessas duas pessoas contaria a novidade para outras duas e o total de sabedores subiria para sete. Como cada um dos quatro novos deveria contar para mais dois, no terceiro dia o final já teria sido descoberto por quinze telespectadores.

Bastaria que, com certa paciência, o candidato conti- nuasse essas contas para responder três das quatro perguntas contidas na questão. Ainda sem utilizar fórmula alguma, necessitando apenas da leitura atenta e do entendimento do que foi solicitado, ele poderia matar a última pergunta da prova. Para você, que gosta de desafios, eis as questões:

1 – Em qual dia do mês de outubro 256 novas pessoas ficam sabendo da notícia?

2 – Em qual dia do mês de outubro somam pouco mais de 8 000 as pessoas que conhecem, supostamente, o assassino?

3 – Se for propagada continuamente até o dia 20 de outubro quantas novas pessoas saberão da notícia nesse dia?

4 – Se a propagação for continuada por “n” dias quantas novas pessoas ficarão sabendo da notícia no “n-ésimo” dia e qual seria o número total de pessoas que, ao findar esse dia, sabe- riam quem seria o assassino?

Na próxima edição publicaremos as respostas. Você já deve ter notado que não é preciso grande preparo para encontrá-las. Mesmo assim é assustador o número de alunos que escreveu na prova: “É progressão e como não me lembro das fórmulas nada posso fazer”. Parece que o fato de ter sido estimulado a decorar regras impede o estudande de construir uma solução, mesmo sendo ela simples. Ou pior, faz com que use equações de forma acrítica, sem perceber os absurdos que conclui. É preciso dizer: mais do que à Matemática, esse tipo de ensino desserve à cidadania.

A coroa do rei

Leia na página 89 a solução para o problema sobre a coroa do rei de Siracusa proposto na edição passada.

Luiz Barco é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo