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Os mitos dos últimos dias

A versão mais conhecida no Ocidente é a dos cristãos, descrita em detalhes no livro do Apocalipse. Mas muitos outros cultos pregaram versões diferentes do final dos tempos - e alguns até o tratam mais como um recomeço

José Lopes

Pode parecer estranho dizer isso para quem cresceu numa cultura cristã, na qual temas como o fim do mundo e o retorno de Jesus “para julgar os vivos e os mortos” aparecem casualmente na igreja, mas nem todas as religiões acreditam que o Apocalipse um dia virá. E, mesmo nas que hoje colocam o Armageddon no centro de seus ensinamentos ou como parte importante deles, as ideias sobre os fins dos tempos emergiram de forma gradual, dando margem a interpretações variadas ou mesmo contraditórias (embora muitos fiéis não admitam isso, claro).

A seguir, você confere algumas das visões mais importantes e interessantes das religiões sobre a chamada escatologia – do grego êschaton, “último”, ou seja, o “estudo das últimas coisas”. (Guarde essa palavrinha, até porque é muito chato ter de ficar repetindo a expressão “fim do mundo” a toda hora, você não acha?)

Ciclo sem fim

Nossa primeira parada é por tradições politeístas, ou seja, nas quais uma variedade de deuses é adorada pelos fiéis. Pode ser só coincidência, mas as narrativas escatológicas politeístas tendem a apontar para o Apocalipse como um recomeço, ou parte de um ciclo, e não como uma conclusão definitiva da história do Cosmo.

O exemplo mais claro disso é o Ragnarök, nome dado pelos antigos escandinavos ao fim do mundo. Os relatos que chegaram até nós sobre essa estranha história vêm de textos islandeses do século 13, quando os escandinavos já tinham se tornado cristãos. Mas essas narrativas preservam tradições pagãs provavelmente bem mais antigas.

O Ragnarök é a profecia sobre o momento em que os deuses germânicos – como Thor e seu pai, Odin, o chefão divino – finalmente serão derrotados por seus inimigos monstruosos. Nessa rebelião cósmica, criaturas como o lobo Fenrir, a serpente marinha Jörmungandr, o deus renegado Loki (pai do lobo e da serpente, aliás. Não me pergunte como…) e gigantes de gelo e fogo atacam os deuses. Fenrir mata Odin, Jörmungandr fere Thor mortalmente – ao mesmo tempo que o deus mata a criatura -, o Sol, a Lua e as estrelas são consumidos e a Terra afunda no oceano (lembre-se de que “Terra” para esses povos não era um planeta, mas um continente).

No entanto, após certo tempo, a terra firme volta a emergir e é repovoada. Surgem novos deuses e uma nova raça humana, e eles redescobrem, em meio aos destroços, as peças de um jogo de tabuleiro dos antigos deuses – daí a ideia de um ciclo.

A percepção de que o mundo passa por ciclos de criação, destruição e recriação também está presente nas crenças hinduístas (as quais, embora admitam a existência de vários deuses, muitas vezes, na prática, enxergam um só deus como supremo, enquanto os outros são manifestações dele). Muitos hindus tendem a ver a época atual como uma fase de decadência e predomínio do mal na história cósmica. No fim da presente era, o deus Shiva seria o responsável por, ao mesmo tempo, destruir e recriar o mundo, iniciando um novo ciclo.

A visão sobre o fim dos tempos ocidental começou a se formar no judaísmo.

Bem diferente dessa versão cíclica, o Apocalipse ocidental, mais conhecido entre nós, surge com o Antigo Testamento. Mas a preocupação escatológica não aparece em todos os textos. Ela só se torna razoavelmente clara nas visões dos profetas israelitas, como os famosos Isaías, Jeremias e Ezequiel – sujeitos que viram o povo de Israel cada vez mais ameaçado pela sombra de potências estrangeiras, fenômeno que acabou culminando com a destruição da cidade santa de Jerusalém em 586 a.C. pelo exército da Babilônia e o exílio da elite israelita.

Ora, quando o seu país está destruído, você foi levado à força para uma terra estrangeira e o templo do seu deus não existe mais, só a crença num futuro melhor é capaz de dar forças para continuar lutando. Foi esse futuro que os profetas judeus previram, mas ele acabou indo além da mera restauração do reino de Israel e do templo de Jerusalém.

Em vez dessa simples mudança política positiva, os profetas enxergavam um mundo em que os exércitos transformavam suas espadas em arados, leões viravam vegetarianos e se deitavam ao lado dos bezerros, crianças podiam brincar com cobras sem serem picadas. E, no centro de tudo, estaria um rei sábio e justo, descendente de Davi, cujo poder seria imposto não pela força, mas graças à bênção de Deus – era o primeiro germe da ideia do Messias.

Nessa fase da evolução do pensamento escatológico, no entanto, esse sujeito seria um monarca humano, apesar de sua relação próxima com Deus. O problema é que a mudança sonhada pelos primeiros profetas, quando veio, não foi tão gloriosa. O exílio dos judeus terminou por volta de 520 a.C., mas sua terra continuou sendo dominada por potências estrangeiras. Pior ainda: por volta do ano 170 a.C., eles passaram a ser perseguidos por continuar a seguir sua religião.

Os especialistas acreditam que essa crise motivou a composição do Livro de Daniel, o primeiro “apocalipse” da Bíblia – no sentido de ser o primeiro texto que usa imagens simbólicas e assustadoras para relatar em detalhes os últimos dias. É nele que aparecem pela primeira vez monstros com muitos chifres e olhos (representando os reinos que oprimem o povo judeu), batalhas entre anjos e a figura misteriosa do Filho do Homem – um “comandante-em-chefe” celestial enviado por Deus à Terra para instaurar o reino dos justos.

E esse reino agora é retratado com características decididamente sobrenaturais. Os mortos ressuscitam e são julgados, os bons ganham a felicidade eterna, enquanto os maus são punidos com “a infâmia eterna”. É basicamente esse cenário cataclísmico que as formas tradicionais do cristianismo e do judaísmo acabam herdando. A diferença é que, para os cristãos, o Filho do Homem é o próprio Jesus ressuscitado que retornará do céu (como narrado no livro do Apocalipse, presente no Novo Testamento), enquanto para os judeus ortodoxos o Messias ainda está por vir, obviamente.

As crenças islâmicas no fim do mundo são muito parecidas, em linhas gerais, com as de cristãos e judeus, envolvendo a ressurreição e o julgamento dos mortos. No entanto, muitos muçulmanos também acreditam no surgimento do Mahdi, um líder que destruirá o mal no mundo, e no retorno de Jesus à Terra para governar o reino de justiça criado com a ajuda do Mahdi durante 40 anos.

Depois disso, Jesus morrerá (de novo) como qualquer mortal, e a história do planeta será finalmente concluída.