GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Dance, dance, dance

Erika Brandão

Imagine um clube perfeito. Nele não tem fila no bar nem no caixa, o som é de qualidade, o DJ é bom, a pista é animada e cheia de gente linda e interessante, o banheiro tem todos os produtos de primeira necessidade, os flyers são divertidos, os promoters são amigos…Foi isso que a gente fez aqui: criamos um clube-frankenstein feito a partir das melhores coisas que já rolaram na história. Como diriam os Tribalistas, agora só nos resta sonhar…

O M

Pra começar, um clube tem que ter um belo sistema de som. O primeiro passo pra alcançar isso é o posicionamento das caixas de grave, médio e agudo na pista, sem falar da qualidade dos equipamentos. O Paradise Garage, um dos berços da house music comandado pelo saudoso DJ Larry Levan (uma espécie de deus desse gênero musical), foi o expoente no quesito som perfeito.

O Paradise Garage existiu de 77 a 87, em Nova York, e seu sistema de som foi exaustivamente copiado por clubes mundo afora.

Levan era um perfeccionista. Ele tinha o controle total da noite, comandava inclusive a iluminação quando achava necessário. Levan tinha um segundo controle de luzes dentro da cabine pra apagar tudo quando sentisse que o clima pedia (quando soltava um a capella, por exemplo) ou pra acender tudo, de acordo com a entrada de uma música mais explosiva. Além do som Levan ajudava na animação do clube: quando ele estava satisfeito, se juntava à pista pra dançar seu próprio som com a galera. O som de Levan e o astral do clube foram imortalizados no termo garage, subgênero da house que tem andamento mais lento e forte presença de vocais.

O DJ

O DJ tem que ser eclético, pero no mucho. Eclético a ponto de ser inusitado sem perder a mão. Em 87, Alfredo, do clube Amnesia, em Ibiza, foi um dos DJs que mostraram para os hoje megastars da discotecagem Paul Oakenfold e Danny Rampling o que seria o Verão do Amor, que aconteceu na Inglaterra só no ano seguinte. O Summer of Love marcou o primeiro boom do consumo de ecstasy na Inglaterra e, conseqüentemente, lotou as pistas de dança de norte a sul do país.

Na ilha espanhola, Alfredo tocava dance music pra uma horda de veranistas formada por celebridades, ingleses riquinhos e gays festeiros. Alfredo tocava hits, o que funcionava como uma isca para atrair gente. Com a pista lotada de dançarinos atrás de músicas conhecidas, Alfredo começava a jogar nas pick-ups sons mais obscuros. Essa mistura ficou conhecida também como “balearic sounds”, por causa da localização de Ibiza (nas ilhas Baleares). Prince (“Sign O’ The Times”), George Michael (“I Want your Sex”) estavam no mesmo set que a house underground de Chicago.

Outro DJ que influenciou muita gente por conta de seu repertório refinado foi David Mancuso, na Nova York dos anos 70. Mancuso era um purista: pra ele, as músicas não podiam ser mixadas porque era preciso ouvi-las por inteiro, pra saborear cada nota. E sua seleção, no The Loft, um dos clubes mais fechados e disputados (que diga-se também era sua casa, por isso só entrava quem ele convidava), inspirou gente como Larry Levan e Frankie Knuckles a seguirem a carreira de DJ. Levan, você já sabe, virou mestre do estilo garage e abriu o Paradise Garage, em NY. Knuckles foi pra Chicago e abriu o clube Warehouse, conhecido até hoje como berço da house music – o gênero, aliás, se chama “house” por causa desse clube.

A PISTA

A pista desse “dream club” tem que ter animação e variedade de convidados, gente VIP dançando ao lado de desconhecidos cheios de estilo e atitude. O Studio 54 (77 a 86), a primeira grande discoteca de NY, tinha isso tudo. Foi ali que surgiu a “door policy”: só entra quem o dono quer, e ele, Steve Rubell, escolhia as pessoas a dedo. Dentro do Studio 54 tudo era permitido, e todos disputavam a tapas pra entrar naquela terra de ninguém. Quem entrava conseguia se sentir confortável transando e se drogando na frente de quem fosse. O povo fazia de tudo: a cantora pop Grace Jones chegou pelada inúmeras vezes. Bianca Jagger, ex-senhora Mick Jagger, entrou no clube em cima de um cavalo branco. Elizabeth Taylor foi flagrada com alguma coisa sendo colocada sobre a língua. John Travolta bebia ao lado de Woody Allen, Andy Warhol e Jerry Hall. Um dos bartenders do Studio foi Alec Baldwin. As pessoas pintavam seus corpos de prata, a “go-go girl” do lugar era uma octagenária pilhada, enfim, era um grande teatro.

E todo mundo era embalado pela disco music, pelo sexo e pelas drogas. A excitação por ter entrado no clube era sempre tão grande que a pista não parava nunca.

Certa noite, os caras do lendário grupo de disco music Chic, Nile Rodgers e Bernard Edwards, foram barrados na porta do Studio 54. Voltaram pra casa e compuseram “Fuck Off”, que depois virou “Freak Out” e, mais tarde, “Le Freak”, um dos maiores sucessos da dance music de todos os tempos. Barrar pessoas na porta não está nos sonhos de ninguém, já que um dos grandes ideais da cultura eletrônica é a união da pista como um organismo único blábláblá… Mas, se os caras do Chic não tivessem sido barrados, o mundo teria ficado sem um dos maiores clássicos das pistas.

O BAR

Mas e o bar desse clube dos sonhos? Tem que ser tranqüilo, a ponto de o cara estar com sede e não precisar amargar na fila do caixa ou se espremer no balcão pra pedir um drinque. O Haçienda (82 a 97), seminal clube de Manchester, Inglaterra, venceu nesse quesito. Seus donos eram, entre outros, a galera do New Order. O Haçienda fechou porque não dava lucro. O bar, parte do clube que costuma gerar mais dinheiro, mal funcionava. Quando o Haçienda surgiu, na rabeira veio o fenômeno do ecstasy. Logo o clube se tornou o local perfeito pros jovens consumirem a droga.

E normalmente quem toma ecstasy não consome álcool. Resumindo: no bar só se vendia água, e quem enriqueceu com o clube foram os traficantes. Para os donos sobraram apenas dívidas. Conclusão: a grana preta que o New Order conseguiu com “Blue Monday”, o single mais vendido na Inglaterra de todos os tempos, foi usada pra saldar as dívidas. Ou seja, o Haçienda foi um sucesso, porém um péssimo negócio. Hoje é uma lenda que virou até filme, o “A Festa Nunca Termina” (“24-Hour Party People”).

GARÇOM_GARÇONETE

Se no seu clube-frankenstein tiver garçom ou garçonete, eles têm que se misturar ao público como se fizessem parte dele. Nada pior que um pingüim de geladeira andando pela pista e equilibrando uma bandeja na mão enquanto todo mundo sacoleja. Bem antes de formarem o grupo de disco music As Frenéticas, as cantoras e atrizes que o formaram foram contratadas pelo jornalista e empresário Nelson Motta pra servir os freqüentadores da Frenetic Dancin’Days (1976), a primeira discoteca brasileira nos moldes das gringas. Motta foi contratado pra ajudar a divulgar o Shopping da Gávea que estava sendo construído, no Rio de Janeiro.

Pelo contrato, sua discoteca teria somente quatro meses de vida. Foi a maior sensação: ali se misturavam intelectuais, artistas, socialites, surfistas, gays, todos dançando felizes ao som do DJ Dom Pepe. Em determinado momento, as garçonetes/atrizes/cantoras paravam de servir pra subir nas mesas e fazer um show, cantando de Luiz Gonzaga a Rolling Stones, e também muita disco music. A discoteca acabou, mas nunca mais vamos esquecer das Frenéticas, que deixaram para a posteridade hits como “Perigosa”. Campeãs no quesito simpatia e originalidade.

NOVIDADE

O clube dos sonhos precisa exalar novidade, senão vira só mais um. Essa foi, entre outras, a função do Hell’s Club (94 a 98), o primeiro afterhours do Brasil. A balada no subsolo do Columbia, em São Paulo, começava às 4 da manhã e acabava depois das 11h. O Hell’s gerou muitos clubbers que estão por aí até hoje, ampliou horizontes, inovou musicalmente. Foi ali que muita gente ouviu falar pela primeira vez de grandes nomes da música eletrônica como Laurent Garnier, Slam, Plastikman. Ali muita gente passou a deixar os pais, que esperavam na mesa do almoço dominical, de cabelo em pé.

AURA HYPE

É legal também ter uma certa aura de hype, uma certa estratégia pra criar comoção em torno de um assunto. E hype maior que a Régine, dona do clube homônimo aberto em Paris em 1960, não houve. Ela passou um mês abrindo seu clube (discothèque, na época) pras moscas. Todas as noites durante o mês de inauguração ela ligava o som bem alto, acendia as luzes e pendurava na porta um cartaz dizendo que a discothèque estava lotada. Isso serviu pra atiçar a curiosidade das pessoas, e a cada dia mais gente tentava entrar. Quando ela finalmente abriu a casa pro público, o clube lotou e ela conseguiu botar Jean-Paul Belmondo, Alain Delon e toda a turma da nouvelle vague pra dançar.

A DIVULGAÇãO

A divulgação do clube tem que ser original, de preferência divertida pra empolgar o clubber em potencial logo de cara. Pra isso, é preciso reunir bons promoters e temas de festas criativos. Isso o Brasil tem de sobra. Em São Paulo tem um representante de peso: o promoter Nenê fez história na noite paulistana com seus flyers divertidos, com suas festas temáticas e debochadas no Sra. Krawitz. O clube funcionou no começo dos anos 90 e tinha como residentes os DJs Mau Mau, Renato Lopes e a drag queen Selma Self-Service (na verdade o DJ Edu Corelli). Nenê inventava festas como a VIP, abreviação para Viado Impossibilitado de Pagar e Orquidário Krawitz, uma alusão ao calor infernal que fazia no lugar.

BANHEIRO

O banheiro de um clube dos sonhos é aquele que está sempre limpinho e que, de preferência, tenha tudo o que você possa precisar: meia-calça (vai que a sua rasga?), escova de cabelo, escova de dentes descartável, desodorante, gel de cabelo, engov, sal de fruta, perfume, etc. O banheiro do clube Limelight, que ficava na rua Franz Schubert, em São Paulo, no começo dos anos 90, era um desses. Ali você encontrava tudo o que quisesse, e mais um pouco.

O Columbia também tinha um banheirão equipado. Hoje em dia essa prática foi quase abolida. As tias do banheiro foram substituídas por aquela turma que usa tabuleiros pra vender seus produtos nas pistas das festas. Geralmente ali tem vários tipos de chiclete, bala e cigarro. Agora, meia fina, desodorante e maquiagem, que é bom, eu nunca mais vi…