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O Brasil não vai ser a Arábia do etanol. E isso será bom

Todo mundo concorda: o álcool é o combustível do futuro para o resto do mundo. Mas, se novas tecnologias derem certo, esse álcool não virá da nossa cana

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h29 - Publicado em 30 nov 2007, 22h00

Texto Alexandre Versignassi

Imagine só quando todos os carros do mundo passarem a rodar com álcool. O Brasil poderá suprir 25% do mercado mundial de combustíveis. E seremos uma Arábia Saudita do etanol, com bilhões de “etanodólares” (a versão nacional dos petrodólares) fluindo para os nosso caixas. Essa beleza de futuro seria quase certa. Não fosse um detalhe: a cana pode ficar obsoleta logo, logo.

Por quê? A primeira razão é que o jeito como o mundo produz biocombustíveis hoje pode estar levando o planeta para uma crise de falta de comida. E o primeiro sintoma já está aí: os alimentos estão ficando mais caros.

O alerta é da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma organização formada por 30 países (o Brasil não participa). Num estudo publicado em setembro, ela avisou: o álcool e o biodiesel estão afetando o resto da agricultura. Quanto mais terra for para o plantio de combustíveis, menos vai sobrar para a comida. E o preço dos alimentos deve chegar a patamares inaceitáveis. Não é futurologia. “Essa projeção é consistente com o aumento nos preços dos alimentos nos últimos anos. Uma subida que acompanhou o crescimento da produção de biocombustíveis no Brasil, na China, na Europa e nos EUA”, diz o estudo.

Aos números. Segundo o Programa Mundial de Alimentos, da ONU, o preço médio da comida já subiu 50% desde 2002. “A parcela mais vulnerável da população, que gasta mais de 60% da renda com alimentos, está sendo expulsa desse mercado”, declarou em novembro a americana Josette Sheeran, chefe do programa.

É verdade que há mais razões para essa disparada, como o fato de cada vez mais chineses e indianos comprarem mais comida. Mas isso não diminui o problema do etanol. Só aumenta. O caso mais gritante é o do preço internacional do milho. Ele dobrou entre 2005 e 2007, depois que fazendeiros americanos passaram a receber subsídios do governo para transformar o cereal em combustível. Resultado: um efeito cascata que termina na sua mesa. Por exemplo: o milho é base para a ração das galinhas, certo? Então o preço dos ovos nos EUA subiu 20% de um ano para cá.

Bom, espera um pouco. Se a questão é livrar o mundo dos combustíveis fósseis, o jeito é substituir a gasolina primeiro e arrumar a bagunça depois, certo? Certo. Mas lembre-se que os combustíveis verdes não são tão verdes assim. O álcool libera 90% menos gases-estufa na atmosfera que a gasolina.

Mas as máquinas agrícolas que colhem o milho e a cana são viciadas em petróleo: para produzir 65 bilhões de litros de biocombustível em 2006, o mundo gastou 32 bilhões de litros de combustíveis fósseis. Uma proporção de dois para um.

Claro que dá para resolver tudo se a estrutura de produção for movida a álcool ou biodiesel. Isso, porém, não acabaria com o efeito nocivo da agricultura de combustíveis na agricultura de comida.

Mas que a tecnologia pode deixar esse cenário menos sombrio, isso pode. As usinas de etanol, hoje, não aproveitam a maior parte das plantas. Num pé de cana, por exemplo, um terço é açúcar. Os outros 70% são pura fibra de celulose – o bagaço, que vai para o lixo. Guardou os números? Então vamos lá.

Hoje a idéia é aproveitar o resto da planta. O que pesquisadores estão fazendo é quebrar as moléculas de celulose do bagaço. Nesse processo, ela vira açúcar, que serve de matéria-prima para fazer mais etanol – ou “bioetanol” o nome chique do álcool de celulose.

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Tem mais: isso permite tirar etanol de vários tipos de planta. Inclusive das que crescem rápido e em qualquer lugar, como grama ou capim. Ou de restos, como o bagaço de cana. Até madeira velha serve. Viu a diferença? Pois é: a gente não precisaria mais transformar alimento em combustível. Seria a salvação da lavoura, sem trocadilho. Não fosse um probleminha: o bioetanol custa caro. Mais ou menos o dobro do “não-bio”.

A celulose, afinal de contas, é uma molécula dura de roer: serve de armadura para defender o vegetal dos perigos do mundo exterior, como micróbios. Romper essa carapaça em busca do açúcar não é para qualquer um. Os pesquisadores precisam usar enzimas especiais, caras pra chuchu.

O jeito de resolver isso é um só: desenvolver enzimas mais baratas. E o dinheiro para cientistas buscarem isso começa a jorrar. A gigante inglesa British Petroleum anunciou que vai doar US$ 500 milhões para a Universidade de Illinois, dos EUA, tocar suas pesquisas sobre o assunto. O Departamento de Energia do governo americano reservou US$ 325 milhões para que 6 companhias montem usinas experimentais de bioetanol. A primeira com produção em larga escala foi inaugurada em janeiro, em Osaka, no Japão, com capacidade para produzir 1,4 milhão de litros de álcool por ano a partir de madeira que a construção civil joga no lixo. Os EUA vão inaugurar a sua estreante em 2008. E a Petrobras já abriu uma, em outubro, com produtividade 3 vezes maior que a de uma usina convencional (veja abaixo). O clima é otimista. Mas claro que, quando der para todo mundo tirar álcool de qualquer vegetal a preços competitivos, ter um monte de terras boas para cana não será uma vantagem tão grande. E essa história de “Arábia Saudita do etanol” vai para o brejo. Mas, pelo menos, não vai faltar comida na sua mesa.

Quem produz mais chora menos

Veja quantos litros de álcool cada tonelada de vegetal produz. E qual é o trunfo dos EUA

Álcool comum

Nossa cana supera o milho deles. Mas quando o assunto é…

MILHO – 33 L/TON.

CANA-DE-AÇÚCAR – 77 L/TON.

Bioetanol

…Álcool de celulose, o nosso bagaço perde para o capim dos EUA.

BAGAÇO DE CANA – 220 L/TON.

CAPIM (DO TIPO SWITCHGRASS) – 369 L/TON.

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