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A luta do século

Houve um tempo em que Fidel Castro e Augusto Pinochet eram o símbolo da luta entre direita e esquerda na América Latina. Hoje, eles são passado. Será que deixaram alguma herança?

Texto Eduardo Szklarz

No auge da Guerra Fria, quando o mundo se dividia entre capitalismo e comunismo, dois líderes polarizaram essa disputa na América Latina: o chileno Augusto Pinochet e o cubano Fidel Castro. Cada um tentou livrar seu país de inimigos ideológicos e exportar seu projeto para a região. Pinochet governou por 17 anos após um golpe contra o socialista Salvador Allende, em 1973 (Allende teria se suicidado com o fuzil que ganhou de Fidel). El General terminou a vida num funeral sem direito a honras. Fidel também tomou o poder à força, em 1959, e só o deixou em 2006, quando uma doença misteriosa o obrigou a transferir suas funções para o irmão Raúl. Hoje, mesmo fora de cena, ambos protagonizam as histórias que ajudaram a criar. Os simpatizantes de Pinochet justificam seu regime dizendo que ele deu ao Chile um pujante crescimento econômico e preparou o país para competir no mundo globalizado. A legião de castristas afirma que El Comandante usou a força para garantir a Cuba incríveis avanços sociais, especialmente na saúde e na educação. Qual dos dois ganhou?

Antes é preciso deixar claro o que eles foram: ditadores brutais. Os excessos de Pinochet vieram à tona com a redemocratização chilena; os de Fidel são menos conhecidos graças à censura e ao silêncio dos intelectuais. Mas ambos executaram milhares de pessoas, calaram a imprensa, atropelaram a Justiça, torturaram prisioneiros e seqüestraram opositores (reais e imaginários). Ambos cultivaram um profundo desprezo pela democracia e quiseram transformar radicalmente sua sociedade com projetos messiânicos. Pinochet dizia que seu poder emanava de Deus (“Yo obtengo my fuerza de Dios”) e se lançou como baluarte da civilização capitalista cristã. Fidel encarnou o revolucionário socialista que levou a noção de igualdade às últimas conseqüências: tão igual que não tolera diferenças, seja de religião, seja de classe, seja de pensamento.

Os dois se valeram de outro truque em comum: se apresentar como eficiente, dando a entender que o sangue vale a pena em nome de algo maior. No fundo, construíam uma narrativa que está mais para ladainha do que para verdade histórica. Se as reformas de Pinochet dinamizaram a economia do Chile e fizeram o país crescer 5% ao ano, elas falharam em produzir uma sociedade igualitária. O Chile desenvolvido convive com a má distribuição de renda. Outra distorção: a expansão exuberante só veio graças à alta do preço do cobre, o grande produto de exportação do país – uma conquista que deve mais ao mercado que a méritos do governo. Em Cuba, ao contrário do que reza a lenda, saúde e educação já se destacavam antes de Fidel. Nos anos 50, a ilha exibia ta­xas de alfabetização mais altas que as de quase todo o continente, serviços médicos de al­to nível e mortalidade infantil comparável à da Europa. Tudo isso está nos anuários estatísticos da ONU, mas é ocultado pelos fãs de Fidel.

E deu no quê?

Em número de fãs, Pinochet perde feio. Ele só é louvado por meia dúzia de economistas e 15% dos chilenos. Fidel tem uma legião de seguidores. Também pudera: faz meio século que os cubanos são bombardeados com a máquina de propaganda estatal. Fora de Cuba, o líder conta com a simpatia de boa parte dos políticos latino-americanos, forjados em­ oposição a ditadores de direita – em geral, quem apoiou os militares morreu politicamente após a democratização. Tanto é assim que os atuais governantes não têm problemas em elogiar Fidel, mas ai do que não tratar Pinochet como cão safado. A lista de presidentes vindos da esquerda só cresce. Inclui Lula, Chávez na Venezuela, Kirchner na Argentina, Morales na Bolívia, Correa no Equador, Bachelet no Chile e Vazquez no Uruguai.

Quer dizer que a América Latina hoje é de esquerda? Vitória para Fidel? Nem tanto. Lula e Bachelet prometem justiça social, mas suas idéias econômicas estão mais para Chile que para Cuba. Quer mais? Uma pesquisa do instituto Latinobarómetro mostrou que o continente tem mais eleitores de direita que de esquerda (ver abaixo). Mesmo assim, os presidentes esquerdistas são maioria. A aparente contradição provaria que a “nova esquerda” interpreta melhor os anseios do eleitorado? Talvez. Pode ser também que as pessoas já não sabem o que é ser de esquerda ou de direita.

O placar final está mais para empate que para goleada. Fidel é uma celebridade, mas o compromisso dos seus adoradores se resume a elogiar a “luta contra o imperialismo”. Nada de engajamento. Pinochet abriu espaço para o Chile ter a mais moderna economia no continente, mas será lembrado como um presidente detestável. A história dos políticos mostra que uma coisa é o discurso, outra é a prática. Chávez chama Bush de Satã, mas vende petróleo aos EUA e usa os lucros para manter Cuba. Com os eleitores não é diferente. Quem enche a boca para falar da ilha dificilmente estaria disposto a viver lá, com acesso restrito à internet, podendo ser preso por uma conversa de bar e pagando caro no mercado negro por um bom xampu. Ah, sim. Os dois ditadores também são páreo duro quando o assunto é a apropriação de bens do Estado. Pinochet tinha mais de 100 contas secretas no exterior. O companheiro Fidel foi alçado pela revista Forbes ao posto de 7º mandatário mais rico do mundo. Sua fortuna bateria nos US$ 900 milhões. Mas ele nega, claro.

Americanos de direita e esquerda

Um instituto de pesquisa perguntou aos latino-americanos: sendo 0 a esquerda e 10 a direita, que nota você dá ao seu posicionamento político. Veja as médias das pesquisas feitas em 1996 e 2006. (Não há dados para Cuba. As pesquisas sérias de opinião pública não chegaram à ilha.)

Reportagem fotográfica