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O fenômeno do milhão

James Randi acha que sobrenatural e charlatão são a mesma coisa. Para quem provar o contrário, ele paga US$ 1 milhão

Nina Weingrill

O israelense Uri Geller fez dinheiro na década de 1970 ao aparecer na televisão entortando co­lheres com o poder da mente. Mas ele poderia ficar milionário de um jeito mais fácil. Bastava se inscrever no concurso promovido pelo mágico canadense James Randi, que oferece US$ 1 milhão a quem provar seu poder paranormal, sobrenatural ou oculto. O teste é simples: se alguém diz ouvir os mortos, basta demonstrar perante a comissão julgadora e o mundo ganha um novo mi­lionário. Até hoje, porém, ninguém passou da fase preliminar. E o prêmio falhou em atrair a atenção de gente graúda, como o entortador Uri Geller. Só desconhecidos se candidataram.

Por isso Randi resolveu mudar de estratégia. Cansado de lidar com peixes pequenos, que quase sempre se revelavam casos psiquiátricos, ele decidiu correr atrás do que chama de “grandes charlatões”. Fará desafios públicos, publicará anúncios em jornais intimando-os a fa­zer o teste e percorrerá programas de televisão denunciando nominalmente seus maiores inimigos – gente que cobra entre US$ 700 e US$ 2 000 para adivinhar o futuro, o passado ou entortar sua prataria (veja quadro na página 20).

Com os novos critérios, Randi ao menos terá a chance de pegar insistentemente no pé daqueles que vem perseguindo há mais de 4 décadas. “Todo ano escolheremos um alvo para martelar”, diz. Será que Randi finalmente conseguirá se livrar do seu milhão?

Por que você caça paranormais?

Paranormais levam pessoas a acreditar em poderes supernaturais. E isso modifica a vida delas, faz com que elas se tornem dependentes de charlatães, percam dinheiro e às vezes até a sanidade. Estou do lado da ciência, que não precisa ser defendida: ela se basta, nos protege e nos faz viver melhor.

Mas a ciência não consegue explicar todos os fenômenos, em especial aqueles que parecem sobrenaturais.

A parapsicologia nunca teve um fenômeno comprovado cientificamente. Para que isso acontecesse, ela teria de fazer experimentos que produzissem evidências e dados suficientes e depois repetir esses experimentos com sucesso e independência. E desde que a parapsicologia passou a ser reconhecida como ciência, em 1969, isso simplesmente não aconteceu!

Como surgiu a idéia de pagar para desafiar paranormais?

Com tanta gente dizendo ter poderes paranormais, pensei que um prêmio como esse encontraria facilmente seu ganhador. Mas não foi o que aconteceu. Na verdade, até agora, nenhum dos maiores médiuns do planeta sequer tentou ganhá-lo. Veja que curioso: se você tocasse violino e de repente alguém oferece US$ 1 milhão para quem tocasse violino em público, não ficaria louco para ganhar o dinheiro?

Que tipo de paranormal se dispõe a participar?

Houve o caso de um acadêmico da Califórnia que nos tomou cerca de dois anos e meio. Fizemos e refizemos o regulamento para o teste e ele sempre queria mudar alguma regra. Aí tudo era analisado novamente, assinávamos os papéis e 3 ou 4 semanas depois ele pedia mais alterações. Finalmente, ele mudou de e-mail e telefone e nunca mais conseguimos encontrá-lo.

Você mudou recentemente as regras do concurso. Como ele será agora?

Nos últimos anos, gastamos todo nosso tempo lidando com amadores. A maioria deles nem mesmo sabia dizer claramente o que era capaz de fazer. Agora vamos esperar por essas grandes personalidades paranormais, que tenham algo publicado na mídia e com algum acadêmico atestando que o que elas fazem é verdadeiro. Só então nós daremos prosseguimento ao teste.

Como funciona esse teste?

Quando uma pessoa diz ter algum poder sobrenatural e estar disposta a comprovar isso, nos reunimos para que eu saiba o que ela consegue fazer, em quais circunstâncias e com qual grau de sucesso. A partir dessa conversa, desenhamos o teste. Nunca dizemos o que tem de ser feito: se o paranormal promete acertar 7 de 10 tentativas, eu digo ok e 7 passa a ser nosso objetivo. Fazemos um teste preliminar e, em caso de sucesso, marcamos o teste formal. Das centenas de pessoas que já participaram até hoje do teste preliminar, nenhuma conseguiu passar.

Alguém já chegou perto?

Não, não dá para chegar perto. É como chegar perto de ficar grávida. Ou você está grávida, ou não está.

Quem são os paranormais que você gostaria de ver participando do teste?

Os profissionais que não chegam nem perto do teste. Eles dizem que o dinheiro não existe ou então que não pagaríamos o prêmio. Mas adoraria ter gente como Sylvia Browne, uma médium americana que aceitou fazer o teste há algum tempo, mas mudou de idéia e agora não quer participar. Ou Uri Geller, que diz se recusar a fazer porque não gosta de mim. É estranho: haveria vingança mais perfeita do que superar o teste?

Você acredita que ele é um charlatão?

Se eu acho que a Sophia Loren é uma mulher? Claro que sim! Tudo o que o Geller faz já foi explicado por milhares de mágicos. São truques simples e comuns, já feitos muitas e muitas vezes.

Então como ele dobra a colher?

Ele prepara todo o material que vai usar antes do show e realiza o truque enquanto você não está olhando. Igual, aliás, a qualquer outro mágico. Para entortar a colher, por exemplo, ele a deixa bem mole. Aí, quando chega ao palco, usa um pouco de força para terminar de quebrá-la. Qualquer um consegue.

Como paranormais conseguem atrair a atenção de tantas pessoas?

Elas querem ter mágica na vida. Querem acreditar que o mundo não é real e que não vão morrer. E, depois que morrem, querem fingir que não morreram. É ridículo. Você vê parentes procurando os médiuns em busca de conforto após a morte de um ente querido. Até que de repente eles acordam e dizem: espere um pouco, estou pagando US$ 700 para uma leitura dessas. É como dizer: tome essa pílula e se sinta melhor. O conforto é falso, temporário.

E você acha isso errado?

Não. Eu simplesmente não acredito. Mas cada um tem o direito de acreditar no que quiser.

Quem é a pessoa que doou US$ 1 milhão ao desafio?

Nós não revelamos a identidade do doa­dor. Posso dizer que se trata de alguém que não vê conteúdo nos poderes que os paranormais afirmam ter. E, para combatê-los, esse homem pegou seu milhão de dólares – obviamente trata-se de alguém muito rico – e nos deu como ferramenta para atraí-los.

Por que você escolheu os médiuns como alvo? Por que não chamar, por exemplo, líderes religiosos para provar a existência de Deus?

Os líderes religiosos já foram e são constantemente desafiados publicamente. De qualquer maneira, meu teste está sempre aberto para qualquer pessoa, em qualquer país, de qualquer língua, cor, tamanho, religião.

Você já ouviu falar no psicógrafo brasileiro Chico Xavier?

Não, nunca ouvi.

Ele teve um grande reconhecimento no Brasil como médium. As pessoas aqui acreditavam muito nele.

As pessoas aqui nos EUA acreditavam muito em Richard Nixon também. Ele foi presidente e todos achavam que ele nunca mentiria para nós. Mas ele mentiu. Então nós estávamos errados.

Em 2001, você debatia na TV com a médium Sylvia quando ela lhe recomendou checar o ventrículo esquerdo dizendo que havia um problema lá. No ano passado, você fez uma cirurgia no coração. Apenas uma coincidência?

Essa cirurgia nada teve a ver com meu ventrículo esquerdo. Veja, eu sou um homem de 78 anos. Quando ela disse aquilo, eu já havia tido um ataque cardíaco e feito uma angioplastia. Meu coração era todo remendado. Ela sabia disso tudo e também que nessa situação era muito, muito provável que eu tivesse outro problema. Como realmente tive – quase 6 anos depois.

E se ela não soubesse do problema?

Ela disse especificamente ventrículo esquerdo. Eu tive um problema que não teve nada a ver com nenhum dos meus ventrículos, e sim com a artéria coronária direita. Além disso, todos sabiam que eu já tinha tido um ataque cardíaco, estava na mídia. Mas ela dá palpites como esses o tempo todo. Centenas de pessoas acreditam no que ela diz, mas quantos de seus palpites se tornam realidade? Ela estava errada.

Durante o programa ela atendeu ligações e conversou com o público. Você tem como provar que ela estava mentindo sobre as respostas que dava aos parentes dos mortos?

Ela estava fazendo algo que chamamos de cold reading [“leitura fria”], que é analisar a voz de uma pessoa enquanto ela responde à sua pergunta e depois fazer adivinhações baseadas nessa análise. Ela fez isso há 4 anos, ao falar sobre o seqüestro de um garoto chamado Sean Hornbeck. Sylvia afirmou que ele não estava mais vivo e descreveu em detalhes exatamente como o garoto morrera, todo seu sofrimento. Acontece que Sean não morreu – ele foi localizado outro dia junto com um garoto que também havia sido seqüestrado.

Alguma vez você pensou que pudesse estar errado ao acusar um paranormal de estar mentindo?

Sim. E foi por isso que resolvi criar este desafio: prove-me que estou errado e lhe darei US$ 1 milhão.

James Randi

• Oferece US$ 1 milhão para o paranormal que provar seu dom.

• O asteróide 3163 Randi recebeu esse nome em homenagem ao seu “esforço para trazer sanidade à ciência”.

• Nunca se casou ou teve filhos. Diz que a solidão o deixa concentrado no trabalho.

• Em 1964, Randi iniciou seu desafio ao oferecer US$ 1 000 para enfrentar paranormais.

Os procurados

Os paranormais famosos que Randi escolheu para desafiar

Uri Geller

Famoso por suas habilidades telepáticas e psicocinéticas, como mover objetos com a força do pensamento e parar ou adiantar os relógios, é tratado por Randi como um mágico dono de truques dignos “daqueles ensinados no verso de caixas de cereal”. O israelense é o alvo número 1 de Randi, que já publicou até um livro para desmascarar suas artimanhas.

Sylvia browne

Autora de best sellers sobre espiritismo, diz conversar com os mortos e saber como é o “paraíso”. Randi mantém em seu site um relógio com o número de semanas passadas desde que Sylvia aceitou fazer o teste para ganhar o milhão de dólares, apenas para nunca mais dar as caras. Foram 295 até o fechamento desta edição.

John Edward

É provavelmente a celebridade mais famosa em questões paranormais dos EUA. Em seu programa de TV, John Edward Cross Country, Edward fala com espíritos e relata suas visões para os parentes que estão na platéia. James Randi diz que o médium usa o mesmo método aplicado por Sylvia Browne, o cold reading.

Allison Dubois

Tem visões que ajudam a polícia do Arizona a resolver crimes. Parece filme? Quase. Sua vida inspirou a série de TV Medium. Randi convidou Allison a participar de seu desafio, mas ela não aceitou, alegando que o dinheiro não existia.