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E se a Bíblia virasse a Constituição?

Nada de cheeseburguer, tatuagem e adultério: o Brasil seria um país de regras duras – e aleatórias. Além de ter um problemão diplomático em mãos.

Por Alexandre Carvalho 18 dez 2020, 14h45 | Atualizado em 4 jun 2026, 15h30
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m 2030, quando um pastor evangélico influencer chegou à Presidência da República – e a Bancada da Bíblia, enfim, tornou-se maioria absoluta no Congresso –, não foi difícil conseguir o apoio do centrão: chegava a hora de uma grande reforma das leis que regem o povo de fé do Brasil, cansado das inconveniências da fachada de Estado laico. Estava, assim, formada a Frente Ampla do Rio Jordão, que tomou a dianteira da  Assembleia Constituinte Messiânica – a primeira desde a Constituição de 1988. 

Ninguém sairia no tapa discutindo qual lei entra e qual lei sai: a nova Carta já vem pronta, basta consultar a Bíblia: “Declaro promulgado o documento que recupera a palavra do Senhor como princípio de toda conduta e toda política, honrando os tempos em que Moisés ouviu as vontades do próprio Deus no alto do Monte Sinai”, comemorou o presidente da Câmara dos Deputados, um jovem padre católico, eleito com o apoio de seus 20 milhões de seguidores no Instagram. 

Com a Bíblia no lugar da Constituição, o Brasil sairia automaticamente da condição de país das leis que não pegam para a de nação das proibições. Para tudo o que você imaginar.

Fim da picanha – e dos hipsters

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Com uma Santa Carta Magna, mudaria tudo: nas políticas públicas, nos relacionamentos, nos hábitos alimentares. Aliás, o novo texto constitucional traria um benefício a ser celebrado pela Organização Mundial da Saúde (OMS): o fim da epidemia de obesidade. Seriam tantas as normas de dieta que o Brasil viraria um spa involuntário: as pessoas não dariam conta de tanto malabarismo para comer.

Estrogonofe, cheeseburguer, escondidinho… Tudo isso estaria vetado pela proibição de misturar carne com laticínios, uma interpretação frequente da ordem de Deus a Moisés “não cozerás o cabrito no leite de sua mãe” (Êxodo: 23:19). Mas é o livro do Levítico que pega pesado nas proibições à mesa. Com a nova Lei, aquela porção de camarão frito na praia daria multa ou cadeia (“tudo o que não tem barbatanas nem escamas, nos mares e nos rios… estes serão para vós abominação”).

Bacon no sanduíche? Crime também – já que estaria proibido o consumo de carne de porco (“este vos será imundo; das suas carnes não comereis”). Veganos sorririam com a deturpação do churrasco na varanda gourmet, já que o veto se estende à carne malpassada e à imprescindível gordurinha da picanha (“em todas as vossas habitações: nenhuma gordura nem sangue algum comereis”).

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Hipsters sofreriam um abalo existencial com a proibição das tatuagens (“não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós”). Até as bandas covers dos Beatles teriam um look diferente: o Levítico proíbe o corte-tigela, um marco da iconografia do grupo (“não cortareis o cabelo em redondo”). Aliás, todos teríamos figurinos pouco criativos, porque seria proibido misturar tecidos na roupa: sobre a pele humana, “não juntarás animais de espécies diferentes; não semearás no teu campo grãos de espécies distintas”. Uma interpretação possível é a de que você teria que escolher: ou só usa jeans num dia, ou só poliéster, ou só algodão.

O povo diria amém?

A Bíblia é um código de lei tribal que levou mais de mil anos para ser escrito – imagine uma Constituição que tivesse começado na Idade Média e só estivesse terminando agora, sem grandes edições, já que cada lei escrita teria status de sagrada. Pois é. Tudo isso com o adendo de que a redação começou há 3 mil anos. 

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Uma Constituição moldada pela Bíblia ao pé da letra teria de incluir, por exemplo, a escravidão. O Levítico libera que você tenha escravos, desde que não sejam seus conterrâneos, mas “das nações que estão ao redor de vós”. A lei, então, permitiria sequestrar bolivianos e paraguaios para fins de trabalho forçado.

Falando em opressão, a vida das mulheres seria terrível. O Velho Testamento entende a menstruação como algo imundo. Ninguém poderia se sentar numa cadeira que já tivesse sido usada por uma mulher em seu período menstrual. E esposas suspeitas de adultério, se escapassem do apedrejamento, teriam de beber água contaminada – a ideia era que, se estivessem grávidas do amante, Deus faria o líquido matar o feto.

Além dessa forma de aborto legalizado, os abortos clandestinos se tornariam mais numerosos com a ausência absoluta de camisinhas.

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Enfim, uma sociedade regrada por uma Constituição 100% bíblica seria uma distopia. E daria ensejo a conflitos civis violentos. Sem falar na tragédia que seriam nossas Relações Exteriores, em beligerância com os países não teocratas – justamente os mais desenvolvidos. Estaríamos, na diplomacia, mais próximos do Irã e do Afeganistão.

Dadas as tendências de polarização de qualquer sociedade, teríamos duas grandes frentes no Congresso: de um lado, o Partido do Antigo Testamento (PAT), fiel a ideias como de fazer chover fogo e enxofre em aglomerações de baladeiros (Gênesis: 19:26). Do outro, haveria o PNT (Partido do Novo Testamento), de viés mais humanista – e ativamente contra fake news (“Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós” – Mateus: 5:11).

O Velho e o Novo Testamento, diga-se, têm tantas contradições que renderiam uma infinidade de contendas jurídicas. Dar a outra face ao inimigo ou apedrejá-lo? Um Supremo Tribunal Federal Eclesiástico viveria sobrecarregado.

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A Bíblia é o livro mais lido do mundo. Estima-se que 3,9 bilhões de exemplares já tenham sido vendidos. E o Brasil é o segundo país com maior população cristã – só perde para os EUA. Mas, claro, a possibilidade de que algum dia exista uma Constituição baseada na Bíblia é tão factível quanto passar um camelo pelo buraco de uma agulha.

Cabe aos religiosos sérios interpretar os anacronismos e extrair dali boas lições de ética, algo que o Livro Sagrado tem de sobra.

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