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Como podem os EUA ter uma base militar em Cuba?

Para os Estados Unidos, convém mantê-la como uma afronta ao regime castrista; para Cuba, comprar uma briga seria suicídio. Guantánamo voltou ao noticiário em 2002, quando recebeu supostos membros da Al-Qaeda e do Taleban, presos no Afeganistão, mas a importância real da base está em baixa.

Antonio Neto

Instalada há mais de um século no litoral cubano, a base americana de Guantánamo subsiste porque é um vespeiro em que ninguém quer mexer. Para os Estados Unidos, convém mantê-la como uma afronta ao regime castrista; para Cuba, comprar uma briga seria suicídio. Guantánamo voltou ao noticiário em 2002, quando recebeu supostos membros da Al-Qaeda e do Taleban, presos no Afeganistão, mas a importância real da base está em baixa. “A presença em Cuba é pura questão de força política”, diz o cientista político João Roberto Martins Filho, do Núcleo de Estudos das Forças Armadas da Universidade Federal de São Carlos. O professor de relações internacionais Günther Rudzit, do Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégia (Naippe) da Universidade de São Paulo, concorda. “A atuação militar americana é tão grande que eles não precisariam mais da base, que tem pouca capacidade de operações.”

A base foi estabelecida pela Marinha americana em 1898, durante a Guerra Hispano-Americana. O último acordo, assinado em 1934, estabeleceu o arrendamento por tempo indefinido da área de 116 metros quadrados na baía de Guantánamo, que só voltará ao controle cubano por consentimento mútuo. Como Estados Unidos e Cuba raramente concordam, a possibilidade é pequena. Por esse “aluguel”, o governo americano deposita numa conta 4.085 dólares anuais, mas Fidel Castro se recusa a sacar o dinheiro desde 1959.

A base de Guantánamo já teve grande importância para os americanos. “Até antes das guerras mundiais, o Caribe era estratégico para os planos de desenvolvimento do país. Depois, a Guerra Fria serviu como motivo para a base permanecer lá”, lembra Rudzit. Apesar das contestações, nunca houve uma tentativa de desocupação. Ao deixar de ser uma colônia espanhola, Cuba passou a depender economicamente dos EUA e não havia interesse em bater de frente com os novos parceiros. Após a Revolução Cubana, a ilha se alinhou aos soviéticos, a quem não convinha uma guerra contra os Estados Unidos por causa de Guantánamo.

“Com o fim da Guerra Fria, acabou também o sonho de expulsar os americanos. Os cubanos ficaram sem nada e não representam perigo”, afirma o pesquisador do Naippe.