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Louco não, quixotesco

O clássico de Miguel de Cervantes foi o primeiro romance a ter repercussão global. Tudo graças a sua principal ideia: a defesa das causas impossíveis

Por Alexandre de Santi (edição: Bruno Garattoni) Atualizado em 23 out 2020, 13h37 - Publicado em 4 dez 2015, 19h30

Livro: Dom Quixote
Autor: Miguel de Cervantes
Ano: 1605
Por que ler? Foi eleita a maior obra de ficção de todos os tempos.

Em maio de 2002, a convite do Instituto Nobel, cem dos mais renomados escritores de 54 países elegeram Dom Quixote a maior obra de ficção de todos os tempos. Concorriam com o livro de Cervantes joias literárias escritas por Shakespeare, Dostoiévski e Kafka, mas a vitória foi folgada. O escrito espanhol é considerado o primeiro grande romance mundial, além de fundador de uma literatura ibero-americana imaginativa que deixaria descendentes como Cem Anos de Solidão, o clássico de Gabriel García Márquez.

Quixote conta a história do fidalgo Alonso Quijano, fanático leitor de histórias de cavalaria que passa a acreditar que as aventuras da ficção são verídicas. Em delírio, ele decide se tornar cavaleiro, nomeia a si mesmo Dom Quixote de La Mancha e passa a viajar pelos territórios espanhóis de La Mancha, Aragão e Catalunha montado no pangaré Rocinante. Ao seu lado caminha Sancho Pança, fiel amigo com visão realista das peripécias vividas na estrada pelo fidalgo metido a herói. A trama gira em torno das trapalhadas do desvairado Dom Quixote, que, em desacordo com a realidade, luta contra moinhos pensando que são gigantes, enfrenta rebanhos de ovelhas como se fossem exércitos, solta bandidos como se libertasse escravos, vê lindos castelos em simples estalagens e faz de uma pobre campesina sua musa rica, bela e inspiradora. No final da primeira parte, humilhado e ferido, o fidalgo recobra a consciência e volta para casa. O romance não teria continuação. No entanto, ao ver circular uma falsa sequência da obra, com novas aventuras do fidalgo, Cervantes publicou a segunda parte da história dez anos depois do tomo inicial. No final, o escritor narrou a morte do personagem para evitar que aproveitadores pegassem carona na sua criação.

Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em setembro de 1547 e publicou El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, o título original que foi resumido ao longo dos séculos, somente aos 58 anos. Antes disso, fugiu para Roma após ferir um homem em duelo, teve a mão esquerda inutilizada em combate contra os turcos, passou cinco anos em cativeiro na África capturado por corsários e foi preso em Madri por dívidas. Entre um infortúnio e outro, escreveu peças de teatro, poesia e contos. Nada comparável ao sucesso de Quixote. Cervantes morreu em 1616, aos 68 anos, meses após completar o livro. Em 1780, com dinheiro da realeza espanhola, a obra ganhou uma edição revisada. Logo em seguida, em 1794, foi publicada a versão portuguesa. As cerca de 1.500 páginas fazem do clássico um desafio aos leitores, repelindo alguns. Mas a história ficou popular mesmo assim por conta de edições resumidas, versões infantis e adaptações para teatro, balé e cinema.

Bem se vê (…) que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.

Mais do que uma narrativa divertida sobre as desventuras de um fidalgo desequilibrado, o livro é uma sátira que Cervantes faz da Espanha do seu tempo. Assim como os romances de cavalaria medievais amados pelo anacrônico protagonista e parodiados pelo escritor, o país vivia em declínio no início do século 17. Os anos de pujança política, militar e econômica davam lugar a um período de divisões e crises. Dom Quixote retrata um espanhol incapaz de enxergar a realidade, que prefere viver em um mundo de sonhos para não ter de encarar a dura verdade. Se alguns consideram o personagem simplesmente louco, outros o entendem como um sofredor que usa a criatividade para tornar seu mundo menos banal.

Todos nós temos um pouco de Quixote. Diante da fria realidade, maquiamos parte de nossa existência em busca de uma vida mais envolvente e significativa. A corrida no fim de tarde facilmente vira uma maratona cheia de fortes adversários quenianos, os companheiros de time assumem a genialidade de grandes craques do futebol, a garota misteriosa das redondezas evoca uma princesa. Que garoto não narrou o próprio gol imitando a voz dos locutores esportivos enquanto chuta a bola na parede do quarto? A realidade fica muito mais interessante com uma pitada de criatividade. É na tênue linha entre loucura e imaginação que está o grande debate em torno da obra de Cervantes. Dom Quixote viveu e amou intensamente a realidade que construiu para si. Assim como ele, somos sonhadores, ingênuos e românticos.

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