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Saúde

O controle da dor por meio da hipnose

A dor não é “psicológica”, mas ela acontece no cérebro. Então, sim, é possível desligá-la e minimizar o uso de anestesia por meio da hipnose.

por Alexandre De Santi Atualizado em 17 ago 2020, 19h00 - Publicado em 27 mar 2020 10h34

A dor não é “psicológica”, mas ela acontece no cérebro. Então, sim, é possível desligá-la só com o poder da mente e minimizar o uso de anestesia por meio da hipnose.

Texto: Agência Fronteira | Edição de Arte: Jorge Oliveira | Design: Andy Faria | Imagens: Getty Images


O barulho da serra ecoava pela sala de cirurgia. O paciente, ali deitado, há muito tempo sofria com dores em um dos tornozelos. O ortopedista, antes de começar o procedimento, lembrou que a operação seria delicada: a única solução para sanar as dores seria substituir a articulação por uma nova e, para isso, era necessário serrar o osso da perna. O paciente estava ciente do problema. Sua única exigência: não receber anestesia geral.

Durante toda a cirurgia, que foi realizada no Hospital Universitário Epsom, na Inglaterra, o paciente Alex Lenkei permaneceu acordado. Ouvindo e comentando o barulho que a serra fazia quando tocava sua perna. Ele é um famoso hipnoterapeuta, reconhecido internacionalmente por sua habilidade para lidar com a dor. E essa já era sua sexta cirurgia sem anestesia. Na época, em 2013, ele tinha 66 anos, mas desde os 17 já praticava a auto-hipnose para controlar a mente e o corpo. A cirurgia, que durou duas horas, foi um sucesso e repercutiu em toda a imprensa do Reino Unido.

Em entrevista ao Mirror, ele afirmou que não tem aversão a anestesia. “A questão é que meu controle sobre a dor é muito mais eficiente do que quando eu tomo os remédios prescritos pelos profissionais. E eu me recupero muito mais rápido porque meu corpo não tem que se livrar de toda a química”, contou ao jornal.

O cirurgião Dominic Neilsen nunca tinha realizado uma cirurgia desse porte sem anestesia geral e, apesar do receio inicial, disse que ficou impressionado com a concentração do paciente. “Para ser honesto, tudo correu como em qualquer outra operação. Alex pediu um tempo para se preparar, o que foi muito rápido, e nos disse que estava pronto para seguir em frente”, contou o médico ao Mirror. Havia um anestesista na sala para o caso de a hipnose não funcionar, mas sua seringa permaneceu intocada.

Apesar de a história parecer bizarra e arriscada, ela não é exatamente uma novidade. Em 1997, uma pesquisa coordenada por Marie-Elisabeth Faymonville já mostrava a eficiência da hipnose como anestésico em cirurgias. O teste foi feito com mais de 4.800 pacientes em seu centro de anesteseologia, no Hospital Universitário de Liège, na Bélgica. Em um grupo, ela substituiu a anestesia geral pela hipnose, usando a técnica em conjunto com sedação consciente ou anestesia local. O resultado foi que os pacientes – todos de cirurgia plástica – que haviam sido hipnotizados tiveram menos dor e ansiedade que os que haviam recebido anestesia geral, além de terem saído mais satisfeitos da cirurgia.

A história do uso da hipnose para administrar a dor é tão antiga quando a própria história da anestesia. Apesar de ter sido renegada pela medicina, a prática nunca caiu em completo desuso, tendo sido fundamental na 2ª Guerra Mundial, quando era impossível dar conta de todos os feridos sem uma técnica alternativa, já que era latente a escassez de medicamentos nos campos de batalha. E, embora os relatos sobre o uso da hipnose como anestésico nunca tenham sido amplamente difundidos, a técnica é utilizada atualmente em diversos hospitais do mundo, inclusive no Brasil, e tem seus benefícios reconhecidos por importantes instituições médicas. Vamos contar essa história melhor.

A anestesia como conhecemos hoje só começou a ser estudada no século 19. Antes, as técnicas para aliviar a dor ainda eram escassas. Então, o médico precisava ser rápido nas cirurgias para aliviar a dor. E usar o que tivesse à mão. Numa amputação, o paciente era embriagado ou sedado com pedaços de tecido embebidos em extratos de plantas como a mandrágora, um tubérculo com poder analgésico. Na China Antiga, era comum o uso da acupuntura. Quando nada disso estava disponível, até neve usavam como analgésico.

<strong>Um paciente já teve sua perna serrada em uma cirurgia sem anestesia geral. Ele usou apenas a hipnose para suportar a dor.</strong>
Um paciente já teve sua perna serrada em uma cirurgia sem anestesia geral. Ele usou apenas a hipnose para suportar a dor. Dwight Eschliman/Getty Images

No início dos anos 1800, a hipnose já era bem difundida entre os estudiosos da mente, mas seus benefícios para o alívio da dor ainda mal tinham sido estudados. Entretanto, em 1845, o médico escocês James Easdaile já estava na Índia realizando cirurgias sem que os pacientes sentissem qualquer dor, usando apenas hipnose. Ele foi um dos pioneiros no uso da técnica e escreveu vários livros sobre o assunto. Há registros de que ele tenha operado mais de 3 mil pessoas em transe. Mas, com o avanço dos estudos em química no mundo ocidental, a hipnose foi rapidamente esquecida no mundo médico.

Para contar como isso aconteceu, é preciso relembrar a história dos primeiros usos de anestésicos. O teólogo inglês Joseph Priestley era também um químico famoso do século 18. Talvez você até já tenha ouvido falar dele. Priestley foi o responsável por descobrir que o ar possui moléculas de oxigênio. O químico também acabou descobrindo o óxido nitroso (N2O), só não imaginou qual seria a melhor utilidade para o gás.

Isso só aconteceria alguns anos depois, quando seu estagiário, Humphry Davy, de 17 anos, descobriu que a inalação do óxido nitroso proporcionava uma sensação de leveza, risos incontroláveis e adormecia um pouco os sentidos. Dali para frente, o N2O ficaria conhecido como “gás hilariante”. Durante muito tempo, óxido nitroso só serviu para fazer a alegria da galera nas festas. Até que começou a ser utilizado em shows de hipnotizadores. E não era incomum que esses eventos terminassem com brincadeiras com o público envolvendo o gás hilariante.

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Uma dessas apresentações entrou para a história. O químico, hipnotizador e showman Gardner Colton estava fazendo uma demonstração dessas em Hartford, no Estado de Connecticut, no ano de 1844. E também encerrou a performance com o uso do óxido nitroso. Só que um dos seus voluntários acabou caindo severamente e sua perna começou a sangrar. E era visível: ele não estava sentindo nada. O cirurgião-dentista Horace Wells estava na plateia e percebeu o que havia acontecido: o gás que ele havia inalado era anestésico.

No dia seguinte, Wells pediu para que um amigo extraísse seu próprio dente sob o efeito do gás, capaz de oferecer sedação mantendo o paciente consciente. Foi um sucesso. “Na época em que a hipnose era o lugar-comum para o controle da dor, anestesia era só uma curiosidade”, escreveu William Kroger no livro Hipnose Clínica e Experimental na Medicina, Odontologia e Psicologia. “Foi ali, em 1844, que a hipnose indiretamente introduziu o óxido nitroso como um anestésico no país”, constataria Milton Erickson, um dos pais da hipnose moderna. Mas a novidade foi mal recebida nos consultórios odontológicos. A decepção foi tamanha que Horace Wells acabou se suicidando, em 1848. Os médicos respeitáveis da época não usariam um gás como esse para aliviar a dor porque ele era cheirado nas festas.

Novos estudos que comprovavam a eficiência do éter e do clorofórmio, que são altamente tóxicos, para a sedação de pacientes colaboraram para o esquecimento da hipnose como anestésico. Esses compostos passaram a ser amplamente difundidos e reconhecidos quando o médico John Snow, em 1853, utilizou clorofórmio como anestesia na Rainha Vitória, na Inglaterra, durante o parto do Príncipe Leopoldo. Então, com o avanço nos estudos da química, e o uso constante da hipnose por charlatões nos espetáculos de entretenimento, a prática acabou sendo largamente escanteada nos hospitais e consultórios. Entretanto, a hipnose não foi esquecida por completo. Menos de 70 anos depois, em plena 1ª Guerra Mundial, o uso da hipnose precisou, novamente, ser relembrado pelos médicos.

Durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), milhares de soldados sofreram com neuroses. Os sintomas variavam desde insônia e perda de apetite a depressão, palpitações cardíacas e até paralisia. Muitos soldados jamais se recuperaram dos horrores vividos no conflito. Os médicos não encontravam problemas físicos que justificassem os sintomas. E assim os exércitos foram sofrendo perdas drásticas, que atingiam soldados e oficiais. Muitos deles se sentiam envergonhados ao voltar para casa já que eram tratados como desertores. Até que, em 1917, o médico Arthur Hurst, que era major do exército britânico, desenvolveu um tratamento para os pacientes no Hospital Seale Hayne, em Devon, na Inglaterra. Ele ficou famoso por conseguir curar os soldados mentalmente debilitados com apenas um atendimento. E o tratamento era à base de hipnose.

A prática foi tão importante para ajudar a recuperar os soldados que acabou amplamente utilizada 30 anos depois, durante a 2ª Guerra, já vista com muito mais simpatia pelos médicos. Mas, no novo conflito, a hipnose começou a auxiliar soldados em ferimentos graves – e não somente em problemas psicológicos. Em um desses casos, um soldado foi atingido por uma granada, e seu braço ficou severamente ferido. Temendo que fosse sangrar até a morte, ele começou a mentalizar que uma válvula estava sendo instalada no seu braço e que o sangramento começou a parar. Então, quando os médicos conseguiram alcançá-lo, a hemorragia estava tão controlada que houve tempo suficiente para salvá-lo, como conta o hipnólogo e autor Joe Niehaus, no livro Investigação Forense da Hipnose. O soldado conseguiu conter o sangue porque desconectou as áreas racionais do cérebro das zonas emocionais por meio de um foco profundo. Sob o seu controle, a mente do homem pôde criar uma ilusão que foi recebida como realidade pela área racional do cérebro. Isso é o transe hipnótico.

Foi também durante a 2ª Guerra que Herbert Spiegel, psiquiatra famoso por sua prática de hipnose – seguida também por seu filho, David – passou a conhecer o poder do transe. Ele foi para o norte da África durante a guerra, para trabalhar como cirurgião. Até então, o psiquiatra era somente um jovem médico, que nem conhecia a técnica. “Ali eu descobri que era possível usar persuasão e sugestão para ajudar os homens a retornar às suas funções mesmo após graves estresses de combate”, escreveria depois. Ele mesmo, naquele período, usufruiu da auto-hipnose para controlar a dor, após ser atingido por estilhaços numa trincheira, de acordo com The New York Times, onde foi publicado seu obituário, em 2010.

Depois do período turbulento das grandes guerras, a hipnose conquistou certo respeito na comunidade médica. Apesar de sua aplicação ser tímida e de a prática ainda carregar um caráter místico, hoje, ela é utilizada como terapia complementar em hospitais do mundo inteiro. Uma pesquisa do psicólogo Guy Montgomery, da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York, mostrou que 15 minutos de hipnose antes de realizar cirurgias de câncer de mama ajudaram os pacientes a sentir menos dor, náuseas e fadiga no processo pós-cirúrgico. O estudo, realizado em 2007, também apontou que o hospital universitário economizou US$ 772 por cada paciente, já que eles precisaram de doses menores de analgésicos e sedativos.

<strong>No século 19, hipnose e gás hilariante estavam entre os poucos métodos disponíveis para aplacar as dores.</strong>
No século 19, hipnose e gás hilariante estavam entre os poucos métodos disponíveis para aplacar as dores. C.J. Burton/Getty Images

Aqui no Brasil temos experiências similares. No Hospital São Camilo, de São Paulo, o trabalho com hipnose clínica começou em 2008. Desde então, pessoas que precisam realizar exames em câmaras apertadas, como ressonância magnética, mas que sofrem de claustrofobia, são hipnotizadas antes do procedimento. Normalmente, sem o auxílio do transe, os pacientes com fobia de espaços fechados tomam remédios para conseguir suportar o procedimento. “Realizamos ressonâncias magnéticas sem a necessidade de ansiolíticos ou sedação por anestesista em 90% dos pacientes claustrofóbicos”, diz o médico Luiz Velloso, responsável pelos tratamentos com hipnose, realizados em parceria com a psicóloga Maluh Duprat.

“Eles não necessitam de preparo pré-anestésico e saem do exame andando, sem precisar se recuperar da sedação que é normalmente utilizada nos portadores de claustrofobia intensa”, completa. No São Camilo, a técnica também ajuda pessoas com dores crônicas, náuseas ou que procuram o hospital para controlar o tabagismo. A hipnose, no entanto, ainda não foi utilizada em cirurgias da instituição. De acordo com os especialistas da casa, a suscetibilidade ao transe varia muito de indivíduo para indivíduo. Sempre há o risco do paciente perder o foco durante o procedimento, lembram.

No Hospital das Clínicas de São Paulo, a hipnose é realizada desde 1995 e tem foco no alívio das dores e nos sintomas de ansiedade. Em algumas cirurgias de pequeno e médio porte, o transe também está presente como sedação complementar, sendo administrada em conjunto com outros medicamentos. Mas, em casos extremos, a técnica pode ser a única forma de aliviar as dores. Pacientes alérgicos a drogas utilizadas na anestesia, por exemplo, são salvos pela hipnose. Mas esses pacientes são treinados antes de entrar no bloco cirúrgico.

Alguns obstetras e gestantes recorrem à hipnose durante partos realizados no Clínicas. A técnica permite que as mulheres suportem com mais tranquilidade as dores e dificuldades de um trabalho de parto, reduzindo a necessidade de realizar uma cesariana e aumentando as chances de um desfecho natural.

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