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Quando falam as flores: chaves de um código

A violeta era a flor preferida dos gregos. Os romanos eram apaixonados pelas rosas. Com o tempo, as flores tomaram-se símbolos por meio dos quais os homens exprimem seus sentimentos. Cada uma tem seu próprio significado

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h54 - Publicado em 31 mar 1988, 22h00

Diz a mitologia que a rosa surgiu do sangue de Afrodite, deusa do amor. Quando ia em busca de seu amado Adônis, mortalmente ferido por um javali, Afrodite cortou o dedo em uma planta cheia de espinhos — e do sangue que escorria nasceu a flor. Da mesma forma que aos gregos tomaram emprestado os deuses, a mitologia e as lendas, os romanos ficaram também com o seu gosto pelas rosas — que se tornou a flor preferida no grande Império.

No começo elas eram importadas do Egito. Como a procura era grande e os preços altos, cultivar rosas tornou-se um negócio rendoso; os lavradores preferiam plantar rosas ao trigo e outros vegetais. E assim aconteceu que, no auge do seu poder Roma produzia todas as rosas de que precisava para enfeitar suas festas, mas tinha de importar comida. O poeta Marcial (aprox. 38-103 d.C.) até fez uns versos sobre essa estranha situação: “Vós, egípcios: hoje, as rosas romanas são mais belas que as vossas. Agora, já não mais necessitamos de rosas, porém de vosso trigo”.

O homem moderno gosta tanto das flores quanto os gregos ou os romanos — talvez mais até. Hoje elas são usadas em todos os momentos: enfeitam as mesas durante as festas, homenageiam os que nascem, os mortos e os que se casam. Flores também são dadas de presente a quem se visita e aos aniversariantes. Mas não se sabe ao certo quando o homem se deu conta do seu significado estético.

Sabe-se que elas são anteriores à própria humanidade: folhas fósseis de rosas, provavelmente de 25 milhões de anos, encontradas na Europa, Estados Unidos e Extremo Oriente provam isso. O gosto pelas flores, em todo caso, sempre foi coisa de gente civilizada. No tempo em que os romanos enchiam seus campos de mudas de rosas, os vizinhos bárbaros se dedicavam exclusivamente ao cultivo da comida — trigo e centeio principalmente. Para eles, uma rosa era lixo.

Um século depois de Marcial haver escrito aqueles versas, as rosas tiveram os mais variados usos na Roma já decadente. O imperador Heliogábalo, que governou entre 218 e 222, mandava encher as banheiras públicas com água de rosas. Em seu palácio, algumas salas eram decoradas com tapetes de flores. Além das rosas, o imperador apreciava violetas e em sua cozinha preparava-se um manjar muito especial: pétalas de violetas tostadas com rodelas de laranja e limão. Foi Heliogábalo o inventor dos almofadões perfumados sobre os quais se deitavam seus convidados. Mas nem sempre ele os tratava com tanta gentileza.

Ao contrário, o imperador costumava promover festas em que durante a madrugada uma chuva de pétalas de rosas e violetas caía sobre os convidados. Alguns, já bêbados, morriam asfixiados. Mas isso era uma extravagância do imperador. Para os cidadãos comuns, as rosas serviam para demonstrar todo tipo de sentimento: sofrimento, discrição e paixão. E sortilégios não faltavam. Quem quisesse, por exemplo, ter a fidelidade da pessoa amada pela vida inteira deveria pendurar um ramo de rosas ao lado de uma garrafa de vinho por três dias, três noites e três horas. Depois desse tempo, um copo da bebida era oferecido ao amado ou amada sem que eles desconfiassem.

Tudo isso os romanos foram aprender com os gregos, que além das rosas e violetas cultivavam, também, lírios e jacintos. Mas era a pequena, modesta violeta que tinha mais encantos para eles. Era comum na Grécia antiga colocar coroa de flores na porta da casa dos apaixonados e naquela onde nascia uma criança. Também enfeitavam com ramos as mesas de banquetes e as ofereciam a visitantes ilustres.

Até os cozinheiros mereciam grinaldas de flores quando preparavam algum prato muito especial. Nos acontecimentos importantes, as ruas eram enfeitadas com fileiras de violetas. Na primavera, as crianças que conseguiam superar o terceiro ano de idade eram presenteadas com coroas de violetas. Isso porque na Grécia antiga a taxa de mortalidade infantil era alta e dar flores às crianças era símbolo de gratidão à vida.

Os namorados se presenteavam com violetas, que eram também usadas para cobrir a cama das noivas, símbolo de virgindade. De todos, eram os atenienses os mais apaixonados pelas violetas. A tal ponto que durante o inverno eles as protegiam colocando-as em pequenos pátios cercados por muros altos cobertos com esteiras.

Na Idade Média, ofertar um ramalhete de violetas a alguém era símbolo de um amor secreto que não podia ser revelado. Já os lírios eram, por excelência, as flores que simbolizavam sorte no amor. Por isso, as jovens costumavam colocar alguns deles nos chapéus dos rapazes. Em alguns países da Europa eram as flores do primeiro amor. Oferecer lírios a alguém significava também estar apaixonado mas sem coragem de se declarar. por medo de ser rejeitado. Assim, os mais tímidos, temerosos de levar um fora, valiam-se dos lírios para exprimir sua paixão. Já os cavaleiros, que andavam pelo mundo desfazendo malfeitos e defendendo a justiça, usavam rosas em seus barretes de veludo —sempre que estivessem suspirando pelos favores de uma donzela indiferente ao seu amor.

Nessa época, a crença no poder curativo das flores chegou ao auge. Acreditava-se que as rosas eram um remédio que curava tudo, até mesmo a loucura. Aos lírios também eram atribuídos poderes semelhantes.

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Quem fosse mordido por cobra deveria ser tratado com pétalas de lírio trituradas. Houve mesmo quem achasse que as flores evitavam epidemias. É famoso o gesto de Luis IX, rei da França (1226- 1270), que. no comando de uma cruzada à Terra Santa, chegou a Túnis, no Norte da África, e espargiu cravos sobre as pessoas. Não se tratava de gentileza — o rei acreditava que assim podia combater a peste que assolava o mundo medieval.

Flor que simboliza a amizade e a simpatia, a tulipa provocou estragos na Holanda no século XVII, onde se tornou um negócio tão lucrativo que despertou cobiças, provocou gessos tresloucados e levou muita gente à bancarrota. Muitos holandeses venderam seus bens para comprar bulbos de tulipas. que eram importados da Turquia. Por um único deles. eram capazes de dar toneladas de trigo e centeio, ou bois, ovelhas, leitões, barris de cerveja, roupas e taças de prata. Houve até quem trocou 48 mil metros quadrados de terra — quase 5 hectares — por um único bulbo.

Hoje, a linguagem das flores é universal. Elas estão nas fábricas, nos escritórios, nas casas de ricos e pobres, crescem nos jardins públicos das grandes cidades, penduram-se nos arranha-céus. Além de amor, alegria, tristeza, esperança, elas exprimem, também, saudade dos bons tempos em que era a natureza, por estar mais à mão, que oferecia símbolos para que o homem expressasse seus sentimentos.

Para saber mais:

As verdades do verde

(SUPER número 7, ano 3)

Os verdadeiros segredos do sexo

(SUPER número 3, ano 4)

Sobrevivência e sedução

(SUPER número 5, ano 6)

Flor, a folha que subiu na vida

(SUPER número 5, ano 7)

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