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Pimentel o verdadeiro Nascimento

O policial mais famoso do cinema brasileiro conta que, em Tropa 2, quase tudo é real. Menos a dor de cabeça com a família

Vinicius Cherobino

Ele queria ser militar. mas virou mais do que isso. Rodrigo Pimentel se tornou capitão do Bope em 1995. E foi para a guerra. “Entrei porque queria participar de uma ação militar de verdade”, disse no documentário Notícias de uma Guerra Particular (1999). “E acabei entrando em centenas”. Depois, Pimentel escreveu o livro Elite da Tropa, que serviu de inspiração para o filme de Padilha. E sua persinalidade foi a base para a construção de Nascimento.

Super – O que é ficção em Tropa de Elite 2?
Pimentel – A única coisa que não é real é o conflito familiar, o dilema do Nascimento e sua relação com o filho, com a ex-mulher, toda a busca para reconquistar o filho que vai viver e trabalhar com o Deputado Fraga. Mas todas as histórias que envolvem as milícias foram baseadas em fatos reais, que acontecem no cotidiano do Rio.

Quais, por exemplo?
A operação feita pelo Bope para recuperar as armas roubadas de uma delegacia. No filme, 12 bandidos são mortos. Essas cenas foram inspiradas em uma operação muito semelhante ocorrida em 2007, na qual morreram 19 bandidos. Nós não poderíamos simplesmente inventar uma operação da polícia em uma favela do Rio de Janeiro que acabou com 12 mortos. Nós buscamos uma operação real em que a PM matou 19 bandidos em um único dia.

É verdade que policiais do Bope se fantasiam de policiais da PM algumas vezes, como no filme?
Sim, na vida real também foi assim.Uma equipe do Bope entrou na favela um dia antes da operação vestida como polícia comum para que os bandidos não desconfiassem da presença do batalhão. Com isso, foi possível realizar a operação com mais segurança, com mais eficácia. Tudo isso aconteceu mesmo, não saiu da cabeça do roteirista. É a história real de uma operação.

Há outros episódios do filme que foram inspirados em fatos reais?

Aquela cena do filme, na qual o miliciano assassina uma pessoa sem nem abrir a porta do carro é um deles. Aqui no Rio de Janeiro, um miliciano chamado Félix [Tostes, policial civil acusado de envolvimento com milícias] morreu exatamente da mesma forma. Uma picape encostou ao lado do carro dele e os ocupantes efetuaram disparos através da porta, usando um fuzil AK-47. O projétil de fuzil tem capacidade de perfurar até blindagens. E quem está ao lado não entende nada, ninguém vê o bandido saindo do carro, ninguém vê o bandido avançando contra o alvo.

É agindo assim que milícias dominam favelas?
Para você ter uma ideia, tal como no filme, as pessoas voltavam para a Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas) para desdizer o que tinham dito no depoimento anterior. Por exemplo, as pessoas iam lá e davam um depoimento dizendo: “Fulano matou meu pai”. No dia seguinte, eles voltavam à delegacia e falavam: “Não sei quem matou meu pai, mas tenho certeza de que não foi fulano”. Essa pessoa que denunciou e voltou atrás morria, geralmente, um dia depois. Ela ia à delegacia, mudava o depoimento, e mesmo assim era morta. Quando a pessoa voltava para a delegacia para contar outra história era porque estava sendo vítima de uma ameaça, porque estava com medo de morrer. Tudo isso o Bráulio Mantovani não poderia ter inventado da cabeça dele na hora de escrever o roteiro. É muito fantástico para ser inventado – faz parte do dia a dia.

Em algum momento a ficção foi muito conservadora em relação à realidade?
A primeira linha de investigação do caso dos jornalistas de O Dia que foram torturados na Favela do Batan [estopim para a realização da CPI das Milícias] apontava para um policial civil miliciano que era assessor de um deputado estadual. Esse deputado, na época, fazia parte da mesa diretora da casa. Então, o nível de infiltração de criminosos no poder público é muito maior do que o apresentado pelo José Padilha no filme, por incrível que pareça. Se você buscar na realidade do Rio de Janeiro, é pior. A realidade no Rio de Janeiro a todo momento supera a ficção.