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Ciência

A verdade sobre o Teflon

Ele foi inventado para uso em geladeiras. Acabou indo parar nas panelas – e no sangue de 98% das pessoas. O Teflon é onipresente, misterioso, polêmico. Mas, afinal, traz ou não riscos à saúde?

Texto Paulo César Teixeira e Leonardo Pujol | Edição Bruno Garattoni | Fotos Getty Images 

Em 1998, um fazendeiro de Parkersburg, West Virginia (EUA), relatou à polícia que suas vacas estavam agindo de maneira estranha. Elas cambaleavam, como se estivessem bêbadas. Uma espuma branca escorria pela boca dos animais, que tinham feridas no corpo e comportamento agressivo. Cerca de 150 vacas desse criador, Wilbur Tennant, morreram. Seis anos depois, um grupo de cientistas da Faculdade de Medicina Veterinária da USP publicou um artigo intrigante. Ele contava a história de cinco passarinhos cujo dono esquecera uma panela no fogão aceso. Felizmente, isso não provocou um incêndio – mas o dono dos bichinhos ficou perplexo ao constatar que, por algum motivo, todos os pássaros haviam morrido. As duas histórias têm um ponto em comum: em ambos os casos, os animais morreram por causa do Teflon. Desde a década de 1950, foram produzidos bilhões de utensílios de cozinha revestidos com esse material, criado pela multinacional americana DuPont. É impossível fugir dele, inclusive porque já está dentro de você: um estudo publicado em 2007 por cientistas do governo americano constatou que 98% das pessoas tinham subprodutos do Teflon na corrente sanguínea1, que também já foram detectados até em tartarugas marinhas2 e ursos polares3. Mas o que isso significa? Você deveria jogar fora as panelas da sua casa?

1  Polyfluoroalkyl Chemicals in the U.S. Population: Data from the National Health and Nutrition Examination Survey. A. Calafat e outros, 2007. 2 Perfluoroalkyl contaminants in plasma of five sea turtle species. J. Keller e outros, 2012. 3 Brain region-specific perfluoroalkylated sulfonate (PFSA) and carboxylic acid (PFCA) accumulation and neurochemical biomarker Responses in east Greenland polar Bears. K. Pedersen e outros, 2015.

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A lata de gás – e o pó branco

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Gerenme/Getty Images

O Teflon foi descoberto pelo químico Roy Plunkett em 6 de abril de 1938, durante testes num laboratório da DuPont em Nova  Jersey. Ele queria criar um gás refrigerante, que pudesse ser usado em geladeiras como alternativa ao CFC (clorofluorcarbono) – um ato visionário, diga-se, considerando que décadas mais tarde o CFC acabaria banido por destruir a camada de ozônio. Plunkett pediu a seu assistente que trouxesse um cilindro de C2F4: tetrafluoroetileno, um dos compostos que eles estavam testando. Ao perceber que algo bloqueava a passagem do gás, Plunkett desparafusou a válvula e virou o recipiente de cabeça para baixo. Um pó branco e escorregadio deslizou sobre a bancada do laboratório. Aquela coisa estranha era politetrafluoretileno (PTFE), uma nova substância – que a DuPont viria a batizar de Teflon.

Ele é uma cadeia com várias moléculas de C2F4 polimerizadas, ou seja, grudadas como elos de uma corrente. O carbono fica no meio, e é totalmente rodeado por átomos de flúor – que não grudam em praticamente nada, dando ao material sua propriedade antiaderente. (Para que o Teflon se fixe no metal da panela, ela passa por várias etapas de cura em altíssimas temperaturas, acima de 400 graus. Também existem variações do PTFE desenvolvidas para revestir materiais como plástico e borracha, que são curadas em temperaturas entre 60 e 80 graus).

O PTFE e os outros compostos químicos perfluorados (PFCs) têm muitas aplicações. São usados em peças de carros e aviões, tapetes, mangueiras, lentes de contato, lâmpadas, próteses dentárias, embalagens de pizza e de pipoca para micro-ondas, além de roupas resistentes a manchas e impermeáveis. O Teflon também foi empregado na usina de enriquecimento de urânio do Projeto Manhattan – e até na bomba atômica lançada sobre Hiroshima, no Japão. É que, além de ser antiaderente, ele é extremamente estável: dificilmente reage com outras moléculas, e por isso resiste à maioria das substâncias corrosivas.

Mas o que realmente consagrou o material foi sua aplicação na cozinha. Panelas revestidas pela substância não só evitam que o ovo grude na frigideira como diminuem a quantidade de gordura necessária para o cozimento. Além disso, as panelas de Teflon são mais fáceis de lavar quando comparadas com as de alumínio ou de ferro. Entretanto, após décadas de simbolismo e sinônimo de praticidade, o Teflon foi parar no centro de uma batalha judicial.

A investigação revelou que a produção dessa substância tinha um lado bem perigoso para a saúde humana e o meio ambiente – e a DuPont sabia disso.

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O caso das vacas

Quando suas vacas começaram a morrer, Wilbur Tennant, o fazendeiro de Parkersburg, suspeitou que a causa estivesse ligada ao riacho que cruzava suas terras. A água ingerida pelos animais poderia estar contaminada por resíduos da DuPont, que tinha uma fábrica ali perto. O fazendeiro procurou ajuda: falou com políticos, jornalistas, veterinários, advogados locais. Ninguém deu bola. A DuPont parecia controlar a cidade e seus 30 mil habitantes.

Desesperado, o fazendeiro foi até Cincinnati tentar falar com o advogado Robert Billot. Não parecia a escolha mais adequada. Billot trabalhava no Taft Stettinius & Hollister, escritório de Ohio especializado em defender grandes empresas químicas. Mas Wilbur, que conhecia a avó de Robert (ela morava perto de Parkersburg), não tinha mais a quem recorrer. Ao ver fotos e vídeos das vacas envenenadas, o advogado aceitou o caso e topou entrar com uma ação judicial contra a DuPont. O ano era 1999.

A primeira reação da DuPont foi fazer um estudo sobre a fazenda de Wilbur – no qual alegou que as vacas tinham morrido de inanição, por desleixo do fazendeiro. O relatório era coassinado pela Environmental Protection Agency (EPA), a agência americana de proteção ao ambiente. Mas Robert não desistiu.

Intrigado com a misteriosa sigla “PFOA”, que aparecia em cartas enviadas pela DuPont às autoridades, o advogado pediu que a empresa compartilhasse todas as informações que tivesse a respeito. Forçada a isso por ordem judicial, ela enviou um caminhão de documentos para Robert: caixas e mais caixas de papéis, totalizando 110 mil páginas.

Eram arquivos sigilosos da DuPont, com relatórios médicos, estudos internos e anotações privadas dos cientistas da companhia. O advogado ficou meses mergulhado nos documentos, até fazer uma descoberta chocante. PFOA é ácido perfluorooctanoico, uma substância que a DuPont passou a comprar e usar em grande quantidade a partir de 1951 (não confundir com PTFE, que é o Teflon em si). Ela servia para dar estabilidade ao processo de polimerização e formação do Teflon. Em alguns documentos, a empresa chamava o PFOA de “C8” – referência aos oito átomos de carbono que formam sua molécula. Mas, independentemente do nome, a DuPont sabia que o PFOA era tóxico.

Em 1961, seus cientistas descobriram que o PFOA poderia aumentar o tamanho do fígado em ratos e coelhos. Em 1962, ela pediu a alguns funcionários que fumassem cigarros contendo essa substância, para avaliar sua toxicidade – a maioria foi parar no hospital. Mas a produção continuou. Na década seguinte, a empresa constatou que o sangue dos operários da fábrica de Teflon tinha altas concentrações de PFOA. Novamente, nada foi feito.

A multinacional 3M, que produzia e vendia a substância para a DuPont, chegou a alertá-la: informou que o PFOA tinha potencial cancerígeno, e mutagênico, em ratos – fêmeas prenhas expostas à substância geravam filhotes com olhos deformados. Por precaução, a DuPont tirou mulheres jovens da linha de produção do Teflon, sem explicar os motivos. Isso não impediu que os filhos de algumas delas apresentassem má-formação de olhos e narinas. As informações foram mantidas em sigilo por 40 anos e só vieram à tona depois do processo movido pelo fazendeiro – que morreu de câncer em 2010. O caso rendeu uma longa reportagem do jornal New York Times (e o filme Dark Waters: O Preço da Verdade, de 2019, baseado nela).

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O ácido e as panelas

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Virtu Studio/Getty Images

Nos anos 1960, a DuPont até tentou dar um jeito nos problemas do ácido perfluorooctanoico. Em 1962, a empresa parou de despejar os rejeitos no rio Ohio e passou a guardá-los em tambores. O problema é que, com o tempo, os recipientes começaram a vazar. Na década de 1980, ela construiu um aterro sanitário para armazenar os subprodutos tóxicos do PFOA. Mas, aí, ele acabou entrando no lençol freático local, contaminando o riacho onde o gado de Wilbur Tennant se refrescava – e, também, a água que os moradores de Parkersburg bebiam.   

O governo americano iniciou uma investigação própria sobre a substância, e o resultado saiu em 2002: sim, ela apresentava riscos à saúde humana. A DuPont foi multada em irrisórios US$ 16,5 milhões por ocultar informações e obrigada a suspender o uso do PFOA. Mas não ficou só por isso. Em 2011, o comitê científico formado pelo condado de West Virginia anunciou sua conclusão: “vínculo provável” entre o PFOA e câncer de rim, câncer de testículo, doença da tiroide, colesterol alto, colite ulcerativa e pré-eclâmpsia (hipertensão induzida pela gravidez). A DuPont contestou a conclusão dos cientistas e se dispôs a enfrentar as ações individuais movidas contra ela nos tribunais: cerca de 3.500 processos. Mas a empresa acabou fazendo um acordo coletivo, e em fevereiro de 2017 encerrou as ações pagando US$ 671 milhões de indenização.

“Em 2006, a DuPont assumiu o compromisso de eliminar o uso de PFOA, o que alcançamos em 2015”, afirmou a empresa em nota à SUPER. Hoje o Teflon é fabricado usando outra substância, desenvolvida pela Chemours, uma empresa criada pela DuPont. É o ácido de óxido hexafluoropropileno dímero, que a empresa batizou de GenX. Em 2017, um estudo feito pela Cape Fear Public Utility, a fornecedora de água da Carolina do Norte, detectou contaminação por GenX – cujos resíduos a Chemours estaria jogando num rio local. Em 2019, ela foi condenada a pagar uma multa de US$ 12 milhões, e parar de despejar os subprodutos no rio. A Chemours afirma que “um corpo significativo de dados demonstra que essas substâncias químicas alternativas podem ser usadas com  segurança’’. Mas a conclusão é óbvia: a produção de Teflon tem consequências ambientais, e é possível que os operários das fábricas corram algum tipo de risco. Afinal, isso já aconteceu antes.

Mesmo com a aposentadoria do PFOA, cientistas acreditam que é quase impossível eliminá-lo definitivamente do nosso dia a dia. O composto é tão estável quimicamente que ainda estará na Terra depois que a humanidade deixar de existir. Por isso, ele e seus similares, como o PFOS (ácido perfluoro-octânicossulfônico) foram apelidados de “substâncias eternas” (forever chemicals).

Não à toa, eles se perpetuaram no sangue dos seres humanos – processo que pode ocorrer por inalação, transmissão pelo cordão umbilical ou aleitamento materno e, sim, pelo consumo de alimentos cozidos em panelas antiaderentes. Mas o grau de contaminação não chega nem perto ao nível daquele visto entre os trabalhadores da DuPont ou dos moradores da região de Parkersburg. “A quantidade de PFOA eventualmente liberada durante o processo de cozimento é ínfima. Para fazer mal, a pessoa teria que ingerir Teflon, o que não é o caso”, diz Cláudio Luis Frankenberg, professor de engenharia química da PUC-RS. Ou seja: comer alimentos preparados em panelas de Teflon (ainda que elas tenham sido produzidas antes de 2015, e possam conter resíduos de PFOA) não é prejudicial à saúde. Segundo o governo dos EUA, o nível médio dessa substância no sangue das pessoas é de 5 partes por bilhão (ppb), patamar teoricamente inofensivo – e muito abaixo dos 128 ppb encontrados em moradores de Parkersburg, ou os 8 mil ppb presentes em operários contaminados.

Mas é essencial que as panelas sejam utilizadas de forma segura – o que não aconteceu naquele caso, citado no início deste texto, dos cinco passarinhos que morreram por causa de uma panela com Teflon. “O PTFE, comercialmente conhecido como Teflon (…) é relativamente estável a temperaturas inferiores a 260 graus. Entretanto, acima de 280 graus sofre pirólise e libera, por degradação térmica, diversos gases tóxicos aos quais as aves são muito sensíveis”, afirma o artigo produzido pela Faculdade de Medicina Veterinária da USP4.

No episódio analisado pelos cientistas, a panela ficou no fogão por muito tempo, até queimar – e o Teflon foi literalmente incinerado (260 graus é uma temperatura bastante alta, na qual os óleos de cozinha queimam e viram fumaça). As aves são mais suscetíveis do que nós a gases tóxicos, pois seus pulmões as absorvem muito mais rápido. (Daí a prática, comum até a década de 1980, de levar uma gaiola com canários para ambientes confinados, como minas. Se o pássaro morresse, era sinal de que os trabalhadores deveriam evacuar o local.)

Não se deve “preaquecer” as panelas de Teflon (colocar a panela ou frigideira vazia no fogo), nem permitir que elas continuem sobre a chama por muito tempo depois que o líquido dos alimentos tiver evaporado. E panelas que estiverem com a superfície antiaderente danificada ou descascando devem ser jogadas fora: junto com o lixo reciclável, para que tenham um destino ecologicamente correto e não acabem contaminando o ambiente com ainda mais Teflon. Não que tenhamos muita escolha: ele já está em toda parte, inclusive dentro de nós. E vai continuar – para sempre.

4 Intoxicação por politetrafluoretileno (Teflon) em psitacídeos – relato de caso. S. Godoy e outros, 2005.

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