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Oscar: entenda por que as categorias de edição e mixagem de som se juntaram em uma só

A decisão tem sido pensada há décadas, e os profissionais da área apoiam a unificação. Saiba o que muda a partir de agora – e qual filme deve vencer esse ano.

Por Rafael Battaglia Atualizado em 17 abr 2021, 19h28 - Publicado em 17 abr 2021, 19h12

Você provavelmente nunca ouviu falar em Thomas T. Moulton, mas o cara tem um currículo invejável: 16 indicações ao Oscar e cinco vitórias. O seu nome está nos créditos de grandes clássicos do cinema, como …E o Vento Levou (1939) e A Malvada (1950).

Moulton nasceu no final do século 19, então daremos um desconto. Outro que também já recebeu 16 indicações ao careca dourado é Greg P. Russell, que já trabalhou em filmes como Homem-Aranha (2002) e 007: Operação Skyfall (2012). A diferença é que Russell, coitado, nunca ganhou – ele detém o recorde infame do maior número de nomeações ao Oscar sem vencer. Também não o conhece?

Talvez seja porque Moulton e e Russell não estampam cartazes e trailers de filmes, tampouco os dirigem. Na verdade, eles são engenheiros de som – uma posição que é o cúmulo do “trabalho de bastidor”, mas que é essencial para qualquer produção cinematográfica.

Prova disso é que o Oscar têm duas categorias para premiá-los, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som (calma, a gente já explica a diferença entre elas). Bom, tinha: a partir da edição deste ano, que acontece no domingo, dia 25 de abril, as duas categorias são, agora, uma só: Melhor Som.

  • Pondo as cartas na mesa (de mixagem)

    Antes de falar sobre a mudança, vale entender a diferença entre as duas (ex) categorias.

    Os editores de som são os responsáveis por (quase) tudo o que estiver relacionado ao som de uma obra audiovisual, da captação de áudio durante as filmagens aos efeitos sonoros que serão inseridos na pós-produção. Vale de tudo: do barulhinho de um molho de chaves às explosões dos filmes do Michael Bay.

    Depois, entram em cena os mixadores, que vão pegar todos os sons e equilibrá-los ao longo do filme. Mas não pense que basta aumentar ou diminuir o volume das faixas. É mais complexo do que isso. Tendo em mente a intenção de determinada cena (rir, chorar, assustar, etc.), é preciso saber em que momento valorizar os diálogos, o som ambiente e a trilha sonora. É aqui que também se dá profundidade ao som (sensação de distância, como o barulho de um trem se aproximando).

    Em resumo: a edição cuida de captar todos os sons que aparecerão no filme. Cabe à mixagem decidir como o público irá ouvi-los.

    A categoria de mixagem de som é bem antiga – está presente desde a terceira edição do Oscar, em 1930 (até 2003, ela era chamada apenas de “Melhor Som”). Nos primórdios da cerimônia, quem era creditado como vencedor eram os departamentos de som dos estúdios de Hollywood (Warner, MGM, Paramount e por aí vai).

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    Isso começou a mudar em 1933. O nome do estúdio ainda aparecia na frente, mas os nomes dos responsáveis também eram colocados. A partir de 1969, os indicados aparecem como hoje: apenas os profissionais são creditados.

    A categoria de edição de som surgiu somente em 1963, sob o nome de “Melhores Efeitos Sonoros”. Depois, mudou para “Engenharia de Efeitos Sonoros” – nada atraente, não? Em 1979, a Academia resolveu trocar para o nome usado até o ano passado.

    Unidos venceremos

    Segundo o jornal Los Angeles Times, que entrevistou engenheiros, editores e mixadores de som, a união das duas categorias não surgiu da noite para o dia. Na verdade, é uma decisão que vem sendo discutida há, pelo menos, 20 anos.

    O primeiro motivo é a sobreposição das duas áreas em função do avanço das tecnologias nos últimos anos. “Eu desafio qualquer um que não trabalhou no filme a me dizer de que parte do som eles gostaram mais: a edição ou a mixagem”, disse ao jornal Donald Sylvester, que levou o Oscar de Melhor Edição de Som em 2020 por Ford v Ferrari. Ele confessou também que parte da alegria da vitória se perdeu quando a equipe do longa não conquistou o prêmio de mixagem.

    Outro motivo foi a frequência em que um ‘ filme levou ambos os prêmios: nos últimos 13 anos, isso aconteceu oito vezes. O trabalho das equipes de som é algo tão coletivo e difícil de separar em caixinhas que, nesse mesmo intervalo de tempo, seis pessoas foram indicadas nas duas categorias em uma mesma edição do Oscar.

    Por fim, os profissionais esperam que a unificação facilite o entendimento do público, que, não raro, se confundia com a divisão. Pode ser uma boa saída para aumentar o apelo da categoria – e evitar que as pessoas aproveitem o anúncio dos indicados para ir ao banheiro ou fazer um lanchinho.

    Quem leva esse ano?

    Neste ano, cinco filmes concorrem a Melhor Som: O Som do SilêncioRelatos do MundoGreyhoundMankSoul – todos eles, veja só, disponíveis em plataformas de streaming.

    Filmes de ação e musicais costumam se dar bem nas categorias de som, e até a Pixar de Soul tem um histórico vitorioso (Os Incríveis venceu em 2005 como Melhor Edição de Som). Mesmo assim, o favorito deste ano, até agora, é O Som do Silêncio, que narra a trajetória de Ruben (Riz Ahmed), um baterista de heavy metal que descobre estar, gradualmente, perdendo a audição. O favoritismo se deve, justamente, à experiência sensorial que o filme traz ao colocar o espectador sob a perspectiva do protagonista. Se você está na dúvida sobre qual escolher para o bolão do Oscar, vai na fé. Pode nos cobrar depois.

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