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O som é a paisagem

Uma das conseqüências foi a criação, na França da década de 1940, da musique concrète.

José Augusto Lemos

Quem vive em grandes cidades sabe: um dos bens mais raros e preciosos do nosso tempo é o silêncio. Como se não bastasse a imundície do ar que respiramos, vivemos sob o bombardeio constante de informações não desejadas e indigestas: sons – e imagens – tão poluentes quanto o escapamento de carros, ônibus e caminhões.

No começo do século XX, porém, os futuristas italianos celebravam o ruído dos motores como a mais bela música moderna. Uma das conseqüências foi a criação, na França da década de 1940, da musique concrète: peças musicais exclusivamente feitas da colagem de sons ambiente, que inspiraram todas as vanguardas eletrônicas, de Stockhausen e John Cage a Kraftwerk e Aphex Twin.

Essa percepção é levada às últimas conseqüências pelo compositor e teórico canadense R. Murray Schafer em A Afinação do Mundo (“The Tuning of the World”), publicado originalmente em 1977 e só agora traduzido para o português pela Editora da Unesp. Tamanho é o atraso que o livro já chega com o status de clássico indiscutível, um banho nada gratuito de erudição, introdutor dos conceitos de “ecologia acústica” e “paisagem sonora”, hoje correntes na filosofia da linguagem musical. Dos sons da natureza aos criados pelo ser humano, o tratado de Schafer traça o mais vasto panorama imaginável, numa obra de referência obrigatória para músicos e todos aqueles que acreditam que saber ouvir, por si só, já é uma grande arte.