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Isoroku Yamamoto

O homem que planejou e lançou o ataque contra Pearl Harbor gostava dos EUA e estudou em Harvard.

Roberto Navarro

A história do almirante Isoroku Yamamoto está cheia de ironias. Para começar, esse homem, que planejou e lançou o ataque contra Pearl Harbor, era justamente o maior opositor a uma guerra do Japão contra os Estados Unidos. Não que fosse pacifista. Isoroku nasceu em 1884 numa família de guerreiros, os Takano, e seu pai, um samurai aposentado de 56 anos – daí o nome Isoroku, escrito em japonês com os ideogramas do número 56 –, ganhava a vida forjando espadas. Acontece que seus primeiros professores foram missionários americanos, que lhe ensinaram inglês e lhe apresentaram o cristianismo e a cultura ocidental. Começou aí sua admiração pelos futuros inimigos.

Aos 17 anos, Isoroku foi admitido na Academia Naval Imperial, onde se destacou não só pelo brilho acadêmico, mas também por seu interesse pelo Ocidente numa época em que era intenso o sentimento antiocidental entre os militares japoneses. Em 1905, um ano depois de formado, Isoroku participou da batalha do Estreito de Tsushima, vencida pelo Japão e decisiva na guerra russo-japonesa, o primeiro conflito em que um país asiático derrotou uma potência ocidental, o Império Russo. Na batalha, Isoroku perdeu dois dedos da mão esquerda e ganhou fama de herói. Mesmo assim, continuou a enfrentar discriminação, no meio militar, por sua simpatia pelo Ocidente. Na época, crescia no Japão um ressentimento contra os Estados Unidos, por causa da atuação americana na Conferência de Portsmouth, que encerrou a guerra com os russos mas negou ao Japão o direito a indenizações.

Em 1916, o almirante Gonnohyoe Yamamoto, sem filhos e último descendente de uma tradicional família de samurais e líderes militares, adotou Isoroku para garantir a continuidade da sua linhagem. Amparado agora pelo sobrenome Yamamoto, Isoroku foi escolhido para uma temporada de dois anos de estudo na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com a missão de aperfeiçoar seu inglês e descobrir o que pudesse sobre o poderio militar americano. Lá, o militar consolidou sua convicção de que desafiar os ianques era impraticável diante dos recursos da potência ocidental e da fragilidade da economia japonesa.

Depois da promoção a almirante, Yamamoto foi nomeado diretor do Departamento de Aeronáutica da Marinha. Suas idéias moldadas nos Estados Unidos determinaram a revolução na tecnologia militar que ocorreu no período. Entre várias outras inovações, sua gestão levou à criação do avião bombardeiro Mitsubishi G4M (conhecido como “Betty” pelos Aliados). Mostrando estar pelo menos uma década à frente dos estrategistas ocidentais, o almirante desenvolveu a idéia da “frota aérea”, uma força de aviação independente capaz de atacar alvos navais a partir de bases em terra, mas que podia ser rapidamente convertida para operar em porta-aviões.

Em julho de 1941, diante do crescente domínio dos militaristas sobre a política japonesa e dos embargos econômicos impostos pelos Estados Unidos, Yamamoto entregou os pontos: não havia mais nada a ser feito para evitar a guerra. Então, começou a planejar um ataque-surpresa que fosse devastador o bastante para arrasar de um só golpe as forças americanas no Oceano Pacífico e forçar os Estados Unidos a assinar um armistício. O resultado é o bombardeio de 7 de dezembro de 1941 à base de Pearl Harbor, no Havaí. Os aviões desenvolvidos por Yamamoto brilharam no ataque, mas a vitória arrasadora que ele buscava não aconteceu graças a um erro fatal – os porta-aviões americanos escaparam da destruição por estarem em treinamento. Resultado: os Estados Unidos entraram na guerra decididos a vingar o “dia que viverá para sempre na infâmia”.

Vingança que, no caso de Yamamoto, se concretizou na manhã de 18 de abril de 1943. Os americanos prepararam uma emboscada aérea sobre as Ilhas Salomão e derrubaram o avião em que o almirante viajava, matando-o. Ironia final: nessa última viagem, Yamamoto era passageiro de um bombardeiro Mitsubishi G4M “Betty”, sua criação.

* Roberto Navarro é jornalista e morou oito anos no Japão.