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Como um episódio de Pokémon mandou centenas de crianças para o hospital

Uma cena de 5 segundos foi suficiente para quase cancelar a série, motivar pesquisas e revirar a indústria do entretenimento de cabeça pra baixo.

Por Maria Clara Rossini - Atualizado em 16 dez 2019, 18h40 - Publicado em 16 dez 2019, 18h37

Com tantos fãs mirins, produtos e novos jogos e filmes lançando a cada ano, parece que Pokémon é um fenômeno recente. Na verdade, os “pocket monsters” (ou monstros de bolso) carregam uma legião de fãs há um bom tempo. O primeiro jogo da franquia foi lançado em 1996, seguido por uma série animada que começou a ir ao ar em abril de 1997 – e continua até hoje.

Apesar do sucesso duradouro dos monstrinhos, toda a fama quase foi por água abaixo por conta de míseros cinco segundos de um episódio (quase) fatal. Há exatos 22 anos, no dia 16 de dezembro de 1997, o 38º episódio da série ia ao ar pela primeira vez no Japão. Naquela época, 4 milhões de crianças japonesas assistiam ao anime semanalmente.

O desenrolar do tal episódio culmina em uma cena clássica: Pikachu usa seu poder de choque para salvar o dia. Naquele caso em específico, ele jogou uma alta carga elétrica sobre um programa de computador, o que acaba resultando em uma explosão. A cena mostra flashes vermelhos e azuis pulsando na tela durante alguns segundos – e foi suficiente para causar um belo estrago.

Naquele dia, 685 telespectadores foram parar no hospital com dores de cabeça, enjoo, convulsões e ataques epilépticos em função do episódio. Esse fenômeno é chamado de epilepsia fotossensível, quando a convulsão é desencadeada por padrões de imagens e luzes. 

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Luzes piscando em uma frequência entre 10 e 30 hertz, imagens alternadas e até a cor vermelha são alguns dos estimulantes para quem tem tendência à convulsão. A técnica usada no episódio é chamada de paka paka, e inclui justamente todos esses gatilhos.

Depois do evento, diversas pesquisas se dedicaram a estudar o fenômeno a fundo. Além das crianças que de fato tinham epilepsia, outras pessoas foram afetadas por dores de cabeça e enjoo. Além da cena em si, alguns fatores externos podem ter acarretado uma reação de tanto alcance. As casas japonesas geralmente são menores, o que acabou confinando os espectadores às imagens angustiantes. As crianças, público alvo do desenho, também são mais propensas a ter ataques epilépticos. Além disso, muitas pessoas só relataram ter sentido sintomas dias após a exibição do episódio, o que indica que elas podem ter sido influenciadas por uma histeria coletiva.

O anime quase foi cancelado por conta do incidente. Ele deixou de ser exibido por quatro meses, retornando às telas somente em abril de 1998. O episódio 38, é claro, nunca foi exibido em outros países.

O caso não impactou só Pokémon, mas todos os animes que foram produzidos em seguida. Quem costuma assistir a animes provavelmente já se deparou com uma mensagem em japonês que aparece no início de cada episódio. Ela recomenda assistir ao desenho em um ambiente claro e ficar distante da tela de televisão. O alerta, claro, é herança do acidente.

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Outras normas foram instituídas para os desenhos japoneses. Nenhuma cor pode piscar na tela mais de cinco vezes por segundo, e se for vermelho não pode passar de três vezes. O episódio de Pokémon tinha ido bem além dessa cota: foram flashes azuis e vermelhos alternados em uma frequência de 12 por segundo.

Depois do acontecimento, a indústria televisiva e cinematográfica faz um grande esforço para alertar sobre quaisquer efeitos indesejáveis que as produções possam causar. Em 2018, a Disney anunciou que cenas de “Os Incríveis 2” poderiam causar ataques epilépticos em alguns espectadores. Mais recentemente, o estúdio fez o mesmo alerta para “Star Wars: A Ascensão Skywalker”, que estreia nesta quinta (19).

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