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As casas da espionagem

Agentes secretos não agem sozinhos. Eles são parte de uma complexa rede de coleta de informações, organizada por algumas das mais fascinantes entidades do mundo: as agências de inteligência

Texto Thiago Ianelli Soeiro

Informação é poder. Em nenhum lugar essa expressão tem um peso tão grande quanto no mundo da espionagem. Nos perigosos e subterrâneos jogos de espiões, a informação é sempre a moeda mais valiosa. A descoberta de planos secretos, de nomes de agentes inimigos e de avanços tecnológicos dos países adversários vale muito. Uma pequena folha de papel pode ser a diferença entre salvar milhares de vidas ou assistir a dois aviões se chocarem contra o principal centro econômico da nação.

As agências de inteligência são as armas mais preciosas dos países na busca de informação. Elas são montadas com o objetivo de ver e ouvir tudo o que se passa no mundo, especialmente o que não é falado nas mesas de negociação. Oficialmente, a principal função das “casas de espiões” é prevenir ameaças ao povo, ao sistema econômico e ao desenvolvimento tecnológico de seu país de origem. Já o outro lado dessas organizações é mais obscuro. Envolve dominação ideológica, ataques sutis na calada da noite, conspirações e assassinatos.

Algumas dessas agências se destacam, seja pela eficiência (ou falta dela) com que desempenham suas funções, seja pelo tempo de serviço ao país ou mesmo por terem servido como pano de fundo para inúmeras produções cinematográficas. Conheça um pouquinho mais das instituições que escreveram a história da espionagem mundial.

O longo braço americano

Talvez a mais conhecida – e criticada – de todas as centrais de espionagem, a Central Intelligence Agency (CIA) foi criada no final da 2a Guerra Mundial pelo presidente Harry Truman como sucessora da Office of Strategic Services (OSS), uma instituição que fazia o trabalho de inteligência durante a luta contra os nazistas. Os EUA precisavam de uma agência de espionagem maior e melhor, capaz de manter todos os muitos “braços” do governo informados. A principal necessidade era obter informações sobre a União Soviética, que despontava como um adversário perigoso no cenário internacional. Os EUA haviam sido levados à guerra por causa de um ataque surpresa dos japoneses contra Pearl Harbor, e a convicção no governo era que não poderia haver outra falha como aquela. Era preciso desenvolver meios capazes de antecipar esse tipo de situação.

O principal objetivo da CIA é obter e analisar informações sobre governos, pessoas e corporações estrangeiras. A função secundária da Companhia, como ela também é conhecida, é a propagação dos ideais do governo americano, agindo como uma espécie de relações públicas do país no exterior, além de disseminar informações – sejam elas confidenciais, verdadeiras ou falsas – que influenciem pessoas ou nações a decidir em favor dos interesses dos EUA. Já a terceira função da CIA é talvez aquela pela qual ela seja mais conhecida. É a de atuar como a “mão secreta” do governo, através de operações clandestinas onde os agentes respondem diretamente ao presidente dos EUA. Esta última função sempre causou controvérsias em relação à agência. Freqüentemente, são levantadas preocupações quanto à legalidade e a eficácia desse tipo de ação secreta.

A CIA teve sua “era de ouro” durante a Guerra Fria. Era um período em que a agência tinha liberdade total para executar qualquer missão. Os governos da época estavam interessados em resultados, e não havia preocupação com os métodos utilizados. Foi nessa época que a CIA realizou a maioria de suas missões clandestinas. Dentre as mais conhecidas estão a Operação Clipe de Papel (o recrutamento de ex-cientistas nazistas para realizarem experimentos dentro dos EUA) e o projeto MKUltra (onde os mesmos nazistas desenvolveram pesquisas para realizar lavagem cerebral e exercer controle mental sobre pessoas). Também ficaram muitas conhecidas as dezenas de planos malucos para tentar assassinar o líder cubano Fidel Castro (veja mais detalhes na matéria da página 32). Desde essa época, a CIA também provoca fascinação, sendo tema de inúmeros filmes e livros. O mais recente é O Bom Pastor, que mostra a criação da agência, sua fase dourada e suas operações secretas.

Falando em Fidel, foi devido aos cubanos que os anos de ouro da CIA acabaram. Depois do fiasco que foi a invasão da baía dos Porcos, em Cuba (uma operação totalmente planejada pela CIA), o papel das ações clandestinas começou a ser questionado pelo Congresso e pelo público americano. A imagem da agência acabou mais arranhada ainda com o escândalo Watergate, no início dos anos 70, que levou à renúncia do então presidente Richard Nixon. O envolvimento da CIA na espionagem do candidato adversário à Presidência fez com que o Congresso iniciasse uma série de comitês de investigação que acabariam deixando a agência de mãos atadas, ou seja, passando a responder ao Congresso. Isso limitou muito a realização de operações secretas.

A CIA também foi extremamente questionada sobre sua eficiência após o fracasso em evitar os atentados do 11 de Setembro – como você leu antes, evitar ataques desse tipo é uma função primordial da agência. Também em nada ajudaram os relatórios que asseguravam a existência de armas de destruição em massa no Iraque de Saddam Hussein, o pretexto usado pelo presidente Bush para invadir o país. Aliás, muitos analistas dizem que Bush está forçando a agência a distorcer informações para ajudar os objetivos de seu governo. Assim, a CIA está enfrentando hoje uma encruzilhada: continuar como uma agência que serve antes de mais nada a um país ou se tornar um joguete nas mãos de um governo impopular.

A mais temível sigla comunista

O serviço secreto da União soviética já teve muitos nomes. Sua primeira encarnação foi o grupo paramilitar Cheka, criado logo após a Revolução Comunista de 1917. Quando o ditador Stalin subiu ao poder, ela teve várias outras encarnações, todas conhecidas através de siglas: OGPU, NKVD e MGB, até tomar em 1954 a sua designação mais famosa, KGB, que significa Comitê de Segurança do Estado, em russo. No fundo, todas essas siglas sempre significaram o mesmo: um serviço secreto temível, letal e altamente eficiente. A reputação da espionagem russa já era enorme mesmo antes da KGB. Durante a 2a Guerra Mundial, o sistema soviético de inteligência foi, disparado, o mais eficiente do conflito. Graças aos agentes infiltrados, a Rússia foi a primeira a saber do Projeto Manhattan americano, que criou a bomba atômica. Além disso, seus agentes também caçaram e assassinaram no México – com um golpe de picareta na cabeça – Leon Trotski, velho revolucionário socialista que se tornou inimigo pessoal de Stalin.

Assim como a sua contraparte americana CIA, a KGB também surgiu como uma ferramenta de espionagem do governo russo para enfrentar a Guerra Fria. Ela era conhecida como a “espada e o escudo” do regime, ou seja, sua função era tanto defender a pátria mãe como esmagar os inimigos da Rússia. A agência era especialista em infiltrar agentes em territórios adversários. Seus diretores ficaram famosos pela extrema habilidade com que jogavam o “xadrez” da espionagem, criando movimentos capazes de confundir todos os adversários, e pelas memoráveis batalhas contra as agências ocidentais. Entre outras façanhas, o serviço soviético de inteligência foi responsável por roubar os projetos americanos da bomba nuclear (mais detalhes na página 40) e obter os planos de construção do avião supersônico Concorde, que geraram uma cópia made in Rússia, o Tupolev TU-144. Além disso, a KGB também era considerada uma das agências mais implacáveis quando se tratava de eliminar os adversários. Sua marca registrada era o envenenamento, como você pode conferir lá na matéria da página 54.

Apesar do grande poder interno da KGB e de sua importância durante a Guerra Fria, ela foi dissolvida em 1991, quando seu então diretor Vladimir Kryuchkov usou os recursos da agência para ajudar na tentativa de golpe contra o presidente Mikhail Gorbachev. Depois disso, o governo soviético desmantelou a KGB e criou uma nova agência – só para variar, usando uma sigla ­–, o Serviço de Segurança Federal, conhecido como FSB.

O Instituto Judeu

Uma das agências de espionagem mais fechadas do mundo, o Mossad é o serviço secreto de Israel, especializado em operações de contraterrorismo e espionagem. Os agentes do Mossad são conhecidos na comunidade espiã como mestres em luta corpo a corpo e pela tendência de atirar primeiro e perguntar depois. A designação mossad significa, literalmente, “Instituto”, remetendo ao nome completo da agência em hebraico:

Instituto para Inteligência e Operações Especiais).

O Mossad é um serviço civil – não está diretamente ligado a um órgão militar – e responde diretamente ao primeiro-ministro. Apesar disso, boa parte do contingente da agência é formada por ex-integrantes das Forças Armadas. Seguindo o exemplo da antiga KGB, o Mossad opera primeiramente com agentes que trabalham dentro das embaixadas de Israel pelo mundo, atuando em operações em que usam o status de “agentes da embaixada” para conseguir imunidade. Isso não impede que para conseguir informações o Instituto também lance mão de agentes de modo clandestino. Acredita-se que foi em uma dessas operações subterrâneas que o Mossad conseguiu roubar não só os planos de armas atômicas mas também plutônio de usinas americanas, que deram origem ao amplo arsenal nuclear israelense. Outras operações famosas feitas pelo Instituto foram o assassinato dos membros do Setembro Negro, uma facção terrorista palestina responsável pelo massacre dos atletas israelenses na Olimpíada de Munique, em 1972, e a captura do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, na Argentina, em 1960. Ficou curioso para saber mais? Pois então vá agora para a página 44.

A força da tradição

Os ingleses têm um orgulho justificado de suas tradições. Isso também vale para o caso do Secret Intelligence Service (SIS), a agência de espionagem britânica, conhecida popularmente como MI6. Trata-se não apenas de uma das agências mais tradicionais do mundo – sua primeira versão, o Birô de Serviços Secretos, data de 1909 – mas também uma das mais populares. Afinal de contas, o lendário personagem James Bond “trabalhava” para o MI6. Lembram-se da clássica frase “espião à serviço de sua majestade”?

O Birô de Serviços Secretos foi criado como uma ponte entre o Conselho de Guerra e o alto escalão da Marinha. A principal missão da agência era realizar operações de inteligência militar no estrangeiro, focando-se particularmente na capacidade bélica do então ascendente Império Alemão. Com o tempo, o Birô foi dividido em duas seções, uma voltada para o Exército e uma para a Marinha. Posteriormente, essas duas seções passariam a trabalhar em áreas diferentes, uma especializando-se em espionagem externa e a outra em contra-espionagem interna. Quando a 1a Guerra Mundial estourou, a especialização das duas agências tornou-se oficial, fazendo com que a organização do Exército assumisse o nome de MI6, focando-se apenas na espionagem internacional. Aliás, o termo MI significa “inteligência militar”, revelando a origem bélica da agência.

Durante as duas guerras mundiais, o MI6 obteve bons resultados contra as Alemanhas imperial e nazista, graças a agentes duplos como Juan Pujol e Dusan “Dusko” Popov (leia mais sobre as aventuras deles a partir da página 56). Apesar disso, também foi protagonista de um vexame: a desastrada operação de espionagem na Holanda (mais detalhes na página 32). Durante boa parte da Guerra Fria, os esforços para realizar operações secretas contra a União Soviética nunca davam resultado; mais tarde, se descobriu que um agente, com alto posto dentro da agência, na verdade trabalhava para os russos. Era Harold “Kim” Philby, e você pode ver a história completa dele na página 63. Após a Guerra Fria, muita gente dentro do governo britânico passou a ver a agência como obsoleta, um resquício dos tempos de confronto contra o comunismo. Assim, ela perdeu 25% de seu orçamento no final da década de 1990. Foi só após os atentados do 11 de Setembro que o governo inglês reavaliou o papel do MI6. Hoje, a agência teve seu orçamento novamente elevado e aos poucos volta a desfrutar do antigo prestígio.

Qual é a melhor agência do mundo?

Levando em conta o segredo com que operam, é difícil apontar qual agência é a mais eficiente do mundo. Na maior parte das vezes, maior não quer dizer melhor. Assim, muitos analistas falam no Mossad; outros apontam a agência da pequenina Jordânia como exemplar. No entanto, o nome do Serviço Secreto de Inteligência Australiano, o ASIS, surge em quase todas essas conversas.

O ASIS foi criado em 1952 para ser a principal fonte de inteligência e planejamento de operações especiais da Austrália. Um exemplo de sua eficiência é o fato de ele ter permanecido secreto, mesmo dentro do próprio governo, por mais de 20 anos. O público australiano só veio a saber que o ASIS existia a partir de 1974, com uma matéria do jornal The Daily Telegraph. Outra razão para a agência ser apontada como exemplar é que a Austrália – considerada um alvo preferencial para fanáticos, por apoiar a invasão do Iraque e do Afeganistão – nunca ter sofrido ataques desde que o ASIS foi estabelecido. Especula-se na comunidade de espionagem que, após o 11 de Setembro, a Austrália está sendo muito visada por grupos terroristas, mas que todas as tentativas de ataque têm sido rechaçadas pela agência.