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Peruca S/A

Entre templos na Índia e salões de beleza mundo afora, existe um mercado global de cabelo humano. Conheça essa milionária indústria que brota na cabeça das pessoas

Por Renata Miranda Atualizado em 31 out 2016, 18h52 - Publicado em 26 Maio 2014, 22h00

 

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Antes de tocar o chão, golpeados por uma navalha, os fios já viraram produto. Todo dia, um ritual religioso atrai milhares de pessoas aos templos de Tirupati, no sul da Índia. A região é um dos mais rentáveis campos de exploração do mundo em um mercado de milhões de dólares: cabelo humano. Desses templos, exportadores comercializam os fios indianos, que acabam como apliques e perucas em salões de países da Europa, do Extremo Oriente e das Américas. Da fé à vaidade, tem cada vez mais gente usando o cabelo que um dia foi de outra pessoa – geralmente, uma indiana devota.

É um mercado em expansão. Um estudo americano mostrou que a indústria de perucas e apliques de cabelo humano cresceu 2,3% ao ano de 2003 a 2013. A Índia domina a produção, segundo a Comissão Internacional de Comércio dos Estados Unidos, embora China e outros países asiáticos e nações europeias também estejam na jogada. Em 2011, o negócio do cabelo rendeu à Índia US$ 393 milhões. Em 2012, houve um salto de mais de 80%, segundo o UN Comtrade, banco de dados das Nações Unidas que contabiliza estatísticas do comércio de commodities: US$ 721 milhões, número próximo à exportação de calçados brasileiros no primeiro semestre de 2013. A razão do aumento é simples: está na moda. Celebridades como a atriz Deborah Secco e a socialite americana Kim Kardashian popularizaram os apliques nos últimos anos.

Mas por que cabelo indiano? Porque ele é conhecido por sua excelência. É uma questão mais cultural que genética. Primeiro, o uso de produtos químicos na cabeleira, como tinturas, que danificam os fios, é algo raro no país (diferente do Brasil, onde pintar e alisar é muito comum). Segundo – e principalmente – porque há uma grande oferta de cabelo, graças a templos como os de Tirupati. Por isso, o cabelo indiano é sinônimo de qualidade, especialmente quando se trata do tipo remy. Colhido diretamente na raiz do couro cabeludo, esse tipo é virgem, ou seja, nunca passou por nenhum tratamento químico. Outra característica fundamental é que os fios têm todas as cutículas posicionadas na mesma direção. Assim, eles não embaraçam. O resultado é um aplique com aparência mais natural. Por conta disso, o remy é o mais caro do mercado, com preços que variam de US$ 500 a US$ 600 por quilo (fios de qualidade inferior saem por até US$ 200 o quilo).

A procura fez os preços explodirem. Há uma década, o cabelo remy custava menos da metade do que hoje. “As pessoas querem ficar bonitas e por isso gastam muito dinheiro com o cabelo”, diz o empresário indiano Benjamin Cherian, da Raj Hair International, pioneira no negócio. Em 1980, Cherian, um exportador de minérios, recebeu uma encomenda de uma empresa japonesa que queria cabelo para extrair um aminoácido usado em produtos químicos. Ele sentiu a oportunidade no ar e criou a Raj, que hoje atua em pelo menos 35 países.

A origem do ritual é incerta. Ele é imensamente popular porque é uma maneira de fazer uma oferta valiosa e não monetária, algo importante em um país religioso e pobre como a Índia. Para os fiéis, doar cabelo é mais ou menos como acender velas e fazer sacrifícios para católicos. Eles fazem filas, sentam em bancos ou no chão e aguardam sua vez. Cortam tudo para pedir saúde ou agradecer alguma graça atendida, por exemplo. Alguns ficam em silêncio, outros choram.

Doadores não ganham nada, mas os templos, sim. Todo dia, só em Tirupati, cerca de 50 mil pessoas raspam a cabeça. Um exemplo: em 2011, o Tirumala Tirupati Devasthanams, grupo que controla as finanças dos templos, organizou um leilão que vendeu mais de 500 toneladas de fios a empresas como a Raj. É uma montanha de cabelo, com receita anual de US$ 368 milhões. Mas há regras para usar o dinheiro, já que se trata de “cabelo público”. Os templos podem gastar apenas um terço da renda neles próprios. O resto deve ir para obras de caridade, escolas, orfanatos e hospitais. Uma agência do governo monitora a atividade econômica para que isso seja cumprido.

Em 2008, o documentarista italiano Raffaele Brunetti investigou esse comércio no filme Hair India, que mostra a trajetória que o cabelo colhido nos templos indianos percorre até chegar a salões de beleza na Europa. Segundo ele, muitos dos peregrinos não têm conhecimento do destino de suas madeixas. “Mas isso é o que menos importa para eles”, diz Brunetti. Ele explica que os indianos participam do ritual – o “sacrifício do cabelo” – com um único objetivo: presentear os deuses com o bem mais precioso que possuem. Brunetti lembra o que uma mulher que estava raspando a cabeça falou ao ser perguntada sobre o destino que seu cabelo teria: “Se uma europeia quer colocar na cabeça a negatividade da qual estou me libertando agora com esse ritual, o problema é dela”.

Desafio do cabelo derretido

Cabelo virou um mercado internacional, mas tudo depende das pessoas quererem doar ou vender. Além disso, o crescimento natural é lento e limita o aumento da oferta. Os fios de alguém saudável crescem 0,35 mm por dia. Para o cabelo ser aproveitado em perucas e apliques, o comprimento deve estar entre 20 e 25 cm para homens e 50 e 55 cm para mulheres. Ou seja, é preciso esperar até quatro anos e quatro meses para uma doadora poder fornecer um novo aplique. “É muito tempo e as pessoas não querem esperar o cabelo crescer”, diz Kristina Paraskeva, executiva da Wonderful Hair, empresa britânica de apliques de cabelo humano. “Com alta demanda, o maior desafio é estar capacitado para fornecer cabelo de qualidade para todo mundo disposto a pagar”, explica Ron Landzaat, especialista em cabelo do Hair Extension Guide, site que monitora o comércio internacional de fios. “Acho que já estamos próximos do momento em que a demanda será maior que o estoque disponível.” E não há indícios de esfriamento, segundo um estudo da empresa de pesquisa de mercado IBISWorld. “As peças feitas com remy indiano devem continuar ganhando popularidade”, prevê Caitlin Moldvay, analista da IBISWorld.

O mercado cresceu tanto que já conta com grandes empresas que não são da Índia, como a italiana Great Lenghts. Ela compra cabelo nos templos indianos, trata, embala e exporta para vários países, inclusive a própria Índia. Em Nova Délhi, onde a sociedade é mais ocidentalizada, o consumo de cabelo indiano vendido pela empresa da Itália é cada vez mais comum. É como o Brasil, maior produtor e exportador de café do mundo, que importa café processado da Itália e de outros europeus que não plantam o grão.

Uma alternativa para suprir essa demanda seria o cabelo sintético, produzido em larga escala, mais barato e de qualidade inferior. Mas cabeleireiros e clientes resistem. Além de o resultado ser artificial, fios sintéticos não permitem penteados, já que podem derreter com o calor de secadores e chapinhas.

Uma reclamação de quem usa apliques – mesmo os de cabelo natural – são alterações no couro cabeludo. Médicos ainda alertam que o uso prolongado de apliques e perucas pode provocar caspa ou algo pior. “Esses apliques pesam e a tração criada por eles no couro cabeludo pode causar perda permanente de fios”, explica a cientista britânica Gill Westgate, que há mais de 20 anos pesquisa cabelo. Mesmo assim, muitas pessoas seguem dispostas a encarar o risco. Pelo menos enquanto a moda durar.

Uns doam, outros vendem

Na Rússia e em outros países do Leste Europeu, mulheres vendem o cabelo a fim de complementar a renda. Grande parte do material comercializado vem de cachos guardados, obtidos em cortes anteriores – é tradição para mulheres desses países cortar o cabelo depois do nascimento do primeiro filho. A decisão de vender os fios, no entanto, pode vir apenas anos depois e é motivada, quase sempre, por dificuldades financeiras.

Uns compram, outros roubam

O valor pago por fios naturais chamou a atenção de ladrões, e cabeleiras viraram alvo no Brasil e em outros países. Em abril, em um ponto de ônibus de São José do Rio Preto (SP), um homem cortou à força o cabelo de uma jovem de 15 anos. Nos EUA, há casos de roubo de lojas de apliques. Em um desses em Chicago, em 2012, levaram só cabelo e nem tocaram no dinheiro do caixa.

Uns querem, outros precisam

 

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Há entidades que usam fios doados para fazer perucas para vítimas que perderam o couro cabeludo em acidentes. É o caso da ONG dos Ribeirinhos Vítimas de Acidentes de Motor, do Pará. Como o uso de pequenos barcos é comum na Amazônia, o risco de prender o cabelo no motor é maior. Em acidentes do tipo, o couro cabeludo pode ser arrancado – sem ele, adeus, cabelo.

 

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Do templo ao salão
O caminho do cabelo

1. Arrecadação
A maior parte do material vem da Índia, graças a templos no sul do país onde se doa cabelo.

Maiores exportadores
Índia – 43%
Tunísia – 20%
Mianmar – 9,6%
China – 9,5%
Itália – 6,4%
Outros – 11,5%

Maiores importadores
China – 33%
Itália – 31%
Índia – 16%
Outros – 9,6%
EUA – 6,6%
Reino Unido – 3,8%

O cabelo humano negociado no mercado internacional pode ser de dois tipos:

Remy
Raspado já com a intenção da venda. Não embaraça e jamais foi pintado: 1 kg custa até US$ 600

Regular
Composto por fios que caem naturalmente ou que ficam presos em escovas: 1 kg custa até US$ 200

Um couro cabeludo saudável tem 100 mil a 150 mil fios

 

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2. Negociação
Os templos vendem cabelo a empresas. O formato mais comum é o leilão e o cabelo é vendido por peso.

 

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3. Regras
Apenas um terço do dinheiro obtido pode ser aplicado nos templos. O restante precisa ser destinado a obras sociais.

4. Preparação
O cabelo é lavado, hidratado, escovado e, às vezes, despigmentado e colorido antes de ser empacotado.

5. Distribuição
Os lotes são enviados a salões e viram apliques e perucas, alimentando um mercado que cresce no mundo todo.

Gasto dos brasileiros com cabelo
Mercado de apliques e perucas naturais é pequeno no País. Mas em compensação…

Outros – US$ 2,2 bi
Xampu – US$ 2,9 bi
Produtos de tratamento – US$ 2,2 bi
Produtos de coloração – US$ 1,9 bi
Total – US$ 9,2 bi (2º maior mercado do mundo)

Fontes: Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec); Caroline Cox, escritora que estuda a história do cabelo; Hair Extension Guide; IBISWorld Inc.; Instituto Data Popular; Raj Hair International; Sundaram Murugusundram, diretor da Sociedade Indiana de Pesquisa do Cabelo; UN Comtrade; Wonderful Hair. agradecimentos Nilta Perucas, Hannamoon Artigos Indianos.

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