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Hitler vs Stalin: o duelo do século

O embate entre Hitler e Stalin, no ápice da Segunda Guerra Mundial, foi a maior campanha militar e a maior carnificina da história da humanidade

Em 30 de abril de 1945, a bandeira soviética foi hasteada no Reichstag, sede do governo alemão. Hitler se matou no mesmo dia, e a Alemanha se rendeu uma semana depois.

Em 30 de abril de 1945, a bandeira soviética foi hasteada no Reichstag, sede do governo alemão. Hitler se matou no mesmo dia, e a Alemanha se rendeu uma semana depois. (Bundesarchiv, B 145 Bild-P054320 / Weinrother, Carl/Creative Commons)

Às três da madrugada do dia 22 de junho de 1941, após mais um exaustivo dia de trabalho, Josef Stalin foi para a cama em seu alojamento no Kremlin. Era verão na Rússia, e os dias clareavam muito cedo: dentro de uma hora, o sol começaria a raiar. Mas, enquanto o líder soviético pegava no sono, um outro tipo de luminosidade incendiava os limites meridionais da União Soviética: do Mar Báltico ao Mar Negro, ao longo de 3 mil quilômetros de fronteira, a madrugada foi sacudida pelos disparos de 7 mil canhões e metralhadoras.

Ao som dessa sinfonia ensurdecedora, 2,7 mil aviões, 3 mil tanques, 600 mil cavalos e cerca de 4 milhões de soldados avançaram como uma tempestade de aço e fogo para dentro da URSS. Em questão de horas, a Wehrmacht e a Luftwaffe — o Exército e a Força Aérea da Alemanha nazista — incineraram vilarejos, destruíram fortalezas e fizeram milhares de prisioneiros. Era a maior operação militar de todos os tempos. Seu objetivo: varrer o império bolchevique da face da Terra.

4 milhões: foi o número de soldados enviados pelo Eixo na Operação Barbarossa. Desses, 3 milhões eram alemães. Os outros vinham da Itália, Romênia e países sob o jugo nazista.

Até então, a URSS ficara à margem da 2ª Guerra — graças a um pacto de não agressão assinado entre nazistas e comunistas em Moscou, em agosto de 1939, conhecido como Tratado Ribbentrop-Molotov. Apenas uma semana depois, Hitler invadia a Polônia — para em seguida ocupar a Escandinávia, a França, Luxemburgo, a Bélgica e os Países Baixos.

Stalin seguia achando que estava em segurança. Mas, na cabeça de Hitler, o pacto era apenas um blefe para ganhar tempo. Em seu Mein Kampf, publicado em 1925, o líder nazista já falava na necessidade de “expandir-se para Leste” e dominar as férteis terras da Europa Oriental. Considerava os eslavos uma raça inferior e via no bolchevismo seu pior inimigo. Mas queria, antes, colocar a Grã-Bretanha de joelhos, para só depois lidar com os comunistas.

Os Prelúdios, de Liszt: foi a trilha sonora escolhida por Hitler para a Operação Barbarossa. Os acordes ressoavam em alto-falantes nos veículos alemães, enquanto cidades ardiam e milhões eram massacrados.

Contudo, apesar dos bombardeios da Luftwaffe no Reino Unido, o primeiro-ministro inglês Winston Churchill se recusou a entrar em qualquer acordo com os nazistas. Temendo que os ingleses acabassem se aliando aos russos, Hitler resolveu pôr em ação seu antigo projeto. A operação contra os soviéticos foi planejada em fins de 1940 e batizada de Barbarossa — homenagem a Frederico Barba-Roxa, imperador germânico do século 12. A invasão foi marcada para maio de 1941, depois adiada para junho. Hitler esperava acabar com os soviéticos antes que o inverno começasse, em dezembro.

Naquele ano, a rede de espionagem soviética enviou dezenas de alertas ao Kremlin sobre uma iminente invasão. Mas o líder comunista não acreditou em seus próprios homens. E eis aí um dos fatos mais misteriosos da 2ª Guerra: Stalin, que geralmente suspeitava até dos correligionários mais próximos, confiou cegamente na raposa nazista. Um erro que quase aniquilou o Estado fundado pela revolução de 1917.

A Grande Guerra Patriótica

Às 3 horas e 30 minutos do dia 22 de junho, Stalin foi despertado por uma ligação urgente. O general Gregory Konstantinovitch Zhukov, chefe do Estado-Maior, passou-lhe as primeiras e confusas notícias sobre o ataque. O ditador ficou tão estarrecido que não conseguiu emitir ordem alguma.

Num estado de profunda confusão mental, refugiou-se em sua dacha — as casas de campo russas. Sem trocar de roupa, dormir ou atender ao telefone, limitou-se a zanzar pelos quartos e salas durante dias. Em 2 de julho, uma pequena delegação do Partido Comunista bateu à sua porta — entre eles, o ministro das relações exteriores, Viatcheslav Molotov. Magro, sujo e pálido, Stalin achou que tivessem vindo prendê-lo. “O que querem?”, perguntou, em voz fraca. Molotov deu um passo à frente. “Queremos que o senhor volte ao trabalho.”

Winston Churchill, Henry Truman e Josef Stalin na Conferência de Potsdam, em 1945.

Winston Churchill, Henry Truman e Josef Stalin na Conferência de Potsdam, em 1945. (U.S. National Archives and Records Administration/Domínio Público)

Àquela altura, Stalin já mandara matar tanta gente que não restavam muitas opções de liderança ao Partido Comunista: ele era, ainda, o único homem capaz de chefiar a União Soviética e salvá-la da destruição. Saindo do estupor, Stalin foi à rádio estatal e invocou o velho espírito nacionalista da Mãe Rússia em um discurso histórico, em 3 de julho. “Todos os cidadãos soviéticos devem defender cada centímetro de seu chão, devem lutar até a última gota de sangue, com a iniciativa e a ousadia próprias de nosso povo.” Contra a Operação Barbarossa, começava a Grande Guerra Patriótica.

Virar o jogo, contudo, não seria fácil. No momento da invasão nazista, o exército soviético era um dos mais obsoletos e mal treinados do mundo. Desde o início da década de 1930, os expurgos de Stalin haviam eliminado grande parte dos oficiais do Exército Vermelho — cerca de 30 mil militares russos foram mortos a mando do ditador. Além disso, as armas e os equipamentos estavam defasados. A maioria dos tanques não tinha rádio. A cada quatro soldados soviéticos, apenas um estava armado com rifle e pistola. Os outros tinham de lutar com facas. Só nas primeiras semanas do conflito, 2 milhões de soldados russos foram massacrados ou presos e 6 mil aviões foram estraçalhados ainda no chão.

30 milhões era o número de soviéticos que Hitler pretendia exterminar, abrindo espaço para a colonização germânica do Leste Europeu. Ao fim da 2ª Guerra, 27 milhões haviam morrido.

Stalin resolveu isso de uma maneira perfeitamente stalinista. Em 28 de julho, emitiu uma ordem proibindo os soldados do Exército Vermelho de recuar, sob qualquer circunstância. Quem se rendesse ou cedesse um centímetro de território seria tratado como traidor — e teria a família enviada para campos de prisioneiros. Metralhadoras eram colocadas atrás das tropas soviéticas, no campo de batalha. Quem recuasse um passo era varado de balas.

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Enquanto isso, 400 mil membros da polícia secreta se espalharam pelo país, prendendo, torturando e matando quem mostrasse qualquer sinal de desobediência ao Exército Vermelho. Espremidos entre duas brutalidades, os russos fizeram o que tinham de fazer: combateram com bravura desesperada. Camponeses se atiravam contra blindados, brandindo foices. Crianças e mulheres emboscavam nazistas nas florestas. O custo foi enorme — ao todo, 27 milhões de eslavos morreram. Mas o avanço nazista empacou.

Sob fogo cruzado: a Batalha de Kursk, em julho de 1943, foi o maior combate de blindados na história. Cerca de 2.500 tanques alemães enfrentaram 5.000 tanques soviéticos.

Enquanto o povo russo se atirava loucamente contra o invasor, Stalin montou uma operação hercúlea para reequipar o Exército Vermelho. Ainda em 1941, 2.593 fábricas de armas foram transferidas para longe do front. Vinte e cinco milhões de russos foram enviados para trabalhar nos novos centros industriais, 18 horas por dia, com apenas uma folga por mês. Para fazer tudo isso, Stalin contou com a ajuda de um aliado inusitado: o presidente americano Franklin Roosevelt, que enviou milhões de dólares aos soviéticos ao longo da guerra.

A virada definitiva ocorreu na Batalha de Stalingrado, às margens do Rio Volga. Em 2 de agosto de 1942, cerca de 280 mil alemães do 6o° Exército de Infantaria cercaram a cidade. Em novembro, os sitiantes viraram sitiados: 1 milhão de russos recém-recrutados atravessaram o Volga e envolveram as forças alemãs. No meio do impasse, veio o inverno. Os germânicos não tinham equipamentos apropriados ao frio — que, naquele ano, chegou a 41 graus negativos. Assim como na revolução de 1917, o rigoroso inverno russo seria um fator preponderante nos rumos da URSS.

A PARTILHA

Realizada após o fim da 2 Guerra, a conferência criou uma “guarda partilhada” da Alemanha em quatro zonas (americana, britânica, francesa e soviética). Em 1961, as três primeiras foram unificadas e separadas da parte soviética pelo Muro de Berlim.

 (Redação/Superinteressante)

Com as mãos congeladas, os soldados não conseguiam sequer apertar os gatilhos das armas. Para se proteger do vento gelado, construíam muralhas com cadáveres. Pálpebras, orelhas, narizes congelavam e caíam. Em 23 de setembro de 1943, com metade das tropas dizimadas, os alemães se renderam. Pela primeira vez, Hitler sentiu o gosto da derrota.

A vingança de Stalin ainda não estava completa. Após estraçalhar os alemães em território soviético, o líder comunista ordenou o avanço de 2 milhões de soldados rumo a Berlim em 22 de junho de 1944. No caminho à toca de Hitler, a União Soviética se apoderou de Letônia, Estônia, Lituânia, Hungria, Romênia, assim como a metade oriental da Alemanha. Em 30 de abril de 1945, a bandeira comunista foi hasteada no Reichstag, em meio às ruínas fumegantes da antiga capital nazista.

90 dias foi a duração do Cerco de Leningrado (São Petersburgo/Petrogrado). A cidade foi bloqueada pelos nazistas em dezembro de 1941. Sem alimentos, a população teve de comer ratos, couro de sapatos, serragem, tinta de paredes e cadáveres do cemitério.

Hitler, em seu bunker, estourou os miolos. Stalin, no Kremlin, sorriu. Em 17 de julho, os vitoriosos decidiram o futuro da Alemanha. As anexações da 2ª Guerra foram desfeitas e a administração foi dividida entre Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e URSS. Mas os antigos aliados dos soviéticos já se preparavam para um novo tipo de conflito. Com a queda de Hitler, a cooperação entre americanos e russos chegara ao fim. E a Guerra Fria estava começando.

INIMIGOS ÍNTIMOS

Um mês após a invasão nazista da URSS, Harry Hopkins, secretário do comércio e braço direito de Franklin Roosevelt, embarcou até Moscou. Lá, entregou a Stalin uma mensagem pessoal do presidente americano que oferecia ajuda aos soviéticos “em sua magnífica resistência contra a traiçoeira Alemanha hitlerista”. Stalin, claro, aceitou. Os EUA enviariam cerca de 5 mil aviões, 7 mil tanques, 400 mil caminhões e toneladas de armas, tecido e comida aos soviéticos — além de materiais como alumínio, borracha, cobre e cobalto para as fábricas recém-criadas.

Durante a guerra, os foguetes soviéticos Katyusha eram disparados da carroceria de camionetes Studebaker, com as iniciais “U.S.A” em azul na lataria. Quando chegou a Moscou a notícia da rendição alemã, milhares de russos foram à embaixada americana dar vivas e aplausos, hasteando a foice e o martelo ao lado da bandeira americana. Uma breve e inusitada lua de mel — que logo daria lugar a décadas de inimizade.

PARA SABER MAIS
A Guerra do Mundo – A Era de Ódio na História
De Niall Ferguson (Ed. Planeta, 2015)

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