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Os vigilantes da vida real

Tem gente que se fantasia a caráter e sai pelas ruas correndo atrás de bandidos. Se você nunca viu nenhum desses caras, talvez seja só questão de tempo até que isso mude. Porque os super-heróis de verdade são mais numerosos do que se imagina.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h48 - Publicado em 2 fev 2013, 22h00

Salvador Nogueira

Seattle, 9 de outubro de 2011. Madrugada de domingo. Numa rua semideserta, uma confusão. Dois grupos de clientes de uma boate saíam no braço. Uma mulher claramente intoxicada apanhava e batia, sem ver direito em quem. De repente, eis que surge uma figura vestida em amarelo e preto, com uma máscara, e interrompe a briga. Ele tenta proteger a mulher, que, doidona, sai correndo atrás dele com o salto alto na mão. Ele faz o possível para não machucá-la. Mas, quando a polícia chegou, os oficiais ouviram dos arruaceiros que não havia briga até que a figura de amarelo e preto apareceu, dizendo “sou um super-herói” e atirando spray de pimenta na cara deles. E assim Phoenix Jones, um defensor mascarado da lei e da ordem em Seattle, foi detido.

No dia seguinte, um cinegrafista amador que costuma acompanhar Jones em suas patrulhas colocou na internet um vídeo que corroborava a versão de Jones. Ainda assim, ele só saiu da cadeia sob fiança e teve de se apresentar à Justiça quatro dias depois. Ao fim e ao cabo, não foram apresentadas queixas no tribunal. Mas o episódio provocou a pior coisa que pode ocorrer a um super-herói: ele teve sua identidade secreta revelada.

Phoenix Jones é na verdade Benjamin John Francis Fodor, um lutador de MMA. “Eu sou Phoenix Jones. Eu também sou Ben Fodor. Eu também protejo a cidade, eu também sou pai, sou irmão. Sou como todo mundo”, disse, na saída da corte. “A única diferença é que eu decidi fazer alguma coisa e parar o crime na minha vizinhança. Pretendo continuar fazendo isso.”

É sério. Tudo isso é de verdade. Super-heróis existem. Ou, pelo menos, tem uns caras que se dizem super-heróis.

Na mesma noite em que foi preso, algumas horas antes, Jones impediu um sujeito de ser espancado. Em janeiro do ano passado, a rede de televisão CBS reportou o que parece ter sido a primeira ação dele, ao perseguir e interceptar um ladrão de carros, enquanto o dono do veículo olhava estarrecido.

Mesmo depois da revelação de sua identidade secreta, Jones não abandonou a luta contra o crime. Ele justifica o uso do uniforme de super-herói (que conta com um colete à prova de bala e placas contra esfaqueamento distribuídas pelo corpo) como uma forma de a polícia não confundi-lo com um criminoso.

Em 1º de maio deste ano, mais uma confusão com a polícia. Jones foi acusado de atacar manifestantes com spray de pimenta no centro da cidade. Mas o herói disse, em entrevista no dia seguinte, que havia se infiltrado no movimento e ouvido de vários revoltosos que havia um plano para atacar o fórum da cidade. Jones disse ter reportado isso à polícia, mas, como não recebeu apoio, assumiu a responsabilidade de interceptar os manifestantes e, segundo ele, agir em legítima defesa quando a turba começou a atirar pedras e garrafas nas janelas do edifício.

Nessa última “missão”, Jones estava acompanhado de dois outros heróis – El Caballero e Midnightjack. Ambos são membros do Movimento dos Super-Heróis da Cidade da Chuva (apelido dado a Seattle). A polícia já identificou mais de dez membros no grupo, inclusive a esposa de Jones, Purple Reign.

Vigilantes nada solitários

Embora a polícia detenha, por lei, o monopólio da força para coibir o crime, é fato que diversos infratores já foram presos em Seattle com a ajuda de Jones e seus supercolegas. A relação entre os heróis e a força policial é tensa, e nem todos ficam à vontade com pessoas que fazem justiça com as próprias mãos.

Em tese, impedir atos criminosos não é um crime. Outra coisa seria se esses vigilantes da vida real simplesmente executassem bandidos ou os impedissem de ter um julgamento justo, como a lei exige. Mas eles foram “bem educados”, por assim dizer, pelo próprio código de ética que governa os heróis na ficção.

A existência desses grupos – que são mais numerosos do que se pode supor, inclusive fora dos Estados Unidos – mostra o poder para inspirar (bem ou mal) que os personagens dos quadrinhos têm. Alguns são sérios mesmo na luta contra o crime, como a turma de Jones.

Ainda assim, faltam a esses caras os famosos superpoderes. Sem eles, a morte é um fato da vida. Uma das razões que fazem a polícia criticá-los é justamente o perigo em que se colocam, interferindo em eventos muitas vezes sem saber exatamente o que está acontecendo.

Esforços civis para impedir crimes, nem sempre com as técnicas mais aceitáveis – o chamado vigilantismo -, são mais antigos que os próprios super-heróis. No século 19, no chamado Velho Oeste americano, por exemplo, era comum cidadãos fazerem justiça com as próprias mãos, pois praticamente não havia força policial para protegê-los.

Hoje, em tese, há polícia em toda parte. Mas nem sempre os serviços são suficientes ou satisfatórios. Um grupo de revoltados com o crime correndo solto no Metrô de Nova York criou, em 1979, a organização Anjos da Guarda (Guardian Angels).

Seus membros não se vestem como super-heróis. Para se identificarem, usam uma boina vermelha, um casaco da mesma cor e o logotipo do grupo. Eles costumam transitar pelas ruas e recebem treinamento para impedir crimes. Às vezes, também são mortos “no cumprimento do dever”. Mas foi uma ideia que colou. A organização se expandiu por diversas cidades americanas e por vários países, como Japão, México, África do Sul, Israel e Reino Unido.

Paz e amor

Assim como há gente que combate o crime sem roupa de super-herói, tem quem use trajes coloridos sem sair por aí para bater em bandido. É o caso dos super-heróis “sociais”, que têm pelo menos um representante no Brasil.

O militar aposentado André Luiz Pinheiro, de 50 anos, hoje em dia é muito mais conhecido como o Batman de Taubaté. Há anos ele tem como hobby o “cosplay”, atividade em que as pessoas se fantasiam de personagens, mas a coisa ficou séria quando ele recebeu um convite da Polícia Militar para participar de ações em comunidades carentes.

Pinheiro ressaltou que seu papel como super-herói era apenas “social”. “Eu não vou sair pelas ruas correndo atrás de bandido. Eu não tenho competência nem sou pago para isso”, disse.

Na verdade, ele se vestirá como o Homem-Morcego e fará visitas a comunidades carentes acompanhado de membros do 5º BPMI (Batalhão da Polícia Militar do Interior), em Taubaté (interior de São Paulo). “A ideia do projeto é aproveitar a figura dos super-heróis para resgatar valores como respeito às regras e o conceito de família. Ideais que estão tão afastados, principalmente nas comunidades mais carentes”, afirma o Batman de Taubaté, que começou o novo trabalho em março.

Embora a ação dele seja recente, heróis da vida real com essa pegada mais “social”, e muitas vezes atitudes mais irreverentes e controversas, estão por aí há bastante tempo.

Um dos mais antigos e conhecidos é Superbarrio Gómez, uma espécie de Chapolin Colorado da vida real. Sua primeira aparição aconteceu na década de 1980, na Cidade do México, com um uniforme colado e uma máscara de lutador que escondia sua identidade. Superbarrio participou de vários protestos populares e greves de trabalhadores e, só de zoeira, em 1996 lançou sua “candidatura” à Presidência dos Estados Unidos.

O golpe de publicidade deu certo e Superbarrio virou um fenômeno. Chegou a aparecer em quadrinhos ingleses e virou um desenho animado em curta-metragem. Mas com a virada do século chegou a hora de pendurar a capa e Superbarrio aposentou-se, revelando sua verdadeira identidade: Marco Rascón Córdova. Criado em circunstâncias humildes, ele nem chegou a completar a escola e diz ter sido guerrilheiro nos anos 1970, antes de se tornar um herói.

Curiosamente, Superbarrio se tornou uma figura tão emblemática que em 2005 outro sujeito passou a vestir o uniforme e assumir a identidade ­¿ um fenômeno que é bem comum nos quadrinhos, sobretudo com o lendário Fantasma, de Lee Folk, e, mais recentemente, com o Batman.

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Origens

Outro fenômeno que parece se replicar na realidade, depois de retratado nos quadrinhos, é o “trauma” que dá origem aos heróis. Para Phoenix Jones, o vigilante de Seattle, foi ver seu filho se ferir depois que assaltantes quebraram o vidro do seu carro para roubar o que havia dentro.

Por vezes, contudo, o drama é bem mais trivial. Sarah, de Nova York, só precisou de um pé na bunda do namorado para se tornar Terrífica, a heroína defensora das mulheres indefesas. Sua missão é impedir que as mocinhas que bebem demais sejam inadvertidamente levadas para a cama (para não cogitar coisa pior) por marmanjos espertalhões.

A heroína, que não revela o sobrenome para não comprometer sua identidade secreta e ter suficiente anonimato para levar uma vida normal (normal?), costuma patrulhar bares e casas noturnas de Nova York, aconselhando mulheres que já beberam demais e protegendo-as de predadores.

E a lista de vigilantes mascarados, dos mais diferentes tipos e gostos, parece não ter fim. A internet facilitou a proliferação dessas figuras, que podem se comunicar, trocar experiências e até mesmo superproduzir seus uniformes. O site RealLifeSuperHeroes.org, por exemplo, permite que mascarados do mundo inteiro entrem em contato e se comuniquem. A página é gerida por alguém que se identifica apenas como Mr. X, que talvez seja como uma espécie de Professor Xavier da vida real, guiando e apoiando aspirantes a herói. Foi ele que ajudou Phoenix Jones a dar um trato em seu traje, colocando-o em contato com um especialista que trabalha na fabricação desses itens, digamos, pouco convencionais.

São, a essa altura, centenas de pessoas participando do movimento e se juntando em equipes de heróis. Seriam todos malucos?

É óbvio que cada caso é um caso. Eles vão desde os inofensivos e bem-humorados (como uma empresa de São Paulo que entrega bebidas em domicílio e tem seus funcionários vestidos como super-heróis, para “salvar” algum festeiro em sérios apuros) até os muito sérios, arriscados e questionáveis. Entre os dois extremos, a maioria dos aspirantes a herói, que no fundo só querem realizar sua fantasia de representar algo maior do que elas mesmas.

O que todos esses caras parecem ter em comum é a vontade intrínseca de fazer o bem. Nem sempre os caminhos escolhidos são os melhores, e não raro essas pessoas se colocam na mira do perigo imbuídas apenas de boas intenções e uma fantasia juvenil. Mas uma coisa é inegável: os quadrinhos de heróis transcenderam o status de diversão despretensiosa para transformar nosso mundo para sempre.

PHOENIX JONES

IDENTIDADE SECRETA: Benjamin John Francis Fodor

ÁREA DE ATUAÇÃO: Seattle, EUA

ORIGEM: decidiu combater o crime depois que seu filho se feriu após seu carro ser arrombado por assaltantes.

MISSÃO: patrulhar as ruas e impedir qualquer crime que possa estar em andamento, colaborando com a polícia.

TERRÍFICA

IDENTIDADE SECRETA: Sarah (sobrenome desconhecido)

ÁREA DE ATUAÇÃO: Nova York, EUA

ORIGEM: tomou um fora do namorado e percebeu a “realidade” nas relações entre homens e mulheres.

MISSÃO: proteger mulheres que beberam demais na noite nova-iorquina de serem vítimas de espertalhões com interesses escusos.

SUPERBARRIO GÓMEZ

IDENTIDADE SECRETA: Marco Rascón Córdova (até 2005)

ÁREA DE ATUAÇÃO: Cidade do México

ORIGEM: guerrilheiro nos anos 1970, Superbarrio nasceu inspirado por lutas políticas da sociedade civil.

MISSÃO: encorajar protestos e ações contra a corrupção. O primeiro Superbarrio se aposentou, e outro assumiu a identidade.

BATMAN DE TAUBATÉ

IDENTIDADE SECRETA: André Luiz Pinheiro

ÁREA DE ATUAÇÃO: Taubaté (SP), Brasil

ORIGEM: inicialmente fã de cosplay (se vestir de herói), ele combinou isso ao que aprendeu na Marinha em termos de ações sociais.

MISSÃO: desencorajar atos criminosos ao cultivar valores sociais e familiares em comunidades carentes.

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