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Empresas :as donas do mundo

Das primeiras firmas de navegação medievais ao Google, saiba como as companhias da ações dominaram o planeta.

Texto Rodrigo Cavalcante

O que você acha mais fácil? Descrever a bandeira de países como o Paquistão e a Bolívia, por exemplo, ou o logotipo de empresas como a Volkswagen e a Coca-Cola?

Se você optou pelos logos, isso é perfeitamente natural. A força dessas marcas é apenas uma das provas de como as companhias de ações se tornaram as organizações mais poderosas do planeta. Elas têm hoje mais poder do que os partidos políticos, a Igreja e até mesmo os Estados, dizem John Micklethwait e Adrian Wooldridge, jornalistas da revista inglesa The Economist e autores do livro A Companhia – Breve História de uma Idéia Revolucionária. Algo duro de contestar numa época em que as empresas globais faturam mais do que o Produto Interno Bruto de muitos países – a receita anual da Coca-Cola é, de fato, maior do que o PIB da Bolívia.

Originalmente, o conceito da companhia de ações surgiu de uma idéia bem simples: em vez de uma única pessoa levantar sozinha todo o capital para rea­lizar um empreendimento, por que não dividi-lo em cotas? Isso viabiliza um volume maior de negócios, possibilitando que outras pessoas compartilhem os riscos – e os lucros, é claro – do investimento. Com o passar do tempo, essa idéia se tornou tão poderosa que, nos séculos 15 e 16, as companhias de navegação já eram fortes o bastante para mudar a geografia de todo o planeta. Era a semente do processo que seria chamado, centenas de anos depois, de globalização.

Primeiras multinacionais

A existência de organizações voltadas para o comércio é algo que remonta ao ano 3000 a.C., na Mesopotâmia. Mas foram os romanos os criadores do conceito de companhia (como de quase tudo no Ocidente). Tudo porque eles reconheceram que uma associação de pessoas podia ter uma identidade coletiva distinta da de seus componentes humanos. Isso significava, na prática, o início da separação entre a pessoa física e a pessoa jurídica.

Essa distinção, que hoje parece trivial, foi uma revolução na economia do planeta. Afinal, uma identidade física distinta da identidade de uma organização permitia, por exemplo, que um negociante não tivesse que arriscar todo o patrimônio pessoal em um empreendimento. Mas as vantagens dessa invenção só ficariam mais claras séculos depois, por meio das primeiras empresas européias a dominar boa parte do comércio do mundo: os impérios mercantes das cidades italianas.

As primeiras firmas marítimas italianas apareceram nas cidades de Amalfi e Veneza, ainda no século 9. Inicialmente, elas seguiam um modelo dos mercadores árabes chamado de muqarada, em que uma empresa era criada apenas para financiar e gerir os negócios de uma única viagem. O esquema funcionava mais ou menos assim: um negociante interessado em uma expedição para o Oriente, por exemplo, podia fugir do inconveniente e dos riscos da viagem comprando uma cota da expedição. Caso o negócio fosse bem-sucedido, os donos das cotas ficavam em geral com três quartos dos lucros da viagem. Se a expedição fracassasse, o prejuízo do negociante seria, na pior das hipóteses, o valor de sua cota – enquanto o comandante e a tripulação do navio tinham de enfrentar por conta própria as intempéries e o risco de ataques de corsários e inimigos.

Com o passar do tempo, essas associações foram se tornando mais complexas e duradouras. Em Veneza, surgiram companhias dispostas a investir, simultaneamente, em várias expedições. Algumas delas passaram a arrendar navios do governo e a aceitar a inclusão de sócios estrangeiros. Foi assim que surgiram as primeiras multinacionais. De quebra, a sofisticação desses negócios terminou impulsionando uma nova atividade econômica, cujo principal objetivo era facilitar as transações comerciais entre países que possuíam moedas diferentes. Como os donos desse negócio costumavam atender seus clientes por trás de um balcão (ou banco) de madeira, eles passariam a ser conhecidos por banqueiros. Na Itália, o banco da família Medici, de Florença, patrocinou os grandes artistas do Renascimento. Com sucursais na França e na Inglaterra, ele era uma empresa influente o bastante para eleger dois papas com o sobrenome da família.

De tão sólidas, algumas organizações surgidas no fim da Idade Média resistem até hoje. É o caso da sueca Stora Enso, citada por alguns historiadores como a empresa privada mais antiga ainda em atividade na Europa. A companhia atual – uma processadora de papel e de outros derivados de madeira – é o resultado de uma série de fusões societárias. Mas sua história pode ser rastreada até um documento datado de 1288, que cita a Stora como uma companhia exploradora de cobre.

A existência de empresas estava longe de ser um privilégio europeu. Organizações desse tipo já existiam na China, assim como no poderoso Império Otomano, cujos negócios eram regidos seguindo os preceitos do islã – no mundo muçulmano, a tradição mercante faz parte até da religião, já que o próprio Maomé foi também um mercador. Mas, como diz o historiador americano Paul Kennedy, autor do livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, uma série de fatores fez com que essas companhias não prosperassem frente às rivais firmas européias. O excesso de burocracia, controle e centralização desses impérios inibia os empreendimentos privados. Já na Europa, a fragmentação do poder entre diversas regiões teria impulsionado a livre iniciativa e a concorrência, o que faria com que as companhias prosperassem na disputa pelo mercado. “Na Europa, banqueiros, negociantes de armas e artesãos eram essenciais, e não acessórios, na estrutura da sociedade”, diz Kennedy. E foi a aliança entre essas companhias e os monarcas dos novos Estados europeus que viria mudar o mapa-múndi.

Expansão e crises

Do século 16 ao 18, a expansão do comércio mundial diminuiu a distância entre os países. Com o objetivo de apoderar-se das riquezas das novas terras descobertas pelos navegadores, governantes e investidores privados se uniram na criação de grandes companhias. Na Grã-Bretanha, surgiu a Companhia das Índias Orientais, que, no ano de 1700, empregava cerca de 350 pessoas apenas na sede. A Holanda, além de ter uma Companhia das Índias Orientais própria, criou também a Companhia das Índias Ocidentais, voltada para seus interesses no recém-descoberto continente americano – incluindo aí as rentáveis plantações de cana-de-açúcar do nordeste brasileiro.

Graças ao sucesso de suas companhias, a Holanda foi também pioneira na criação de um sistema regular de compra e venda de ações de suas empresas. Em 1611, surgiu a Bolsa de Valores de Amsterdã, nas imediações da sede da Companhia das Índias Orientais. É verdade que a idéia de vender ações de empresas data do século 13. Mas a existência de um local fixo e aberto ao público para essas transações era uma inovação. Logo os acionistas iriam se familiarizar com outras novidades, bem menos desejáveis, como as primeiras crises provocadas por bolhas de especulação financeira (quando o valor das ações extrapola absurdamente o valor material da companhia).

As primeiras grandes bolhas originadas de especulações em torno das companhias de ações viriam a estourar no século 18. Duas organizações, uma francesa e outra da Inglaterra, foram as principais personagens dessas catástrofes financeiras.

A Companhia do Mississippi, que explorava os domínios ultramarinos da França, viu suas ações despencar assombrosamente após a desastrosa condução de seus negócios pelo escocês John Law. Ele convencera Filipe, duque de Orleans e sucessor de Luís 14, a depositar uma exorbitância num banco criado para emissão de papel-moeda. Após o banco adquirir o monopólio de todo o comércio colonial do país e ganhar o nome de Companhia do Misissip­pi, veio a febre: em 1719, cerca de 200 mil investidores vindos de todos os cantos da França e da Europa foram a Paris em busca das ações da companhia, que prometia dividendos futuros magníficos. Quando os investidores descobriram que os lucros seriam parcos, eles começaram a tirar o capital da companhia. Assim, as ações despencaram, em 1720, provocando um caos financeiro que levou John Law a fugir da França com um passaporte falso.

Destino parecido teve a Companhia dos Mares do Sul, fundada em 1711, na Inglaterra, para explorar os negócios da América espanhola. Após uma onda de otimismo que levou cada ação da empresa a valer £ 950, em julho de 1720, o valor despencara para £ 170 em dezembro do mesmo ano, arrasando todo o mercado financeiro. Desastres assim minaram boa parte da confiança dos governantes e dos cidadãos nas companhias. Pelo menos até que elas renascessem ainda mais fortes, pouco mais de um século depois, no país em que elas viriam a ter um poder sem precedentes: os EUA.

Especulação made in USA

Em nenhum outro país do mundo a idéia da companhia de ações prosperou mais do que nos EUA. Na tradição do american way, a história das grandes empresas se confundiu com a transformação de homens ordinários em verdadeiros magnatas. Esse foi o caso, por exemplo, de Richard Sears.

Na década de 1880, Sears não passava de um simples agente ferroviário de uma pequena cidade no estado de Minnesota que, em seu horário de folga, vendia madeira e carvão aos fazendeiros locais. Quando um joalheiro da cidade recusou a compra de um carregamento de relógios, Sears os arrematou para vendê-los aos colegas da ferrovia. Com o sucesso do empreendimento, ele fundou, em 1887, a firma R.W. Sears Watch Company, especializada na venda de relógios e jóias por reembolso postal. Em 1895, o catálogo da Sears já tinha mais de 532 páginas com os mais diversos produtos, de armas a fogões: uma revolução para as pessoas que viviam no interior e eram até então obrigadas a consumir produtos mais caros de varejistas locais.

Em 1906, o capital da Sears foi aberto ao público para levantar mais dinheiro, o que tornou a firma uma das primeiras companhias de ações modernas – com acionistas, unidades operacionais distintas e uma rede nacional de fornecedores e gerentes profissionais contratados. No mesmo ano, a companhia construiu uma nova sede em Chicago – naquele que era então o maior prédio comercial do mundo. No interior do edifício, um sistema mecânico transportava as mercadorias em quilômetros de trilhos, elevadores, correias e outras parafernálias que ajudavam a diminuir o tempo entre o pedido e a entrega. Uma das primeiras pessoas a visitar essa “maravilha industrial” teria sido Henry Ford, que passou a fazer carros numa linha de montagem – sistema industrial em que o produto a ser montado passa por operações sucessivas, em linha contínua, diminuindo o tempo de fabricação. A iniciativa foi replicada em companhias mundo afora e aumentou exponencialmente o volume da produção de bens de consumo duráveis.

Tanto empreendedorismo teve como efeito colateral o surgimento dos grandes cartéis e monopólios. E das grandes bolhas de especulação financeira. Tudo indicava que as companhias seriam vítimas do próprio poder e arrogância, concretizando a previsão de Karl Marx de que elas sucumbiriam junto com o capitalismo. Após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em outubro de 1929, houve quem achasse que esse dia havia chegado.

Apesar da tenebrosa depressão nos anos seguintes, as companhias não apenas conseguiram sobreviver como saíram ainda mais fortes. Como os velhos donos das fábricas não tinham mais como controlar as complexas inovações na produção, eles passaram a contratar uma horda de executivos para administrar as atividades da empresa: nascia a era da gestão profissional.

Alfred Sloan, o homem que melhor encarnou essa nova era ao comandar a General Motors, tornou-se o primeiro executivo de empresa famoso apenas por ser um executivo de empresa. Ele fez com os homens o que Ford fizera com as máquinas, apostando na divisão do controle das atividades da companhia e descentralizando boa parte do trabalho. Agora, na GM, cada gerente cuidava de uma unidade de negócio que era, por sua vez, subordinada por um gerente mais generalista – e assim por diante. O resultado foi que logo após a quebra da bolsa a GM já havia abocanhado um mercado maior do que a Ford.

Sloan também foi um incentivador dos grandes pensadores modernos da administração. Em 1942, por exemplo, ele se interessou pelo livro de um jovem exilado austríaco que previa que as empresas precisariam ter um papel social importante – além de um objetivo econômico. Sloan decidiu chamar o autor do livro para analisar a GM e o resultado foi o clássico O Conceito da Empresa, de Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna (até sua morte, em 2005, aos 95 anos, ele permanecia sendo o grande guru do mundo dos negócios). Em uma época em que os trabalhadores da empresa eram vistos apenas como mão-de-obra, Drucker os tratava como “recursos humanos”, antevendo que os bens materiais de uma companhia iriam valer menos, no futuro, do que os “bens intelectuais”. O melhor exemplo concreto da previsão de Drucker aconteceu na Califórnia, no final da década de 1970, quando nerds viciados em geringonças eletrônicas montaram pequenas empresas com nomes estranhos como Apple, Microsoft e, mais recentemente, Google.

A era Google

Se a Ford marcou a nova era industrial ao produzir automóveis em série no início do século 20, nenhuma outra empresa simboliza tão bem o início do século 21 quanto o Google. O principal produto da empresa que saiu das mentes de Larry Page e Sergey Brin, estudantes da Universidade Stanford, é algo impalpável, incompatível com os padrões industriais tradicionais: um site de buscas na internet.

Fundada em 1998, o Google é a mostra de que a riqueza de novas corporações não estará mais nos chamados meios físicos de produção – como a estrutura fabril de Henry Ford –, mas na cabeça de seus funcionários. Com sua cultura gerencial “relaxada”, o Google quer se distanciar das tradicionais corporações capitalistas conhecidas por hierarquias rígidas e por atropelarem padrões éticos na busca de lucro. Entre os princípios da empresa, estão mandamentos como “Você pode fazer dinheiro sem fazer o mal”, “Você pode ser sério sem usar terno” e “O trabalho deve ser desafiante e o desafio seve ser divertido”. Menos de 3 anos depois de lançar suas ações em bolsa, o Google ainda tem uma longa estrada a percorrer para provar que pode aliar alta rentabilidade para os acionistas com o seu bondoso slogan oficial “não seja do mal”.

Até lá, os críticos do mundo corporativo, como a canadense Naomi Klein – que fez uma análise de como as marcas corporativas estão dominando o planeta no livro Sem Logo – continuarão preo­cupados com o aumento do poder das grandes corporações nos últimos anos. Segundo Naomi, mesmo que não tenhamos nos dado conta, as empresas modernas já não estão tão preocupadas em como produzir seus produtos, mas no trabalho de branding, que consiste em fazer com que suas marcas permaneçam em nossa mente como uma força maior do que qualquer outra organização em nossas vidas.

Maiores que países

As 5 empresas que mais faturam no mundo superam o PIB de nações nada desprezíveis

Empresa – ExxonMobil

Ramo – petróleo e gás

País de origem – EUA

Receita* – US$ 328,21 bilhões

Fatura mais que… – Arábia Saudita

Posição** – 21ª

PIB*** – US$ 309,778 bilhões

Empresa – Wal-Mart

Ramo – varejo

País de origem – EUA

Receita* – US$ 312,43 bilhões

Fatura mais que… – Áustria

Posição** – 22ª

PIB*** – US$ 305,33 bilhões

Empresa – Shell

Ramo – petróleo e gás

País de origem – Holanda

Receita* – US$ 306,73 bilhões

Fatura mais que… – Polônia

Posição** – 23ª

PIB*** – US$ 299,15 bilhões

Empresa – BP

Ramo – petróleo e gás

País de origem – Reino

Receita* – Unido US$ 249,47 bilhões

Fatura mais que… – África do Sul

Posição** – 27ª

PIB*** – US$ 240,15 bilhões

Empresa – Chevron

Ramo – petróleo e gás

País de origem – EUA

Receita* – US$ 184,92 bilhões

Fatura mais que… – Argentina

Posição** – 32ª

PIB*** – US$ 183,30 bilhões

*Em 2005, segundo a revista Forbes.

**Entre as economias do mundo.

***Em 2005, segundo o Banco Mundial.

Para saber mais

A Companhia – Breve História de uma Idéia Revolucionária

John Micklethwait e Adrian Wooldridge, Objetiva, 2003.

Sem Logo – A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido

Naomi Klein, Record, 2002.