Conheça “Nickel Boys”, drama indicado ao Oscar filmado em primeira pessoa
Longa chega ao Prime Video no dia 27 de fevereiro, três dias antes do prêmio. Saiba como (e por que) ele foi feito dessa forma.

Um dos indicados a Melhor Filme do Oscar deste ano está voando abaixo do radar para a maioria das pessoas. Não é culpa do público, mas da distribuição feita aos quarenta do segundo tempo: Nickel Boys estreia no Brasil dia 27 de fevereiro (três dias antes do prêmio) direto no streaming, sem passar pelas salas de cinema do País.
É uma pena que muitas pessoas nem saibam que Nickel Boys existe, porque o filme parece ser um dos mais criativos dessa temporada de premiações. O diretor RaMell Ross, que começou no mundo dos documentários (e foi indicado ao Oscar por um, em 2019), decidiu filmar sua primeira obra de ficção com a câmera em primeira pessoa, ou seja, da perspectiva do protagonista.
Nickel Boys é uma adaptação do romance homônimo de 2016 escrito por Colson Whitehead. O filme conta a história de dois amigos, Elwood (interpretado por Ethan Herisse) e Turner (Brandon Wilson), que são enviados para um reformatório na Flórida nos anos 1960. Esse misto de escola e prisão foi muito comum durante os séculos 19 e 20, e apesar das polêmicas sobre as instituições, que eram muito violentas, ainda hoje pode ser encontrado em alguns lugares (ainda que sem o nome de “escola de reforma”).
O reformatório do filme foi inspirado na instituição real Florida School for Boys, que funcionou de 1900 até 2011 e ficou conhecida pelo tratamento abusivo dos estudantes – especialmente de jovens negros como Elwood e Turner (três vezes mais jovens afro-americanos morreram no reformatório do que jovens brancos). Os corpos dos estudantes mortos começaram a ser exumados só em 2013.
Por que primeira pessoa?
Nickel Boys foi extremamente elogiado desde sua estreia, no 51º Festival de Cinema de Telluride, no fim de agosto de 2024. Uma das coisas mais interessantes sobre o filme é que ele foi gravado em primeira pessoa, variando entre a perspectiva de Elwood e o ponto de vista de Turner. Dá para ter uma noção assistindo ao trailer:
Para fazer isso, Ross pedia para que os atores olhassem para um ponto específico da câmera, como se estivessem fitando os olhos do personagem – situação estranha para os atores, acostumados a nunca olhar diretamente para a lente. Normalmente, o outro ator estava atrás da câmera, para ler suas falas e interagir com o parceiro de cena. Para fazer o ponto de vista de forma convincente, as cenas precisavam ser coreografadas e ensaiadas com precisão.
Quem cuidou da fotografia nada convencional do filme foi Jomo Fray. Para que a filmagem em primeira pessoa alcançasse mais naturalidade, o diretor de fotografia fez os próprios atores trabalharem como cinegrafistas em algumas cenas, operando a câmera que encarnaria seu ponto de vista por meio de um body rig, macacão que sustenta o aparelho.
A ideia do diretor era que a fotografia em primeira pessoa – que ele chama de perspectiva senciente – pudesse funcionar como uma ferramenta de empatia para os espectadores, levando-os a calçar os sapatos de outra pessoa e experimentar a alteridade por meio do cinema.
“Na maior parte do universo do cinema, você aprende sobre os personagens por observação, por uma objetificação fundamental”, explicou Ross numa entrevista em vídeo para a revista The New Yorker. A ideia dele, que busca sair da objetificação e da análise do comportamento de corpos negros, é “filmar a partir de, e não em direção a”. É uma forma de construir uma ponte entre espectador e personagem.
Você vai poder conferir a abordagem inovadora de Nickel Boys a partir de 27 de fevereiro, quando o filme entra no catálogo do Amazon Prime Video. Além de Melhor Filme, a estreia de RaMell Ross no mundo da ficção também concorre ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado.