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Os amigos americanos de Hitler

Mais que qualquer alemão, um famoso americano pode ter sido a influência decisiva na ascensão do nazismo.

Por Fábio Marton Atualizado em 1 out 2020, 12h19 - Publicado em 14 nov 2019, 14h39
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adison Square Garden, Nova York, 20 de fevereiro de 1939. Aniversário de George Washington. No palco armado na arena fechada, uma figura gigante do primeiro presidente olha para o horizonte. A seu lado, duas enormes flâmulas com a estampa da bandeira americana. E, ao lado delas, dois escudos com uma suástica decolando deles como um foguete.

É a Demonstração em Massa para o Verdadeiro Americanismo e, na plateia, mais de 20 mil pessoas. Para fazer segurança ao evento, a cidade de Nova York havia mobilizado 1.700 policiais, na maior ação já vista na cidade.

O orador sobe ao púlpito e é saudado com a mão espalmada. Mas, no lugar do “Sig Heil” nazista, ouve-se “Free America!”. Seu nome é Fritz Julius Kuhn, alemão naturalizado, e fala com um carregado sotaque. Abre o discurso fazendo graça, dizendo que não tem chifres, rabo nem cascos, como a “mídia controlada pelos judeus” o pintava. Diz que George Washington era “o primeiro fascista americano”. E, apoteoticamente: “Acordem! Vocês, arianos, nórdicos e cristãos, para exigir que nosso governo seja devolvido às pessoas que o fundaram!”. Kuhn é interrompido. Um homem entra no meio do palco gritando “Abaixo Hitler!”. Era o encanador judeu Isadore Greenbaum, que é contido e leva uma surra de chutes no chão. Sai levado pela polícia. Seria condenado por “arriscar a segurança pública”.

Não se é nazista na cidade mais judia do mundo (e continua a ser fora de Israel, que nem existia) sem consequências. Do lado de fora, 100 mil protestavam contra a celebração. E, assim, na saída, nazistas americanos apanharam de contra-manifestantes. Kuhn era o líder (Bundesfuher) da German American Bund (“União Alemã Americana”), uma associação de descendentes de alemães fãs de Adolf Hitler. O Führer não correspondia ao amor: a política externa da Alemanha nazista era não tentar converter ninguém no exterior. Particularmente lugares como os EUA, que eles prefeririam ver fora da guerra que se aproximava.

A Bund era só a face mais óbvia da simpatia que uma parcela considerável de americanos tinha pelas ideias de Hitler. E o mais famoso entre eles, com um poder com que Kuhn jamais poderia sonhar, nem era descendente de alemães: atendia por Henry Ford.

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Ford era um antissemita ferrenho que acreditava, como os nazistas e a ultradireita de hoje, numa grande conspiração por trás tanto do comunismo quanto do capitalismo financeiro – que ele via como improdutivo e parasitário, diferente do seu capitalismo industrial. Em 1918, Ford comprou o jornal The Dearborn Independent, então o segundo mais lido no país, para distribuir nas concessionárias da Ford. E basicamente o transformou num panfleto antissemita. Nele foi publicada a série O Judeu Internacional contendo a teoria da conspiração acima citada.

Hitler tinha um retrato de Ford em seu escritório, o citava como inspiração, e chegou a escrever em Mein Kampf: “Todo ano torna a eles [os judeus] mais e mais controladores de uma nação de cento e vinte milhões; somente um único grande homem, Ford, para a fúria deles, ainda mantém total independência”.

De volta aos States, os anos 1920 coincidiram com a “era de ouro” da Ku Klux Klan – que surgira pelo sucesso do filme O Nascimento de uma Nação (1916), de D.W. Griffith, que encontraria um público receptivo à sua mensagem racista.

A “Demonstração em Massa pelo Verdadeiro Americanismo”, da German American Bund em Nova York. Entre as bandeiras se lê: “Abaixo a dominação judaica dos cristãos americanos!”. A plateia se dividia entre os que usavam uniformes militares imitando os dos nazistas ou ternos adornados com braçadeiras com a suástica nos ombros. FPG/Getty Images

Ford e a KKK, ainda assim, empalideciam diante do grande herói nacional de seu tempo: Charles Lindenbergh, o primeiro a cruzar o Atlântico sem escalas num avião, em 1927. Lindenbergh negava ser antissemita, mas o que fez foi capitanear uma massiva campanha para evitar que os EUA entrassem na guerra, o Comitê América Primeiro, e provavelmente teria conseguido não fosse por Pearl Harbor. Nessa campanha, Lindenbergh fez declarações como “Devemos perguntar quem é dono e influencia o jornal, a notícia no cinema e a estação da rádio… Se nosso povo soubesse a verdade, seria improvável entrarmos na guerra” (era óbvio a qualquer um na época que falava de judeus). Também dizia: “Não estou atacando os povos judeu ou britânico. Ambas as raças eu admiro. Mas estou dizendo que os líderes de tanto os judeus quanto os britânicos, por razões que são tanto compreensíveis de seu ponto de vista quanto pouco recomendáveis do nosso, por razões que não são americanas, querem nos envolver na guerra.”

O diário de Lindenbergh trazia pensamentos menos públicos: “inegavelmente temos um problema judeu” e “Devemos limitar a influência judaica a uma quantidade razoável… Quando a percentagem judia da população se torna muito alta, a reação invariavelmente parece ocorrer. O que é ruim, porque alguns judeus do tipo certo são, acredito, um bem para qualquer país”. Depois da guerra, Lindenbergh deixou claro que preferia Hitler vivo e no poder. “Estava profundamente preocupado que o poder gigante da América (…) faria uma cruzada na Europa para destruir Hitler sem perceber que a destruição de Hitler abriria a Europa para os estupros, saques e barbarismo das forças da URSS, causando possivelmente uma ferida mortal na civilização ocidental.”

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