A história do lança-perfume, a droga dos carnavais
Você já deve ter ouvido alguém contar que o lança era legalizado e fazia a alegria dos Carnavais, até ser proibido na década de 1960
Quem já ouviu uma pessoa mais velha contando sobre o Carnaval do século passado provavelmente já se surpreendeu com relatos saudosos da euforia do lança-perfume. A substância chegou aqui no começo do século 20 como um perfume corporal e, aos poucos, virou presença garantida nos bailes carnavalescos.
O “cheirinho”, como também era chamado, era lançado livremente em todo o ambiente ou aplicado em um pano que deveria ser inalado. O efeito imediato é de euforia, exaltação, tonturas e diminuição do juízo crítico. A onda é curta e passa em alguns minutos. O uso pode causar parada cardíaca, asfixia, arritmias, paranoia e morte súbita, além de lesões neurológicas permanentes.
Mas, no início, ninguém sabia desses lados perigosos, e a venda era liberada – e até as crianças entravam na brincadeira. Ainda na primeira década do século 20, o mercado brasileiro só recebia os lanças da marca francesa Rhodia. Pouco depois, durante a Primeira Guerra Mundial, a Rhodia teve que concentrar sua produção industrial em insumos para explosivos, e o lança saiu da prioridade.
Com o fim do conflito, a empresa instalou uma fábrica em solo brasileiro para facilitar a produção e venda do seu lança-perfume Rodo, que era um dos mais populares. A fábrica de Santo André, em São Paulo, também produzia outros produtos químicos, como o ácido sulfúrico, o ácido clorídrico, o cloreto de etila e sulfato de sódio.
Aos poucos, outros rótulos foram surgindo, inclusive de fabricação brasileira. Mesmo que fosse oficialmente um perfume, o principal marketing dos produtos era realmente para o Carnaval. Eram milhões de vidros de lança-perfume vendidos por ano.
Em João Pessoa, na Paraíba, a Rhodia chegou a promover um concurso para premiar o bloco que consumisse mais lança-perfume. Em 1925, o jornal A Vanguarda descreveu a vibe carnavalesca em São Félix, na Bahia, assim: “Cruzavam-se as serpentinas; confetis choviam como as estrelinhas do céu; gladiavam-se os foliões a jactos de lança-perfumes como espadachins em combate colectivo.” (Mantivemos a grafia original, conforme resgatado deste artigo.)
Para chegar ao Brasil e se tornar um símbolo carnavalesco, o lança-perfume precisou atravessar o Oceano Atlântico, carregando o legado de uma linhagem de drogas inaláveis que já faziam sucesso há séculos.
Como o lança-perfume foi criado em primeiro lugar?
O lança-perfume pode ter várias substâncias, mas o cloreto de etila, éter etílico e clorofórmio são as principais. O cloreto de etila foi descoberto na França no final do século 19, e era usado como anestésico local para pequenas cirurgias.
Já existiam, entretanto, outras substâncias semelhantes no mercado europeu: o éter, por exemplo, já era conhecido há séculos, e só foi reconhecido como anestésico em meados do século 19. A inalação do éter produz efeitos semelhantes ao do lança-perfume e, por isso, virou moda em festas vitorianas, chamadas de ether frolics – algo como farra de éter.
Em um relatório sobre odontologia publicado em 1878, o médico norte-americano Phillip Abney Wilhite afirmava que, durante a década de 1830: “Quase não havia nenhuma reunião de jovens que não terminasse em uma farra de éter… Alguns riam, outros choravam, outros brigavam e outros dançavam, assim como quando se inala óxido nitroso.”
O óxido nitroso é nome da substância do gás hilariante, que costumamos ver em filmes e desenhos animados. Ele foi descoberto em 1772, e começou a ser usado em festas da nobreza inglesa. Assim como o éter, o pessoal descobriu a função recreativa antes da função médica, e levou décadas até reconhecerem seu potencial anestésico. Seu efeito é um pouco diferente dos outros inalantes, pois, além da euforia, provoca também alucinações visuais.
No livro Medo e Delírio em Las Vegas, o famoso jornalista Hunther Thompson comenta sobre os efeitos do éter bem no início, ao descrever o conteúdo de seu carro lotado de drogas à caminho de LA: “A única coisa que realmente me preocupava era o éter. Não tem nada no mundo mais indefeso, irresponsável e depravado do que um homem em meio a uma maratona de éter.”
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A proibição do lança-perfume no Brasil
No final da década de 1950, o jornalista Flávio Cavalcanti começou a chamar atenção pública para os efeitos danosos do lança para a saúde e para a moralidade. Em 1957, o deputado Carlos de Albuquerque apresentou um projeto de lei no Congresso Nacional proibindo a importação, comércio e uso do lança-perfume.
Segundo o Estadão, ele argumentou que o produto era motivo “ao mesmo tempo, de perplexidade, tristeza e indignação pelas proporções de libertinagem e pela frequência de atos de completo amoralismo […] praticados nas ruas das cidades e especialmente nos recintos fechados”.
Quatro anos depois, em 1961, o presidente Jânio Quadros decretou a proibição da fabricação, comércio e uso do lança-perfume no País. Entretanto, o decreto não estabelecia um tempo para que as indústrias se adequassem à proibição, e, por conta de reclamações das empresas, o uso e fabricação foi permitido até 1962.
Depois disso, não demorou muito para que o mercado carnavalesco encontrasse um jeitinho de contornar a situação. Os lanças foram substituídos por “jato-perfume”, substâncias inalantes de efeito semelhante.
Toda a família do lança – jatos, perfumes, colas, loló, éter e cheirinhos em geral – foi proibida de vez em 1966 por um decreto do presidente Castelo Branco, que determinava a proibição da “fabricação, o comércio e o uso do lança-perfume, bem como o emprego de aerossois em preparados destinados a constituir instrumentos de folguedos carnavalescos, ou não”.
Assim como no caso de outras drogas ilícitas, isso não impede a circulação delas. E, diferentemente do que muita gente pensa, lança-perfume e loló não são a mesma coisa. Saiba mais sobre a diferença, os efeitos e medidas de redução de danos para loló e lança-perfume nesse texto.





