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O Rio de Janeiro passado a limpo

Aos olhos do mundo o Rio é uma das cidades mais lindas. Mas, cá entre nós, merece uma faxina

Robert Halfoun

Na Lagoa, na Baía de Guanabara, nas praias e nos morros apinhados de favelas, o Rio de Janeiro passa por um colapso ambiental. “Ainda fazemos como os portugueses na época do império”, diz o biólogo Mário Moscatelli, que trabalha voluntariamente no mangue da Lagoa Rodrigo de Freitas. “Esgotamos os recursos naturais e a capacidade de renovação do ecossistema foi ultrapassada.”

Afinal, dá para melhorar o meio ambiente do Rio? Como? O que já está sendo feito? O que ainda pode ser feito? É o que esta reportagem tenta responder.

 

Lagoa rodrigo de freitas

Uma lipo na velha senhora

Os problemas da Lagoa são o crescimento desordenado da cidade e o arcaico sistema de saneamento. Contê-los é quase impossível ou custa caro. Demora. Ainda assim, vale tentar. E neste semestre, mais um plano é posto em ação. Vem aí a galeria de cintura, a um custo de 11 milhões de reais. Trata-se de um “cordão de isolamento”, um encanamento instalado entre a Lagoa e o contaminado sistema de águas pluviais – que, assim como no tempo do império, recebe uma grande quantidade de esgotos, só que agora na clandestinidade. Sem falar nos vazamentos. O novo sistema deve conduzir as águas sujas até outra rede, que enfim o levará até o emissário submarino. Esse será também o destino do lodo ativo do fundo da Lagoa, que será eliminado através de hidrosucção. Uma draga fará um corte lá no fundo. Depois, a massa será sugada e bombeada até o sistema que leva ao emissário. É uma espécie de lipoaspiração, que deve chegar ao fim antes do próximo verão.

 

Baía de guanabara

É só deixarem ela em paz

O esgoto da Zona Sul da cidade corre oceano adentro ao longo de 5 quilômetros de canos para ser despejado in natura perto das Ilhas Cagarras. Não é uma solução, portanto, mas, em geral, com a colaboração das correntes marinhas, o caldo se dispersa, se transforma e vira adubo. O problema é que nem tudo que vai pelo emissário é orgânico. Joga-se de tudo no sistema de esgotos, de aparelhos de barbear a garrafas plásticas. Uma saída seria construir uma estação de tratamento primário (que separa o material sólido do orgânico) na raiz do emissário. Custa cerca de 36 milhões de reais.

Um dos projetos mais antigos é o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), que começou no século passado, em 1994, orçado em 5 bilhões de reais. Seu objetivo parece ingênuo, de tão direto ao ponto: parar de poluir. E mais nada. Porque fazendo isso, em 30 anos a baía se regenera sozinha. Mas ainda falta muito para começar a contagem. Apenas 1/4 da água está recebendo tratamento – e começou agora.

Para acabar com o problema maior, é preciso antes resolver a situação dos rios que vão dar na baía. Isso significa investir na coleta de lixo em dezenas de bairros da capital e também nos municípios vizinhos, reduzir a ocupação industrial dessas regiões, fiscalizar as empresas, multar rigorosamente aquelas que poluem, e, finalmente, recuperar a vegetação dos morros que protegem os mananciais e a das margens dos estuários.

Descobrimos ainda uma boa idéia incubada no Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que remonta às práticas usadas pelas comunidades indígenas da época do descobrimento. “O sistema é tão simples, barato e eficiente que eu fico até com vergonha quando as pessoas perguntam por que ainda não é utilizado”, diz Francisco Esteves, professor titular de ecologia da UFRJ. Boa pergunta. O processo se baseia no uso de piscinões com plantas que se alimentam de matéria orgânica. As raízes dessas plantas retêm o esgoto e o consomem quase totalmente. Experiências na cidade de Macaé, interior do Rio, e em países como Austrália e Nova Zelândia, mostram que a água suja sai dos reservatórios 99% depurada. Os índios sabem das coisas.

 

Praias

Piscinas para o povo

O sistema de esgotos sanitários funciona bem nas praias de Ipanema e Copacabana. As redes de saneamento dos bairros foram revistas e até microcâmeras entraram nos canos para identificar ligações clandestinas. Já na Barra… Acredite, se quiser, mas essa área de novos ricos, shoppings e condomínios não tem sequer um cano de saneamento básico. Todo o esgoto é jogado nas três ex-lindas lagoas da região – que estão praticamente mortas. Está na agenda da cidade implantar 24 000 quilômetros de rede para conduzir esse esgoto até uma estação de tratamento primário e depois até o novo emissário com 4 300 metros de comprimento. Deve ficar tudo pronto em dois anos, a um custo total de 118 milhões de reais.

Em São Conrado, o desafio é resolver o “valão”, um esgoto a céu aberto que desce da Rocinha e desemboca na praia. Em breve, entra em ação ali o sistema de flotação, que trata a água no seu próprio curso. Primeiro aplica-se uma combinação de produtos químicos. Formam-se, então, flocos de impurezas que, envolvidos por uma névoa de microbolhas de ar pressurizado, acabam boiando até serem coletados. A água é desinfectada com cloro e raios ultravioleta. No final, vai para o mar limpíssima – não exatamente potável, mas 100% balneável. Os resíduos restantes poderão ser usinados para gerar calor ou adubo seco.

A tecnologia será aplicada também no projeto que pretende devolver a imunda Praia de Ramos à população do bairro. Um piscinão está sendo construído na areia, cercado de uma grande área de lazer – como um clube. A água virá da baía, já tratada pelo sistema de flotação. É uma obra mais social do que ambiental, mas tem um traço emblemático: é bancada com parte da multa aplicada à Petrobrás por conta do derramamento de óleo na Baía de Guanabara, em janeiro de 2000.

Morros

A cara do Rio

Atualmente, cerca de 1/3 da população do Rio vive nas favelas, outrora território da raríssima mata atlântica. Na favela da Rocinha, por exemplo, vivem 150 000 pessoas. São, em média, três moradores por habitação, o que dá pelo menos 30 000 barracos. Para cada barraco construído, um pelo outro, pode-se falar em duas árvores derrubadas. Sessenta mil árvores do Rio, portanto, desapareceram assim, afugentando bichos, provocando erosão, inundação e colaborando até no desequilíbrio climático (o verão do Rio está cada vez mais quente). Tem ainda o lixo e o esgoto, que, invariavelmente, descem o morro.

Programas habitacionais que funcionassem e a demarcação de algumas áreas de conservação e parques poderiam evitar o crescimento das favelas e até recompor a mata original – a Floresta da Tijuca é um exemplo de reflorestamento inteligente. Acabar com as favelas, todavia, é impensável. Poderia dar certo em Jacarezinho ou, quem sabe, em parte da favela do Vidigal. Rocinha e Dona Marta não são mais favelas – são bairros! É preciso, portanto, adequá-las ao meio ambiente. Até porque o Rio sem a vida do morro não teria tanta graça.