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Cara a cara com a Al Qaeda

O jornalista Lawrence Wright investigou por 5 anos os bastidores da organização de Bin Laden para entender a dinâmica da Al Qaeda e a mente dos terroristas.

Natalia Engler

Na manhã de 11 de setembro de 2001, Lawrence Wright estava inquieto, e não só por causa da tragédia humana no World Trade Center. Como jornalista, Wright queria estar em Nova York, mas os vôos estavam proibidos em todo o país. Preso no Texas, onde mora, ele começou a vasculhar a internet em busca de informações até se deparar com o obituário de John O’Neill, um ex-chefe da seção de contraterrorismo do FBI que se tornara chefe de segurança do WTC. Foi assim que Wright iniciou o projeto que lhe consumiria 5 anos e resultaria no livro O Vulto das Torres, ganhador do Prêmio Pulitzer de 2007.

Através das histórias de O’Neill, Osama bin Laden e seu braço direito, Ayman al-Zawahiri, o livro acompanha a trajetória da Al Qaeda desde a formação do pensamento islâmico radical. Para escrever essa história e responder à pergunta “Por que eles nos atacaram?”, Wright consultou documentos da CIA e do FBI, visitou 10 países e entrevistou mais de 500 pessoas, entre terroristas, familiares deles e integrantes de grupos radicais. Na entrevista que concedeu à SUPER, Wright falou sobre as raízes dos movimentos islamitas, o estado atual da Al Qaeda e as mudanças pela qual o movimento está passando.

Como nasceu o radicalismo que deu origem a organizações como a Al Qaeda?

Existem muitas razões diferentes e só parte delas tem a ver com religião. Uma delas é que o islã representa um quinto da população mundial, 1,3 bilhão de pessoas, mas compreende metade dos pobres do mundo. Se tirarmos o petróleo dos 27 países árabes que vão do Marrocos ao golfo Pérsico – e somente uma parcela dessas nações produz petróleo – o PIB da região toda é menor que o da Finlândia. Se colocarmos o petróleo de volta, o PIB islâmico é inferior à metade da produção da Califórnia. Ou seja, são todos países com economias altamente improdutivas e que oferecem poucas perspectivas aos jovens. Há ainda outros problemas grandes, como o apartheid entre os sexos, o analfabetismo e governos repressivos.

Qual era o foco inicial das organizações fundamentalistas islâmicas?

Sayyd Qutb, o mais influente pensador islamita, integrava a Irmandade Muçulmana, primeira e mais importante associação islamita, criada em 1924 com a meta de estabelecer um Estado islâmico puro em seu país, o Egito. Essa ainda é a meta deles e de muitas organizações, incluindo a Al Qaeda. É um objetivo, aliás, que já foi tentado em outros países – no Afeganistão com o Talibã; no Sudão; no Irã, desde a revolução de 1979. Todas experiências com resultados catastróficos, porque eles não estão interessados em governo, mas apenas em pureza e purificação. É preciso entender que Qutb escreveu numa época em que os árabes passavam por uma profunda crise de identidade. As derrotas militares para o recém-criado Israel foram um golpe psicológico do qual eles nunca se recuperaram. Os muçulmanos se perguntavam “Por que isso está acontecendo?” E a resposta de Qutb era “Deus está descontente conosco. Se vocês retornarem ao islã puro, Deus restaurará sua benção”.

Uma das razões alegadas pela Al Qaeda para atacar os EUA é a presença americana na Arábia Saudita. Mas os EUA têm bases militares no mundo todo. Por que os fundamentalistas islâmicos foram os únicos a reagir de forma tão violenta?

Nenhum lugar é mais sensível à presença militar americana que a Arábia Saudita. Quando Maomé estava em seu leito de morte, ele declarou: “Que não haja duas religiões na Arábia”. Em outras palavras: “Que haja apenas uma religião: o islã”. Na época em que ele morreu havia muitos judeus e cristãos na península Arábica e, durante séculos, continuou a haver povos de outras crenças. Mas, para muçulmanos radicais como Osama bin Laden, não basta que não-muçulmanos não possam ir a Meca ou Medina. Ele quer a península inteira livre de não-muçulmanos. É interessante notar que em maio de 2003, um mês depois de os americanos retirarem suas tropas da Arábia Saudita, a Al Qaeda começou seus ataques a complexos residenciais habitados por estrangeiros.

Como a Al Qaeda está organizada atualmente?

A Al Qaeda está dividida em 4 grupos principais. Existe a Al Qaeda no Iraque, onde a ação realmente está se desenrolando. Existe a Al Qaeda no Paquistão, onde Bin Laden e Zawahiri provavelmente estão vivendo. Existe a Al Qaeda no norte da África, que é mais recente. E existe a Al Qaeda na Europa, que é organizada em redes precariamente ligadas, não tão coerente quanto essas outras entidades, mas ainda assim muito disseminada e perigosa, como pudemos ver recentemente no Reino Unido. O que está bastante claro é que não veremos mais a Al Qaeda inteira reunida em só um lugar, como aconteceu após o 11/9 no Afeganistão. Hoje, a Al Qaeda está escondida em muitos países diferentes. Tornou-se um movimento, não só uma organização.

Os comandantes da Al Qaeda tiveram alguma participação nos ataques pós-11 de Setembro, como os de Londres e Madri?

É cedo para falar das recentes tentativas de atentado no Reino Unido, mas nos atentados de Londres e Madri, sim, havia conexões. Um dos terroristas de Londres esteve no Paquistão e provavelmente treinou nos campos da Al Qaeda. Nos julgamentos dos atentados de Madri, ligações com a Al Qaeda foram reveladas. Então, sim, havia mais do que parecia haver de início. A relação que conhecemos melhor, porém, é entre Bin Laden e a Al Qaeda no Iraque. Eles se comunicavam principalmente através de Zawahiri e Abu Musab al-Zarqawi, que enquanto esteve vivo comandou a Al Qaeda iraquiana. Os dois tinham uma relação próxima e trocavam conselhos.

De que maneira a nova geração de jihadistas é diferente das anteriores?

A 1a geração da Al Qaeda era bastante culta. Zawahiri e Bin Laden vêm de famílias endinheiradas. Muitos dos membros da 1a geração da Al Qaeda foram educados em universidades americanas ou européias, tinham uma formação privilegiada. A 2a geração era um pouco diferente: ladrõezi­nhos baratos, falsificadores e pessoas desse ti­po­ começaram a se juntar à Al Qaeda. Agora estamos na 3a geração e ela é muito mais proletária. Não é mais um movimento de elite. Está nos subúrbios de Paris, nos cortiços da Argélia, nos campos de refugiados palestinos. Em comparação com seus pais, a nova geração de “al-qaedistas” é muito mais niilista. Tem idéias políticas malformadas e nenhuma meta real ou atingível. Estão apenas buscando o caos. É um movimento que está se voltando de modo crescente para o niilismo e o crime.

Esse quadro faz da Al Qaeda uma organização mais ou menos perigosa?

Ela vai ser perigosa por muito tempo. Mas o fator mais perigoso na Al Qaeda sempre foi o apelo moral para aqueles muçulmanos que sentiam que o mundo havia sido injusto e estava perseguindo o islã. Essa era um mensagem muito, muito poderosa. Bin Laden, porém, é a última voz com autoridade moral dentro desse movimento. Acho que, quando ele for capturado ou morto, a Al Qaeda se transformará em algo como a máfia ou as Farc, na Colômbia. E, com a Al Qaeda se transformando numa gangue, acredito que as pessoas não vão mais levá-la a sério.

A morte ou captura de Bin Laden, então, praticamente acabaria com a Al Qaeda?

A não ser que surja algum novo líder inspirador, alguém que tenha o mesmo status de estrela do rock que Bin Laden tem, ela não seria mais a mesma. Sem Bin Laden, nós ainda falaríamos sobre a Al Qaeda, mas não mais como uma verdadeira organização terrorista. Estaríamos falando de uma gangue criminosa que usa o terrorismo para seus propósitos.

Como é a personalidade de Bin Laden?

Ele parece ser humilde e retraído, mas na verdade é bastante vaidoso. Uma das minhas fontes contou sobre a ocasião em que tirou uma foto de Bin Laden com uma câmera digital. Ele insistiu em ver e disse: “Meu pescoço está gordo demais”. Depois, brigou para deletá-la e quis tirar outra foto. Ele definitivamente gosta de controlar sua imagem – seu grande talento é a construção de mitos, as relações públicas. Ele fez um excelente trabalho, por exemplo, em aumentar seu papel na vitória sobre o império soviético no Afeganistão – na verdade, ele foi um desastre como líder militar – e em tornar-se o porta-voz do mundo muçulmano. Temos que reverenciar a maneira pela qual uma pessoa com tão poucos motivos para se gabar como Bin Laden foi capaz de se elevar a essa posição.

Pessoalmente, ele é diferente dessa imagem?

Sim, em muitos aspectos. Por exemplo, alguns de seus amigos – é possível julgar alguém por suas amizades – são pessoas muito engraçadas. Eles falam de como tiravam sarro de Bin Laden e de como ele tirava sarro das pessoas. Bin Laden parece austero, mas em comparação com outros islamitas radicais é um pai bastante tolerante. Ele permitia que seus filhos jogassem Nintendo e ouvissem música, coisa que muitos islamitas radicais nem considerariam fazer.

A Al Qaeda está preparando outro grande ataque?

A Al Qaeda quer que o próximo ataque nos EUA seja ainda maior que o 11/9. E isso é difícil de realizar. Po­­de-se imaginar ataques menos elaborados que se­riam­ bastante danosos e abalariam a confiança ame­ri­­cana. Mas o que nos protege atualmente é o que Zawahiri disse a seus seguidores: “Vocês podem fa­zer o que quiserem: matar judeus, atacar sho­p­pings­­, qualquer coisa. Mas, para atacar nos EUA, te­rão­ que tratar conosco”. Os EUA são a Broadway deles.

Vinte anos de Jihad

Bin Laden, Zawahiri e seus seguidores não desistiram do plano para derrotar o Ocidente. Ao menos é isso que afirma o jornalista jordaniano Fouad Hussein em seu livro Al-Zarqawi. Hussein entrevistou Saif al-Adl, chefe de segurança da Al Qaeda exilado no Irã, e Abu Musab al-Zarqawi, líder da Al Qaeda no Iraque morto em 2006, e descreve o plano de 20 anos de ação da Al Qaeda, começando pelo 11 de Setembro. Segundo Hussein, a Al Qaeda quer despertar os muçulmanos e guiá-los para uma guerra contra o Ocidente. Quer que o Ocidente reaja e seja arrastado no conflito até que esteja tão extenuado e financeiramente esgotado que jogue a toalha. Então, Israel não será mais capaz de se proteger e o Iraque se tornará um campo de treinamento para jihadistas que depois voltarão a seus países para derrubar os regimes repressivos do mundo árabe. Em seguida seria criado um califado que se estenderia através de fronteiras nacionais. No ano de 2016, esse califado formaria um exército islâmico que se empenharia em uma guerra apocalíptica contra os infiéis, o que terminaria em uma vitória total no ano de 2020.

Para Wright, que escreveu um artigo sobre o assunto para a revista New Yorker, o plano é completamente fantasioso, mas significa que a Al Qaeda está organizada. “Talvez seja ilusão, talvez seja publicidade, mas é o que eles apresentam. Eles realmente têm um objetivo, mas nós não temos uma meta atingível na luta contra eles. E não importa quanto o plano deles seja irrealista, pelo menos existe”, conclui Wright.

Lawrence Wright

• Escreve para a revista New Yorker desde 1992.

• Toca teclado em uma banda de blues chamada Who Do.

• Aceitou trabalhar em um jornal da Arábia Saudita para obter um visto e poder continuar as pesquisas para seu livro.

• Escreveu o roteiro de Nova York Sitiada, filme de 1998 que retrata um atentado terrorista na cidade.

• Acredita que o governo americano sabe onde Bin Laden está, mas não quer pagar o preço político de invadir o Paquistão para capturá-lo.