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Chefes em baixa – Negócios em alta

A máfia italiana está sob forte repressão policial há décadas. Mas continua sendo a maior e mais poderosa

Texto Mariana Sgarioni

Abril de 2006. Sentado em frente a uma máquina de escrever, numa bucólica casa de campo nos arredores da cidade de Corleone, na Sicília, um senhor calvo, de olhar sereno, responde calmamente aos policiais: “Sim, sou Bernardo Provenzano”. Terminava ali 42 anos de fuga do homem mais procurado pela polícia italiana, definido como o “fantasma de Corleone”.

Considerado o último grande chefão da máfia fora da cadeia, Bernardo Provenzano tornou-se um personagem quase mitológico. Não havia fotos recentes dele – a última imagem era dos anos 60. Para ter uma idéia de como seria seu rosto mais de 40 anos depois, os especialistas em retrato falado envelheciam as fotos disponíveis com técnicas de computação gráfica. Ninguém conhecia sua voz, uma vez que o mafioso não falava ao telefone. Comunicava-se com seus “soldados” por meio de bilhetinhos. Em muitos momentos, chegou-se a imaginar que ele pudesse estar morto.

A Justiça italiana esperava que a prisão de Provenzano fosse um golpe fatal na Cosa Nostra. Com um de seus poderosos chefões em cana, a temida máfia siciliana abriria a guarda e sangraria até a morte. Mas não foi nada disso o que aconteceu. A hierarquia do crime organizado se rearranja a cada baixa. O “fantasma de Corleone” abriu espaço para a ascensão de Salvatore Lo Piccolo – outro peixe grande da Sicília a cair na rede da polícia, em novembro de 2007. Dá para imaginar o que aconteceu? Ele foi substi­tuído por Matteo Messina Denaro, o mafioso playboy (veja quadro acima).

“A polícia siciliana não pode cometer o erro de acreditar que uma única operação seja suficiente para pôr fim à Cosa Nostra”, declarou Leoluca Orlando, ex-presidente da Câmara de Palermo e perito em máfia, quando Lo Piccolo foi parar na cadeia. É claro que não, e a eterna sucessão de chefões está aí para provar. O próprio Provenzano assumiu o posto substituindo o lendário Salvatore “Totò” Riina – preso em 1993 depois de ter ordenado o assassinato do juiz antimáfia Giovanni Falcone (veja o infográfico das págs. 24 e 25). “A concepção de uma guerra frontal entre a polícia e a máfia não pode ser aplicada ao combate de uma organização criminosa como a Cosa Nostra”, disse Falcone, apenas 10 dias antes da emboscada que o matou. “Podemos dar-nos por satisfeitos se conseguirmos pelo menos reduzir as ações ilegais da máfia a um nível menos assustador.”

MÁFIA-EMPRESA

A máfia italiana, hoje, tem um faturamento anual de 90 bilhões de euros, o que representa 7% do PIB do país, segundo estudo divulgado em 2007 pela Associação dos Comerciantes Italianos. Trata-se, portanto, da maior “empresa” da Itália. De acordo com o estudo, extorsão é a principal fonte de receitas da máfia, representando um terço de seu faturamento total. Não é para menos. Pelas contas da associação, cerca de 160 mil comerciantes em todo o país são obrigados a dar dinheiro para mafiosos regularmente, sob todo tipo de intimidação.

Chantagem é outro bom negócio – de acordo com a associção de comerciantes, ela garante aos cofres da máfia aproximadamente 10 bilhões de euros todo ano. Outras atividades já foram mais rentáveis, embora continuem dando um bom dinheiro. Com roubo, os mafiosos arrecadam cerca de 7 bilhões. Com fraudes de toda sorte, outros 4,6 bilhões. O jogo ilegal movimenta aproximadamente 2,5 bilhões. E o contrabando, mais 2 bilhões. Combater um gigante desse porte, com todo esse poder econômico nas mãos, não é simples.

Mais do que prender chefões, a Justiça italiana acredita ser preciso atacar diretamente o patrimônio construído pelas máfias italianas e compor uma força internacional de combate ao crime organizado – cada vez mais globalizado. “As máfias não têm mais fronteiras. Portanto, é necessário que a resposta também não as tenha”, afirma Giancarlo Caselli, ex-promotor chefe da Operação Antimáfia em Palermo, na Sicília. “As organizações mafiosas são potências econômicas de primeira grandeza, cada vez mais misturadas à economia legal. É preciso internacionalizar o combate.”

Em fevereiro de 2008, a Guarda italiana de Finanças apreendeu 300 milhões de euros em bens da Cosa Nostra. “Foi de um golpe duríssimo, que provavelmente tem tanto valor como a captura de um chefão, talvez até mais”, declarou o ministro do Interior, Giuliano Amato. Os bens pertenciam a grandes expoentes da máfia siciliana – entre eles, integrantes das poderosas famílias Torretta, Carini e Castelvetrano (leia mais no quadro da pág. 23). Foram 14 empresas, 102 imóveis, 10 carros e 44 contas bancárias. No mesmo mês, uma operação simultânea nos EUA e na Itália, comandada pelo FBI e pela polícia italiana, desbaratou uma conexão mafiosa entre os dois países, prendendo 80 pessoas.

Além do poder econômico, a máfia italiana ainda exerce muita influência sobre política. Segundo o último relatório da Direção Nacional Antimáfia (DNA), publicado em janeiro de 2008, o vínculo entre crime organizado e poder público continua sendo o calcanhar-de-aquiles do Estado italiano. O documento da DNA revela que parte considerável dos políticos do sul da Itália ainda se elege graças ao apoio financeiro da máfia. Casos comprovados não faltam. Só em 2007, cerca de 20 processos judiciais foram abertos na região, todos eles fundamentados no artigo 416 do código penal – “distribuição de dinheiro em troca da promessa de votos eleitorais, originada de uma associação mafiosa”.

Para o ex-promotor Caselli, a máfia italiana está enfraquecida, mas longe de poder ser vencida. “A facção militar da Cosa Nostra, da qual Provenzano fazia parte, está enfrentando sérias dificuldades. Essa é a facção que mata, que promove chacinas, que se expõe mais. Mas todo o restante da máfia siciliana ainda parece gozar de boa saúde.”

FECHANDO O CERCO

A vida da máfia na Itália começou a ficar mais difícil a partir dos anos 80. Naquela época, a organização avançava sobre o Estado, atuando em todas as esferas do poder público. Empresários e políticos dos mais variados escalões faziam parte do pernicioso esquema de ameaças, extorsões, assassinatos e corrupção. Quem resistia quando chamado a colaborar corria risco de morte.

A situação tornou-se de tal forma insustentável que, em 1982, um general do Exército foi elevado à posição de “caçador de mafiosos” número 1 do governo. Alberto della Chiesa assumiu a chefia de polícia da Sicília anunciando: “Só existe um poder, o do Estado italiano. Não podemos abdicar desse poder em benefício de criminosos, elementos brutais e desonestos.” Chiesa ficou apenas 100 dias no cargo – acabou fuzilado pela máfia. Seu assassinato chocou tanto o país que uma lei de combate ao crime organizado foi finalmente aprovada. Associar-se à Cosa Nostra passou a ser crime.

Um ano depois, o magistrado Antonino Caponnetto criou o Pool Antimáfia, um grupo de juízes altamente qualificados que se ocupava exclusivamente dos processos contra as quadrilhas mafiosas da Itália. O grupo era encabeçado por Giovanni Falcone e contava com a participação de outros nomes de peso da magistratura italiana, como Paolo Borsellino, Giuseppe Di Lello e Leonardo Guarnotta. O trabalho do grupo culminou no chamado Maxiprocesso, um megajulgamento que levou para trás das grades, de uma só vez, mais de 300 mafiosos – incluindo chefões como Tommaso Buscetta, que soltou o verbo sobre os meandros da Cosa Nostra e balançou as estruturas da organização (leia mais na pág. 28).

O Maxiprocesso só chegou às vias de fato porque o país vivia um verdadeiro bang-bang à italiana. Por um lado, juízes e policiais eram mortos a torto e a direito pela máfia. O próprio criador do Pool Antimáfia, Antonino Caponnetto, substituiu um magistrado metralhado pela Cosa Nostra – Rocco Chinnisi. Por outro lado, os mafiosos matavam-se entre si. De 1981 a 1983, o principal assunto nos noticiários italianos foi a chamada 2ª Grande Guerra da Máfia, um conflito de poder entre “famílias” rivais da Cosa Nostra, que disputavam o controle do lucrativo tráfico de drogas – especialmente cocaína proveniente da América do Sul e heroína vinda da Ásia. Resultado: centenas de mortos espalhados pelas ruas da Sicília e um vencedor: os Corleonesi, encabeçados por ninguém menos do que Salvatore “Totò” Riina e Bernardo Provenzano.

QUEM É QUEM

Salvatore Riina foi o maior gân­gster italiano da década de 1980. Era conhecido entre os mafiosos como “A Besta”, tamanha sua truculência. Durante sua longa carreira criminosa, ele calcula ter matado, com as próprias mãos, cerca de 40 pessoas, além de ordenar o assassinato de outras centenas – entre eles, o general Chiesa e os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Ninguém escapava da fúria de “Totò” Riina, nem mesmo os mafiosos.

Para unificar o controle da Cosa Nostra, ele orquestrou a 2ª Grande Guerra, exterminando chefes de Palermo como Stefano Bontade e Salvatore Inzerillo. “Totò” acabou preso em 1993, a partir da denúncia de seu motorista – o também mafioso Balduccio Di Maggio (leia mais na reportagem da pág. 26). Durante o julgamento, não perdeu a pose de poderoso chefão: sempre muito educado, deixava no ar intimidações aos juízes. Pronunciava bem claramente os nomes de todos, como se estivesse determinando aos integrantes da Cosa Nostra, do lado de fora do tribunal, que executassem friamente cada um deles.

Entre os mafiosos foragidos durante o Maxiprocesso estava Bernando Provenzano, braço direito e sucessor de Salvatore Riina. Foi Provenzano quem ordenou a série de atentados à bomba em pontos turísticos da Itália nos meses seguintes à prisão de seu superior, que feriram e mataram dezenas de pessoas. Ao assumir o lugar de “Totò”, revelou-se um chefão bem mais diplomático, incomparavelmente menos violento. Sua gestão foi marcada pela paciência e por uma vagarosa infiltração nas finanças públicas italianas. Depois de sua prisão, em 2006, o poder tornou-se menos centralizado na Cosa Nostra. “Hoje, a máfia siciliana está mais para uma federação do que para um Estado autoritário”, afirma o promotor Antonio Ingroia, da DNA. “Provenzano estabeleceu um tipo de diretório de 4 a 7 pessoas, que se encontram apenas para tomar decisões estratégicas.”

Salvatore Lo Piccolo e Matteo Messina Denaro faziam parte do tal diretório. O primeiro, também conhecido como “O Barão”, não teve vida longa à frente da máfia siciliana. Foi preso junto com seu filho, em fevereiro de 2007, depois de mais de 20 anos foragido – acredite se quiser, sem sair da cidade de Palermo. Enquanto esteve no comando da organização criminosa, deu continuidade à política “paz e amor” inaugurada por Provenzano. Messina Denaro, por sua vez, está desaparecido desde 1993. Mas seu estilo de vida, a qualquer momento, pode acabar entregando o mafioso. Ele sempre foi um bon vivant, adora luxo e vivia sempre cercado das mais belas mulheres. Mesmo sem ser fotografado há pelo menos 10 anos, vira notícia de tempos em tempos e parece não temer essa exposição. Mais cedo ou mais tarde, o playboy da Cosa Nostra acabará atrás das grades, com seus antecessores. Será julgado e certamente con­denado a passar o resto de sua vida na cadeia. Resta saber quem será o poderoso chefão que ocupará seu lugar.

Playboy da Cosa Nostra

Provável herdeiro do trono na máfia siciliana, Matteo Messina Denaro sempre foi um mafioso diferente: freqüentava colunas sociais ao lado de belas mulheres, só vestia georgio Armani e adorava carros velozes

Discrição sempre foi palavra de ordem para os chefões da máfia italiana. Afinal, quem ganha a vida cometendo crimes não tem interesse em aparecer na capa ou nas colunas sociais de jornais e revistas. Mas Matteo Messina Denaro parece nunca ter se importado com esse tipo de exposição. Antes de sumir do mapa, vivia rodeado de mulheres bonitas e adorava acelerar seu Porsche vermelho nas estradas que percorrem o litoral da Sicília. Só usava gravatas de seda, ternos Georgio Armani e relógios Rolex. Até que, em 1993, foi condenado à prisão perpétua e fugiu, para nunca mais ser visto em público. Embora foragido, acredita-se que ele seja o atual chefe da máfia siciliana. Se ainda usa Georgio Armani e tem um Porsche, ninguém sabe.

Nascido em Trapani, na Sicília, Denaro teria usado uma arma pela primeira vez aos 14 anos. Aos 18, já teria executado sua primeira vítima. Conhecido por seu sangue frio, foi condenado à prisão perpétua por conta de sua participação nos atentados à bomba cometidos em Roma, Milão e Florença, em 1993 – uma vingança da máfia pela prisão, naquele ano, do chefão “Totò” Riina.

Juízo final

Processo condenou 360 mafiosos a 2 600 anos de prisão

O Maxiprocesso, iniciado em fevereiro de 1986 e concluído em dezembro de 1987, foi a maior ação judicial movida contra o crime organizado em toda a História. No banco dos réus, havia nada menos que 467 acusados, a maior parte mafiosos envolvidos com narcotráfico e assassinatos. Mais de 400 testemunhas foram convocadas a depor – entre elas, o traidor da máfia Tommaso Buscetta, que revelou todo tipo de segredo da organização. Cerca de 300 advogados faziam parte da defesa e mais de 3 mil policiais foram designados para dar proteção aos envolvidos no megajulgamento.

1. BUNKER À PROVA DE MÍSSEIS E COM DEFESA ANTIAÉREA

O prédio foi construído junto à prisão de Palermo, especialmente para o Maxiprocesso. Durante os depoimentos, mafiosos do calibre de Luciano Leggio, “Giuseppe “Pippo” Calò e Michele Greco ficavam presos em celas coletivas.

2. AQUÁRIO À PROVA DE BALAS E ESCOLTA PERMANENTE DE ATÉ 8 POLICIAIS

Era dentro desse esquema de segurança que as testemunhas de acusação mais importantes, como o delator Tommaso Buscetta, prestavam seus depoimentos. No total, 360 mafiosos foram condenados. As sentenças somaram 2 600 anos de prisão.

Crime organizado à italiana

As 6 grandes máfias da Itália controlam o tráfico de drogas, o mercado de armas ilegais e a prostituição em toda a Europa

MALA DEL BRENTA

Tem conexões com o alto escalão da política européia. Essa máfia teria sido a responsável pelo abastecimento do mercado ilegal de armas na Croácia durante toda a década de 1990. O grupo só admite em seus quadros mafiosos que tenham nascido na região do Vêneto.

‘NDRANGHETA

Acredita-se que 80% de toda a cocaína consumida da Europa sejam traficados pela máfia calabresa, que vem tomando espaço da Cosa Nostra nesse negócio desde a década de 1990. A organização também fatura alto com gestões fraudulentas de contratos de obras públicas.

CAMORRA

Originária da região de Nápoles, controla todo tipo de atividade ilícita no porto da cidade, um dos mais movimentados da Europa. Seus negócios vão da importação ilegal de carne ao tráfico de drogas. Domina também o jogo clandestino e a produção de cimento da Campânia.

COSA NOSTRA

A mais tradicional de todas as máfias italianas fatura 351 milhões de euros por ano com extorsões e chantagem, 176 milhões de euros com prostituição, mais de 8 milhões de euros com tráfico de drogas e cerca de 1,5 milhão com o tráfico de armas.

STIDDA

Suas atividades estão concentradas na cidade portuária de Gela e nas áreas mais rurais da Sicília. Teria sido formada por dissidentes da Cosa Nostra durante a Guerra das Máfias, na década de 1980. Seus integrantes têm uma estrela (stidda) tatuada no corpo.

SACRA CORONA UNITA

Foi fundada no fim da década de 1970, por um dissidente da Cosa Nostra. Com cerca de 2 mil integrantes, atua principalmente no tráfico de drogas, armas e seres humanos. Mantém negócios com máfias russas, albanesas, asiáticas e cartéis colombianos.

7% DO PIB

Italiano estão nas mãos das 6 grandes máfias que dividem o país.

90 BILHÕES DE EUROS

Faturamento anual da máfia italiana, superior ao de qualquer empresa legal naquele país.

160 MIL EMPRESÁRIOS

São obrigados a pagar para as máfias o pizzo, espécie de imposto ilegal.

Laços de família

Nem sempre os mafiosos de um grupo são parentes de verdade. O importante é agir como se fossem

Família Torretta, Carini, Genovese, Gambino… Engana-se quem acredita que a hierarquia familiar adotada por mafiosos da Itália e dos EUA tem como pré-requisito laços de parentesco. “A família de máfia corresponde pouco à família de sangue”, explica o historiador italiano Salvatore Lupo. “Tanto na América quanto na Sicília, pode ocorrer que pais e filhos encontrem-se em correntes opostas e matem-se entre si.” Para Lupo, a “tradição familiar” das máfias não passa de uma forma que elas encontraram para alimentar a idéia de que os chefões são “homens de honra”, que protegem os integrantes de seus grupos. O conceito de família que permeia as máfias ítalo-americanas só ajuda a manter seus integrantes na linha, respeitando regras seculares como a famosa omertà. Esse termo teria sua origem na palavra umiltà (humildade) e reflete a submissão que todo mafioso deve demonstrar em relação à estrutura hierárquica de sua organização criminosa. Trata-se de uma lei do silêncio, que impede o mafioso de entregar um comparsa ou colaborar com a Justiça. Mas sempre há quem viole esse princípio. Tommaso Buscetta, maior delator da história da máfia siciliana, que o diga.

A vingança de “Totò”

Assassinato de Falcone foi o atentado mais espetacular da histróia da máfia

Uma estrada na Sicília, berço da máfia mais lendária de todos os tempos. Um “caçador de mafiosos”, cuja viagem deveria ser um segredo. Um plano audacioso, executado por integrantes da Cosa Nostra disfarçados de operários. E a explosão de 500 quilos de dinamite, colocados debaixo do asfalto e detonados por controle-remoto. Parece um roteiro de cinema, mas foi o atentado mais espetacular da história das máfias, que matou o juiz italiano Giovanni Falcone.

O massacre aconteceu no dia 23 de maio de 1992. A explosão de meia tonelada de dinamite, quando Falcone ia de Palermo para o aeroporto internacional, matou o juiz, sua esposa e mais três policiais de escolta. O mandante do assassinato teria sido o chefão Salvatore “Totò” Riina, em represália ao Maxiprocesso de 1986 (leia mais nas págs. 20 e 21).

O dia e o horário do vôo de Falcone deveriam ser um segredo de Estado. Mas a máfia tinha informantes até no Ministério da Justiça e sabia de tudo. Na véspera, o mafioso Giovanni Brusca, então com apenas 19 anos, cuidou pessoalmente da preparação da emboscada. Trabalhando numa passagem de nível da rodovia A29, ele e mais 4 ou 5 homens colocaram a carga explosiva dentro de um cano de escoamento de água. Quando a comboio de Falcone passou pelo local, no dia seguinte, Brusca detonou os explosivos a distância, via rádio. Mas errou o cálculo. A explosão atingiu em cheio o carro que vinha na frente, ocupado apenas por policiais de escolta. Falcone estava no carro detrás. Ainda assim, não escapou vivo do atentado.

1. 23 DE MAIO DE 1992, 17h58 RODOVIA A29, SICÍLIA

O juiz Giovanni Falcone vai de Palermo para o aeroporto. Ele mesmo dirige o carro do meio. Sua mulher, Francesca Morvillo, está a seu lado. O motorista, Giuseppe Costanza, vai no banco traseiro. No carro da frente, seguem 3 policiais de escolta. No detrás, outros 3. Todos os automóveis são blindados e viajam a mais de 130 km/h.

2. KM 5,6 DA RODOVIA PERTO DE CAPACI

De repente, uma explosão violentíssima. O carro que seguia na frente vai pelos ares e abre-se uma cratera de quase 15 metros de diâmetro na estrada. Os policiais de escolta Vito Schifani, Antonio Montinaro e Rocco Di Cillo morrem na hora. Dois carros que vinham no sentido oposto também são severamente atingidos pela explosão.

3. IMPACTO MORTAL A MAIS DE 130 km/h

O carro dirigido por Falcone não foi atingido pela explosão, mas a cratera ergueu uma parede no meio da estrada. O juiz vinha colado no automóvel da frente. Nem ele nem sua esposa usavam cinto de segurança. Com o impacto, foram arremessados contra o volante e o pára-brisa blindado, respectivamente. O motorista foi o único a sobreviver.