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Não, a Mona Lisa não te segue com os olhos

O chamado "efeito Mona Lisa" até existe, mas não se aplica à obra-prima de da Vinci

A Mona Lisa, criação de Leonardo da Vinci, revolucionou a arte. Pequenininha, ela só precisou de 77 cm x 53 cm para reunir todas as inovações estéticas que marcaram o Renascimento, como perspectiva, contraste de luz e sombra, configuração piramidal e a técnica do sfumato.

Desde quando veio ao mundo, dizia-se que a pintura teria atingido um novo nível de veracidade: “o nariz, com suas belas narinas rosadas e tenras, parecia estar vivo. A boca, com a abertura ligada às extremidades pelo vermelho dos lábios e tons de carne do rosto, parecia, na verdade, não serem cores, mas a própria carne. No fundo da garganta, se olharmos atentamente, podemos ver o sangue pulsar”, escreveu Giorgio Vasari, famoso artista e biógrafo italiano do século 16.

Mas além do nariz, do sorriso ou da postura da jovem do retrato, o que vira e mexe acaba roubando a atenção é o olhar. Seus olhos exibem uma expressão carregada de intensidade, e criam uma ilusão de que aquela visão inquisitiva segue o espectador por todos os lados. O fenômeno ficou tão famoso que foi batizado informalmente de “efeito Mona Lisa”.

Um estudo da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, porém, acabou com o argumento dos fãs da Gioconda: ele provou que o “efeito Mona Lisa” não se aplica à obra prima de da Vinci.

Antes que você ache que nada faz sentido e que o mundo é uma mentira, uma coisa é fato: “o efeito Mona Lisa” existe. Ele depende de diversos fatores: além da direção do olhar da figura pintada, a posição de sua cabeça e a inclinação da própria imagem criam condições geométricas específicas. Tais condições podem distorcer a percepção do observador em relação ao olhar do retrato. Quando as condições estão perfeitas, a sensação ocorre independentemente do ângulo em que o espectador esteja.

 (Reprodução/Creative Commons)

A única questão é que, até então, ninguém havia se prestado a testar se o “efeito Mona Lisa” valia para a própria.

Para realizar essa tarefa, os pesquisadores posicionaram 24 participantes a 66 cm de distância de uma tela de computador que mostrava Gioconda. Uma régua foi colocada na frente do monitor, e cada espectador marcou o local onde achavam que o olhar de Mona Lisa pousou. Em dois experimentos distintos, a régua foi posicionada entre 15,5 cm e 35,5 cm de distância da tela. A ideia é que, assim, conseguissem saber o ângulo exato em que a modelo batia o olho.

Depois de analisar cerca de 2 mil avaliações dos participantes, os pesquisadores descobriram que o olhar da figura icônica está a aproximadamente 15,4 graus de distância de sua posição atual. Um ângulo zero significa que a obra está olhando direto para quem vê, o que não geraria nenhum efeito se a pessoa estivesse na lateral da obra. Agora, um olhar ligeiramente lateral, correspondendo ao ângulo de 5 graus, provoca a sensação de estar sendo observado, independente da posição do observador. “Mas à medida que o ângulo aumenta, você não terá a impressão de ser olhado”, disse Gernot Horstmann, um dos autores do estudo.

Ou seja: a Mona Lisa tem o olhar muito à esquerda. Não é exagero dizer que o nome “efeito Mona Lisa” é, então, nada além de uma homenagem de algum fanboy de da Vinci. O que, claro, não tira em nada a grandeza da obra.