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Operação Dubai

Os detalhes, a estratégia e os bastidores da operação israelense que executou o maior traficante de armas do Oriente Médio

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h23 - Publicado em 12 mar 2011, 22h00

Texto Eduardo Szklarz

O passageiro de bigode e paletó escuro respirou tranquilo quando o Airbus da companhia Emirates aterrissou no aeroporto de Dubai. Pegou a maleta de mão e passou sem problemas pela imigração, usando um de seus 4 passaportes falsos. Contava com a simpatia do governo local, mas não queria chamar atenção para sua verdadeira identidade: Mahmoud al-Mabhouh, comandante das Brigadas de Al-Qassam, o braço armado do grupo radical palestino Hamas. Apesar do voo tranquilo e da entrada rotineira no emirado, aquele 19 de janeiro de 2010 seria o último dia em que Mahmoud viajaria. Em poucas horas, o homem seria morto numa gigantesca operação de espionagem arquitetada pelo Mossad, o serviço secreto israelense.

Ao sair do aeroporto, o recém-chegado vislumbrou o tradicional oásis de extravagância do Oriente Médio. Dubai tem pista de esqui com neve fabricada e ilhas artificiais, além do maior porto, o maior shopping, o maior arranha-céu e 25% dos guindastes do mundo. O emirado não atrai só turistas: grupos radicais usam os bancos sediados ali para financiar operações. Se você quer adquirir armas e dinheiro do Irã, por exemplo, o melhor caminho é usar um intermediário em Dubai. Ele vai dar legitimidade à transação sem levantar poeira.

Mahmoud era craque nesse tipo de negócio. Nascido em 1960 no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, ele se uniu ainda jovem à Irmandade Muçulmana – berço de quase todos os grupos fundamentalistas atuais. Mecânico que abandonou os estudos no secundário, amargou meses em prisões de Israel e do Egito. Em 1987, ajudou a fundar o Hamas, liderando dezenas de atentados contra Israel. Dois anos depois, comandou o sequestro de dois soldados israelenses, e escondeu-se no Egito e na Líbia, até ser recebido com tapete vermelho pela Síria. Com tantos contatos, ergueu a maior rede de contrabando de armas do Oriente Médio, com filiais na China e no Sudão. Graças a ele, o Hamas obteve foguetes iranianos com alcance de 60 quilômetros, capazes de atingir Tel-Aviv se disparados da Faixa de Gaza. Dessa vez, Mahmoud voltava a Dubai para uma nova “reunião de negócios” com seus parceiros. Só não sabia que seus inimigos também estariam lá.

A emboscada

Ao sair do aeroporto, Mahmoud seguiu de táxi para o hotel 5 estrelas Al Bustan Rotana. Lá, pediu um quarto sem varanda e com janelas hermeticamente fechadas. Todo cuidado era pouco, pois o homem tinha inimigos de sobra. Israel e o Fatah (partido palestino rival) estavam loucos para colocar as mãos nele. O Egito e a Jordânia o perseguiam desde os tempos da Irmandade Muçulmana, já que o principal alvo de fundamentalistas como ele são os regimes árabes moderados.

Os israelenses já haviam tentado matá-lo duas vezes. Numa delas, em 2004, colocaram uma bomba no carro que ele usava em Damasco. A explosão matou o xeique Khalil, também do Hamas, que estava no banco ao lado. Mahmoud teve mais sorte.

Mas ninguém tem sorte o tempo todo. Para pescar um peixe grande assim, é preciso achar falhas em sua rotina. “O erro de Mahmoud foi se hospedar sempre no mesmo hotel quando viajava a Dubai”, disse à Super o israelense Aaron J. Klein, especialista em inteligência. Nas visitas anteriores, o líder do Hamas tinha sido vigiado pelo Mossad. Dessa vez, os agentes do Mossad aguardavam Mahmoud no emirado e ficaram em seu encalço desde que seu Airbus aterrissou. Haviam chegado lá no dia anterior, em voos procedentes de Frankfurt, Paris e outras cidades europeias. Portavam passaportes europeus falsos, com nomes de cidadãos europeus que vivem em Israel e de israelenses com dupla nacionalidade. Essas pessoas, claro, não têm nada a ver com a história.

O segundo erro de Mahmoud foi viajar sem guarda-costas. Naquela noite, sua mulher tentou falar com ele pelo celular e não conseguiu. Desesperada, ela avisou o Hamas na manhã seguinte. Às 13 horas, empregados do hotel abriram a porta do quarto e encontraram Mahmoud morto sobre a cama. Um médico decretou que o homem de 50 anos, pai de 4 filhos, havia sofrido um ataque cardíaco.

A polícia de Dubai só suspeitou de assassinato alguns dias depois, quando os agentes já estavam longe. Em meados de fevereiro, um mês depois da execução, não havia mais dúvidas. “Há 99% de chance, senão 100%, de que o Mossad esteja por trás da morte”, afirmou o capitão Dhahi Khalfan Tamim. Os policiais imaginaram que Mahmoud havia sido eletrocutado, envenenado ou estrangulado. Só depois descobririam que o assassinato, que envolveu mais de 30 agentes do Mossad, foi muito mais sofisticado que isso.


A operação

Você leu certo: cerca de 30 agentes do Mossad esperavam Mahmoud em Dubai. Mas é mesmo necessário tanta gente para matar só um sujeito? “Esse tipo de operação realmente precisa do esforço de muitos. O alvo é uma pessoa desconfiada, que olha o tempo todo por cima dos ombros”, diz Klein. Os agentes dividem-se em várias equipes. A maior delas, de vigilância, acompanha cada passo do alvo desde sua chegada ao aeroporto. Seus integrantes devem saber quando ele estará no hotel, o que vai fazer lá, com quem se encontra, que caminho toma em cada trajeto. Em Dubai, foi assim: dois jogadores de tênis entraram com Mahmoud no elevador do hotel. Na verdade, eram os espiões que descobriram qual era seu quarto – e hospedaram-se no quarto em frente.

Para evitar suspeita, os agentes secretos mudam de identidade o tempo todo: trocam de roupa, usam bigode, peruca, óculos, maquiagem. Assumem várias feições para espreitar o lobby e os corredores do hotel, e assim garantir que tudo corra bem. Observadoras, as mulheres são fundamentais nessas tarefas. Se o alvo está num bar, um casal vai lá e senta-se na mesa ao lado. Ou uma jovem atraente o observa no balcão. Parece ficção, mas é sério: em Dubai, atuaram pelo menos 6 mulheres – gatíssimas – do Mossad.

Operações assim também contam com o grupo de comando (geralmente um ou dois chefes), o grupo dos assassinos (4, no caso de Dubai) e uma equipe de suporte, que cuida do pagamento dos hotéis, aluguel de carros e outros detalhes. Sem falar das pessoas que monitoram a operação do exterior. Os agentes do Mossad fizeram ligações para a Áustria, onde provavelmente ficava a base de controle. Ou seja, é um bocado de gente para mandar o terrorista ao paraíso.

Os assassinos deram cabo de Mahmoud em seu quarto, por volta das 20h30. Com os vídeos liberados pela polícia de Dubai, é possível reconstruir o assassinato passo a passo (veja o quadro abaixo). A autópsia revelou que o sangue continha traços de succinilcolina, um poderoso relaxante muscular muito usado para entubar pacientes de UTI. Segundo a polícia, os agentes injetaram a droga com seringa na coxa de Mahmoud e o sufocaram com um travesseiro. A droga impediu o terrorista de defender-se. “Esse método simulou uma morte natural, sem sinais de resistência da vítima”, afirmou aos jornais o policial Khamis al-Mazeina.

Para confundir os investigadores, os assassinos deixaram um remédio de hipertensão no criado-mudo ao lado da cama. Trancaram a porta do quarto e ainda deram o toque que faltava: a plaquinha “Não perturbe” na maçaneta.

A Diplomacia

Diante do escândalo provocado pela revelação do assassinato em Dubai, o governo de Israel adotou sua postura tradicional frente aos assassinatos de extremistas. Não negou nem confirmou sua participação. E ainda minimizou as acusações que pesam sobre o Mossad. “Vocês veem muitos filmes de James Bond”, afirmou aos jornalistas o ministro de Relações Exteriores, Avigdor Lieberman.

Claro que a brincadeira não causou graça aos líderes mundiais. Passaportes são propriedade dos governos, e os embaixadores de Israel tiveram de dar explicações na Inglaterra, Irlanda e outros países cujos documentos foram forjados. Como já aconteceu antes, a operação do Mossad estremeceu as relações entre Jerusalém e a Europa… pelo menos na aparência. “Ok, governos ocidentais estão zangados com o mau uso de seus passaportes e o roubo da identidade de seus cidadãos. Mas, sendo realista, o que eles vão fazer? Romper relações com Israel? Não acredito”, disse Robert Grenier, ex-diretor da CIA (agência de inteligência americana), no site da rede de TV árabe Al-Jazeera. “Os israelenses não esperam ser adorados, e, francamente, não se importam, quando sua segurança está em jogo.”

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Faz sentido. Usar passaporte falso é o arroz com feijão diante do banquete dos serviços secretos do mundo. Mahmoud usava quatro! E, como diz Robert Grenier, a verdade é que pouca gente – inclusive na Europa e em países árabes – está ligando para o destino dele. Na Jordânia, aliás, dois palestinos do Fatah foram presos acusados de colaborar na operação.

O sucesso

Nenhum líder político de Israel ficou contente com a revelação de fotos e vídeos de seus agentes executando um inimigo em outro país. Se a polícia de Dubai se contentasse com a morte natural de Mahmoud, Israel teria custos políticos menores, suas negociações diplomáticas ocorreriam com menos dificuldade e o país evitaria o desejo de vingança dos palestinos. Mas não dá para dizer que o escândalo superou os benefícios da operação. Para o governo de Israel, a eliminação de líderes como Mahmoud é um “assassinato preventivo”, pois debilita a estrutura de grupos terroristas e evita atentados em seu território. Mahmoud era o homem-chave do Hamas para a aquisição de armas. Vai ser difícil a organização encontrar um substituto à altura. Além do mais, Dubai tem um valor simbólico: é o elo entre o Hamas e o Irã. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, prega a destruição de Israel, apoia extremistas e desenvolve um polêmico programa nuclear. Com a missão de Dubai, os israelenses mandaram um recado aos aiatolás: “Seguimos os passos de seus homens e podemos alcançá-los aonde for”.

A polícia de Dubai garante que a operação esteve longe da perfeição, pois os agentes deixaram pistas demais. Seus rostos estão dando volta nos jornais e no site da Interpol. Basta acessar o YouTube para vê-los pelo hotel – tudo registrado por câmeras. Como é que um serviço secreto dá tanta bandeira?

Pois acredite: a operação foi um sucesso para o Mossad. Ok, os agentes foram filmados e rastreados – com a tecnologia de hoje, seria ilusão pensar que sejam invisíveis. Mas o ponto é: eles chegaram até o alvo, eliminaram-no e escaparam. As evidências só foram detectadas depois, e são inúteis. “Pegue esses 30 rostos, junte-os a centenas de outros e não vai conseguir reconhecê-los”, diz Aaron Klein. “As caras que vemos nas fotos foram maquiadas e disfarçadas com bigodes e perucas.”

Para rastrear uma pessoa, diz o especialista, você precisa de impressões digitais ou medidas biométricas, como a foto da íris. E não havia nada disso em Dubai. Assim, as 40 mil câmeras do emirado não colocaram em risco o modus operandi do Mossad. A coisa só deve mudar em 2015, quando a maioria dos aeroportos europeus contará com aparelhos de detecção biométrica. Aí, sim, os agentes encobertos terão um belo abacaxi para descascar.

Enquanto isso, o Mossad revive a glória de melhor serviço secreto do mundo. Seu site nunca foi tão popular. Óculos como os dos espiões sumiram das prateleiras em Israel. Nessa “Mossad-mania”, os fãs já elegeram a rainha: a agente de passaporte irlandês que teria convencido Mahmoud a abrir a porta do quarto. “Gail Folliard pode entrar no meu quarto quando quiser”, diz uma camiseta vendida a US$ 4 na internet. Mas cuidado. Ela pode ser um homem.

 

 

Morte em 8 passos
Para a polícia de Dubai, foi assim que a execução de Mahmoud aconteceu

Reportagem fotográfica

 

 

Olha o Mossad aí

O último alô
O historiador Mahmoud Hamshari era uma espécie de diplomata em Paris da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Em 1972, ele divulgava a causa de seu povo entre estudantes e intelectuais. Por isso, não hesitou quando um jornalista italiano o chamou para tomar um café na esquina. Mal sabia que o suposto repórter recebia o contracheque de Israel. O Mossad acreditava que Hamshari participara do atentado à bomba contra um avião da Swiss Air que ia de Zurique a Tel-Aviv, em 1970, matando 47 pessoas. Assim, enquanto o historiador sorvia talagadas de capuccino, agentes secretos instalaram em seu telefone um explosivo plástico acionado por controle remoto. Aguardaram que ele voltasse, ligaram para ele e apertaram o botão depois de ouvir sua voz. O apartamento ficou destruído. Hamshari morreu 3 semanas depois no hospital.

Morena fatal
No “Setembro Negro” de 1970, as tropas do rei Hussein da Jordânia mataram milhares de palestinos e obrigaram os sobreviventes a fugir. Assim, o Líbano tornou-se um refúgio para vários grupos terroristas. Em 1973, o Mossad decidiu deter alguns deles em uma operação de alto risco em conjunto com a Sayeret Matkal, a unidade israelense de contraterrorismo. O objetivo: entrar em Beirute pelo mar e assassinar 3 oficiais do Fatah, o partido do ex-líder palestino Yasser Arafat. Para não chamar atenção no território inimigo, alguns agentes disfarçaram-se de mulheres. Entre eles Ehud Barak, atual ministro de Defesa de Israel. Com longas madeixas morenas, ele desfilou de mãos dadas com seu “namorado” pela capital libanesa levando 4 granadas e uma submetralhadora sob o sutiã. O grupo conseguiu matar os 3 oficiais em suas casas e fugiu após tiroteios com os seguranças. A façanha provocou a queda do governo libanês.

Doce veneno
O terrorista Wadi Hadad era o cérebro de atentados contra aviões feitos pela Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). Em 1978, ele teve uma doença estranha que debilitou seu sistema imunológico. Seu ponto fraco tinha sido o gosto por doces: era louco por chocolates. Meses antes, havia devorado uma caixa inteira de tabletes belgas que um integrante de sua organização (infiltrado pelo Mossad) lhe dera ao voltar da Europa. As iguarias estavam banhadas com um veneno letal. Hadad morreu aos 48 anos, após dias agonizando em um hospital da Alemanha Oriental.

Essa deu errado
Em 1997, dois agentes viajaram à Jordânia com passaporte canadense para matar o palestino Khaled Meshaal, chefe do Hamas em Amã. Eles entraram no escritório dele e injetaram uma toxina abaixo de sua orelha esquerda. Mas a polícia jordaniana conseguiu prendê-los, e o rei Hussein anunciou que só os soltaria se Israel lhe enviasse o antídoto do veneno. O presidente americano Bill Clinton precisou interceder para que Israel aceitasse a proposta. Meshaal mudou-se para o Catar e depois para a Síria, onde vive até hoje. A Jordânia liberou os dois agentes em troca do xeique Ahmed Yassin, líder espiritual do Hamas, que andava em uma cadeira de rodas. Em 2004, um míssil lançado por um helicóptero israelense eliminou Yassin. Seu sucessor, Abdel Aziz al-Rantissi, morreu do mesmo jeito um mês depois.

Carro voador
Imad Mugniyeh, chefe do grupo xiita libanês Hezbolá, era o terrorista mais buscado do mundo antes do 11 de setembro. Seu longo currículo incluía o atentado contra a embaixada dos Estados Unidos em Beirute, que matou 63 pessoas em 1983, e o ataque, em Buenos Aires, contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, que deixou 85 mortos. Em 2008, o carro que Imad dirigia pelas ruas de Damasco voou pelos ares. Até hoje não se sabe quem instalou a bomba que partiu o carro do terrorista em pedaços. O Mossad é o candidato mais cotado, provavelmente com a ajuda da Arábia Saudita e de outros regimes árabes sunitas, mais moderados.

 

 

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