A invenção do soft power
Dos filmes de Hollywood às músicas do K-Pop, passando pela comida italiana e os mangás japoneses, o poder cultural está em toda parte. Ele é peça central da geopolítica moderna. Mas pouca gente conhece sua verdadeira origem: a Índia de 1.800 anos atrás.
A América Latina tem 663 milhões de habitantes, dos quais 95% falam espanhol ou português e 85% se declaram católicos ou evangélicos (1). Não há nada de misterioso nesses números. A predominância do espanhol, do português e do cristianismo tem diretamente a ver com a conquista militar do território pelos europeus da Península Ibérica a partir do fim do século 15. Portugueses e espanhóis impuseram seus reis, suas leis e sua fé aos indígenas e africanos escravizados. Mas a força bruta não é, claro, o único meio pelo qual algum povo pode adotar a cultura de outro.
Olhe ao redor e você encontrará muitas provas disso. Os filmes de Hollywood, as músicas do K-Pop, os mangás japoneses ou a culinária italiana, entre diversas outras coisas, são exemplos do chamado soft power. Esse termo, popularizado pelo cientista político americano Joseph Nye em 1990, se refere à capacidade de um país ganhar projeção na arena global, construindo uma imagem positiva, sem disparar um tiro.
É um poder cultural, capaz de seduzir outras nações em vez de dobrá-las à força. Todo país tenta cultivar o próprio soft power. O Brasil é muito conhecido – e querido – na Rússia, por exemplo, devido à exportação das nossas telenovelas para lá entre a década de 1970 e 2022 (quando a prática foi interrompida em razão da Guerra da Ucrânia). O futebol também faz parte do nosso arsenal cultural.
O soft power é um elemento valioso da geopolítica moderna. Mas ele é muito mais antigo do que parece. Dê uma olhada no mapa da Ásia. A distância mais curta por terra entre a Índia e o Camboja é de 4.700 km. E da Índia para Sumatra, uma das principais ilhas da Indonésia, são mais de 13 mil km. Acontece que, em plena Idade Média, tanto o Camboja (e vários países vizinhos) quanto Sumatra, lá na proverbial casa do chapéu, adotaram o alfabeto, a literatura e duas religiões diferentes (o budismo e o hinduísmo) inventados na Índia.
Não há qualquer indício de que exércitos indianos tenham desembarcado nesses lugares tão distantes e conquistado os povos nativos à força. A própria Índia estava muito longe de ser um país unificado na época, o que dificultaria um bocado esse tipo de aventura imperial. O que aconteceu foi que a força do comércio e o esplendor cultural indiano influenciaram povos de metade da Ásia. Nascia assim o que o historiador escocês William Dalrymple chama de “Indosfera”, numa vasta área que ia do Afeganistão e demais países da Ásia Central até a Indonésia.
E o surgimento da Indosfera pode estar relacionado, ironicamente, à decadência do Império Romano, conforme argumenta Dalrymple em seu recente livro The Golden Road (“A Estrada Dourada”, ainda não lançado no Brasil).
Os brasileiros costumam aprender que o comércio marítimo da Índia com a Europa só começou para valer depois que o português Vasco da Gama apareceu por lá com seus navios (e canhões) em 20 de maio de 1498. As riquezas do subcontinente, porém, já atraíam os europeus muito antes disso, como mostra o fato de que um tal Alexandre, o Grande deu as caras no noroeste da região, derrotando exércitos indianos que usavam elefantes de guerra, em 327 a.C. Mais de 1.800 anos antes de Vasco da Gama.
Ao que parece, Alexandre precisou dar meia-volta porque seus soldados começaram um motim. O império do jovem conquistador começou a se fragmentar logo depois de sua morte. Mas os herdeiros nunca cortaram o contato com os povos indianos, nem deixaram de se interessar pelas riquezas comerciadas com eles, em especial a seda, o marfim e especiarias como a pimenta-do-reino (pois é, igualzinho a Vasco da Gama).
Quando os romanos enfim tomaram para si toda a metade ocidental do império de Alexandre (inclusive o litoral do Egito, no Mar Vermelho, algumas décadas antes do nascimento de Cristo), a coisa ficou comercialmente muito interessante para mercadores da Índia e compradores de Roma. Para entender o porquê, precisamos falar um pouquinho sobre clima.
No verão do Hemisfério Norte, o platô do Tibete esquenta e se transforma numa área de baixa pressão que atrai ventos úmidos vindos da Baía de Bengala – a imensa curva do litoral que vai do leste da Índia até a Malásia e a Indonésia.
No inverno, a coisa se inverte, e ventos gelados do Himalaia rumam para o mar, que ainda está muito mais quente que as montanhas. “A Península Indiana está postada no meio desse vórtice de ventos, as monções, que sopram para um lado durante seis meses e vão para o outro lado na metade seguinte do ano”, explica Dalrymple.
O resultado prático disso é que, na Índia, bastava sair do porto na época certa para chegar ao Egito em 40 dias, se você viajasse para o oeste, ou ao sul da China e Sumatra em menos de um mês, cortesia do empurrão das monções. Para os padrões do mundo antigo e medieval, uma jornada muito prática e rápida.
Nos primeiros séculos da Era Cristã, a rota que realmente estava bombando era a que saía do oeste da Índia para o Egito. Por um motivo muito simples: era lá que estava o ouro da elite romana. Estimativas feitas com base em papiros descobertos em solo egípcio – basicamente recibos alfandegários – indicam que o comércio com a Índia transportava valores equivalentes a toda a arrecadação tributária de várias províncias do Império somadas.
O outro lado da moeda, literalmente, foi achado por arqueólogos na Índia: dezenas de milhares de moedas romanas de ouro e de prata foram parar lá. Em termos históricos, porém, a festa não durou tanto assim. Mais ou menos a partir de 150 d.C., o comércio bilateral indo-romano começou a minguar. Provavelmente, em parte, por causa das crises políticas e econômicas que afetaram Roma.
Resultado: a torneira do ouro romano se fechou. Mas os indianos, em especial os comerciantes da costa leste e sudeste do subcontinente, sabiam que era possível se voltar para o leste do planeta. Afinal, era lá que estavam Suvarnabhumi, “as Terras do Ouro” – em sânscrito (a língua de boa parte da Índia então), um termo genérico para o Sudeste Asiático como um todo. No Ramayana, um dos poemas épicos indianos mais ou menos equivalentes aos de Homero para os gregos, um personagem, o rei-macaco Sugriva, diz que nessas regiões “os metais preciosos podem ser tirados da terra tal como a lama em outros lugares”.
Ok, certamente era exagero, mas o fato é que sucessivas gerações de comerciantes e brâmanes (a casta sacerdotal da Índia) passaram a fazer fortuna nas Suvarnabhumi. Mais ou menos a partir do ano 200 d.C., os dados arqueológicos revelam a presença crescente de viajantes indianos no Vietnã, no Laos, no Camboja e na Indonésia.
Apesar dos indícios de miscigenação nos estudos de DNA antigo, com presença de pessoas de origem parcialmente indiana na região, não há nenhum sinal de que aventuras imperiais indianas tenham ocorrido nessa época. O que houve foi uma incorporação entusiasmada da cultura da Índia, em vários aspectos. Todos os sistemas de escrita originalmente adotados na região, por exemplo, aparecem nesse momento – e são adaptações da escrita pallava, da região do Deccan (sudeste da Índia), um tipo de alfabeto ideal para escrever em folhas de palmeira.
Começaram as conversões em massa às religiões indianas trazidas por missionários, primeiro budistas e depois hinduístas – em ambos os casos, sem nenhum tipo de uso da força. Isso resultou da influência comercial, não de ações de monarcas ou do estado. Puro soft power.
Aliás, enquanto o budismo quase desapareceu na Índia, onde surgiu 2.500 anos atrás, ele é até hoje a principal religião da Tailândia, do Camboja, do Laos, da Mongólia, do Japão e do Vietnã, entre outros lugares. E o maior santuário hindu já construído – com área quatro vezes maior que a do Vaticano – é Angkor Wat, no Camboja. Provas da força, e da perenidade, do soft power indiano.
Carbonara, rock e animes
Seria o caso da Índia, pacifista, a exceção que comprova a regra? Afinal de contas, é muito comum que certos países, tanto no passado quanto no presente, adquiram soft power não necessariamente por oposição ao hard power (o poder militar e político), mas até como consequência dele. Ambas as formas podem se tornar quase inseparáveis.
Faz séculos, por exemplo, que a França dita para outros países europeus o que é considerado de primeira qualidade na literatura, na moda e na culinária; até pouco tempo atrás, o grande idioma da diplomacia era o francês, não o inglês.
Na guerra entre México e EUA (entre 1846 e 1848), por exemplo, na hora de negociar, os mexicanos não falavam inglês, e os americanos não sabiam espanhol, mas havia gente que falava francês dos dois lados do conflito, o que permitiu que as conversas de paz andassem.
Entretanto, esse papel “soft” da cultura francesa provavelmente só se consolidou porque o Estado francês foi um dos primeiros a se unificar e consolidar seu poder na Europa medieval, tornando-se uma grande potência militar durante muito tempo – enquanto a Itália e a Alemanha estavam totalmente fragmentadas em pequenos reinos e repúblicas. Já no século 20, o mundo inteiro passou a vestir os jeans, a ouvir e copiar o rock (e outros estilos musicais) e comprar carros americanos.
Mas esse fenômeno só se tornou global de fato depois que os EUA saíram da Segunda Guerra Mundial, em 1945, como a grande potência ocidental vitoriosa. Para quem consegue usar seu hard power, o soft power acaba vindo como um subproduto natural. Dois dos países derrotados pelos EUA e seus aliados na Segunda Guerra Mundial, porém, mostram que dá para retomar e até aumentar o prestígio internacional mesmo após o desastre no campo de batalha.
Estamos falando, é claro, do Japão e da Itália, que tinham se aliado com os nazistas durante o conflito. Bem antes da guerra, ambos os países haviam se tornado exportadores de mão de obra para o continente americano, com destaque para países como o Brasil, os EUA e a Argentina (neste último caso, somente com relação à imigração italiana).
Durante a guerra, aliás, essas minorias chegaram a ser discriminadas e perseguidas nas Américas: no Brasil, imigrantes italianos e alemães foram proibidos de ensinar seus idiomas aos filhos, enquanto os EUA montaram campos de concentração para cidadãos de origem japonesa.
Com a chegada da paz, porém, a presença dessas diásporas acabou se transformando num vetor de soft power para italianos e japoneses – assim como a presença maciça de comerciantes e missionários indianos influenciou o Sudeste Asiático.
O Japão e a Itália souberam aproveitar essa oportunidade, não apenas para produzir um “milagre econômico” com a ajuda dos investimentos americanos como também para consolidar suas marcas globais.
Os italianos deixaram de ser conhecidos apenas pelas glórias artísticas do Renascimento e do Império Romano, virando referência em design e culinária para as massas (sem trocadilho), enquanto os japoneses mergulharam na era dos eletrônicos, primeiro como fabricantes de produtos baratos e, pouco mais tarde, como criadores de tecnologias.
Em ambos os casos, outra lição do antigo soft power indiano foi colocada em prática. Para os que querem adquirir projeção global, algum tipo de miscigenação cultural é indispensável: é preciso saber transformar o charme da sua cultura num pacote que misture o exotismo e a familiaridade. O exemplo mais óbvio é a própria culinária italiana “tradicional” de hoje em dia – que, na verdade, muitas vezes não é tão tradicional assim.
Espaguete alla carbonara? Ele só surgiu nos anos 1950. Fettuccine Alfredo? Primeiras menções nos anos 1920 e 1930 como “fettuccine com manteiga”, virando “Alfredo” apenas nos anos 1950 também. Ambos os casos, assim como a forma mais popular e globalizada das pizzas, estão fortemente ligados à presença de imigrantes italianos nos EUA e ao contato das tropas americanas que ocuparam a Itália durante a Segunda Guerra com a culinária local. Esses e outros exemplos de “tradições inventadas” são discutidos pelo historiador Alberto Grandi, da Universidade de Parma, em seu livro As Mentiras da Nonna (lançado em 2024).
No Japão, cuja economia vive décadas de estagnação, a Keidanren (principal associação empresarial do país) defendeu em 2023 a meta de quadruplicar a produção de entretenimento voltado para outros países – com foco nos animes, mangás e games – para alavancar o crescimento econômico.
A grande ironia, porém, é que, da atual lista dos jogos mais populares para celular no Japão, um terço foi desenvolvido… na China. A China é uma superpotência emergente, mas seu poder só estará completo quando tiver também o lado “soft”.
E ela sabe disso. Não foi por acaso que, na primeira década deste século, os chineses apostaram alto na realização da Olimpíada de Pequim. Mais recentemente, o governo chinês tem espalhado pelo mundo centenas de unidades dos Institutos Confúcio, destinados a promover a cultura do país. Não será surpresa se os próximos fenômenos da cultura pop vierem da China.
Um exemplo são os bonecos Labubu, da empresa chinesa Popmart, que se tornaram febre global em 2025. Mas, ironicamente, só graças ao soft power de outro país: eles ganharam a atenção do mundo depois que uma cantora do grupo Blackpink, de K-Pop, postou uma foto carregando um.
Fontes (1) ECLAC-ONU, 2024; “Religion in Latin America and the Caribbean”, Pew Research Center, 2025.
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A diplomacia dos noodles
Como o macarrão frito se tornou o maior símbolo de um país.
O pad thai é um macarrão frito na panela wok, com molho de peixe, tofu, camarão, amendoim e muita pimenta. Ele é o principal símbolo da Tailândia. O que pouca gente sabe é que, na verdade, sua fama resulta de uma grande ação de “gastrodiplomacia”.
Há duas versões para a origem do prato. Uma diz que ele surgiu nos anos 1930, trazido por imigrantes chineses. A outra conta que faltou arroz na Tailândia durante a Segunda Guerra, e o governo reagiu inventando o pad thai.
O certo é que, em 2001, as autoridades criaram um programa chamado Global Thai, com a meta de espalhar 3 mil restaurantes tailandeses pelo planeta: o governo dava subsídios para quem topasse montar um. Funcionou. Nos EUA, há 1 restaurante tailandês para cada 56 imigrantes desse país. É uma proporção dez vezes maior que a de restaurantes mexicanos, por exemplo. (Bruno Garattoni)
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