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Pré-história revelada

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h11 - Publicado em 31 ago 1998, 22h00

Denis Russo Burgierman, de Botumirim

A reportagem da SUPER vai ao interior de Minas Gerais e, numa viagem emocionante, ajuda na descoberta de seis novos sítios arqueológicos, com pinturas rupestres que podem ter até 7 000 anos de idade.

As pinturas rupestres da pré-história brasileira estão registradas em rochas, paredões e grutas em todos os cantos do país. São testemunhos silenciosos de tempos imemoriais. E já se conhece muita coisa. Oficialmente, estão catalogados 787 sítios dessa arte ancestral.

Agora, este número vai subir para 793. É que, com a ajuda da reportagem da SUPER, foi confirmada a existência de mais seis desses sítios. “As pinturas são mesmo inéditas e merecem ser estudadas”, atesta a arqueóloga Loredana Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais. A convite da SUPER, ela acompanhou a nossa excursão ao interior mineiro.

O próximo passo, agora, é decifrar o achado. Tão fascinantes quanto as figuras incrustadas nas rochas são as perguntas que elas trazem – e que ainda não têm respostas. Por que os ancestrais dos primeiros povos indígenas da América decoravam as rochas? Quais foram, exatamente, esses povos? O que queriam dizer com seus desenhos? Qual a idade precisa de cada um deles?

Tantas interrogações servem de desafio para os pesquisadores. Com novos sítios sendo achados, as imagens podem ser comparadas entre si e as respostas começam a ficar mais próximas. O arqueólogo André Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais, um dos maiores especialistas no assunto, está empolgado: “Nunca aprendemos tanto sobre o passado”.

Primeira parada: Botumirim

O carro mal conseguia vencer a areia e o cascalho da picada esburacada. Mas, depois de 1 hora e meia para rodar 30 quilômetros, se esgueirando pelos cerrados de Botumirim, uma pequena cidade mineira 750 quilômetros ao norte de Belo Horizonte, o automóvel não pôde mais avançar. Então, vieram 2 horas de caminhada por uma trilha aberta a golpes de facão. Já eram 10 horas da manhã quando a expedição da SUPER achou um pequeno tesouro pré-histórico: a Pedra do Veado Pintado, que é familiar para alguns habitantes de Botumirim, mas que nunca tinha sido registrada por um cientista. Nunca, até aquela terça-feira, 7 de julho. Junto com o repórter Denis Russo Burgierman, estava a arqueóloga Loredana Ribeiro da Universidade Federal de Minas Gerais, e o fotógrafo Omar Paixão.

O quarto integrante da equipe, o guia Eliomar Geraldo Farias, o Loma, foi o grande responsável pela descoberta. Foi ele quem informou à SUPER da existência de imagens pré-históricas inéditas naquela região (veja o quadro à direita). Cerca de um mês antes, Loma havia levado fotos dos painéis à redação da revista, em São Paulo. Com base nelas a excursão foi preparada. Graças a ele, a expedição foi um sucesso.

Nos dias 7 e 8 de julho, os aventureiros vasculharam uma área de 5 quilômetros de raio, sempre a pé. Só usaram o carro à noite, para dormir no único hotel de Botumirim. Em dois dias, Loredana pôde mapear e registrar (em desenhos que reproduzem as imagens pré-históricas) seis paredões, nenhum deles ainda catalogado. Numa ficha, a arqueóloga descreveu a localização e a tradição a que pertencem os desenhos.

À frente de um paredão, o solo estava forrado de instrumentos de pedra. Teriam sido deixados pelo autor dos desenhos? “Não dá para dizer sem um estudo mais detalhado”, afirma a arqueóloga. Mas uma pista ela encontrou: certas pinturas lembram muito as de outro local, o Vale do Peruaçu, a 300 quilômetros dali, perto da divisa com a Bahia. O Vale é conhecido. É uma das mais bem estudadas e mais belas galerias do país. Estava decidido. Peruaçu seria o próximo destino da expedição.

Dez milênios de beleza no Vale do Peruaçu

Da galeria inédita de Botumirim, a reportagem da SUPER foi direto, de carro, para o Vale do Peruaçu, perto de Januária, no norte do Estado. Ali estão os afrescos pré-históricos mais espetaculares do país, gravados num cânion com 17 quilômetros de comprimento e 60 metros de altura. A paisagem, descoberta pela ciência há uma década, é de tirar o fôlego. De apaixonar.

Um que ficou cativado foi o arqueólogo francês André Prous, de 53 anos, da Universidade Federal de Minas Gerais. “É espetacular, diferente de tudo que eu tinha visto”, diz. Ele passa dois meses por ano no vale, coordenando as pesquisas, que empregam cerca de vinte profissionais. Todos dormem em barracas. São confortáveis, como comprovou a equipe da SUPER, que passou duas noites dentro delas.

As escavações revelaram que as obras pertenceram a eras distintas. Têm entre 2 000 e 11 000 anos. “É difícil saber a idade exata dos desenhos”, explica Prous. “Teríamos que arrancá-los das pedras e destruí-los para estudar sua matéria orgânica.” A saída é examinar só os pedaços coloridos que caem no chão.

Sabe-se que a região abrigou povos diferentes e Prous tem uma estimativa para os períodos mais importantes: “Baseado na sobreposição das tradições e nos vestígios arqueológicos”, diz o cientista, “acho provável que a maioria das pinturas tenha 7 000 anos, e algumas, 10 000 anos”. Há ainda esqueletos no cânion, mas, como nenhum tem mais de 5 000 anos, não pertenceram aos autores da maior parte das figuras.

Quanto ao significado das obras, Prous explica que já não se tenta adivinhar a intenção dos artistas. “No início do século, imaginava-se que a arte era uma forma de magia.” Os pré-históricos desenhariam aquilo que gostariam que acontecesse. Por exemplo: rascunhar animais atrairia a caça. Mas essa teoria não explica a variedade de imagens. “O que estudamos, agora, são as diferentes técnicas e temas”, diz Erika Gonzales, da USP. Com isso, cria-se um catálogo das tradições, a partir das quais é possível delinear os costumes e as características dos brasileiros mais antigos.

Lagoa Santa, o cenário mais revelador

No centro de Minas, as montanhas de Lagoa Santa são parada obrigatória para todos os estudiosos da cultura pré-histórica no Brasil. Lá, os sítios estão catalogados de longa data. Começaram a ser desbravados em 1834, pelo biólogo dinamarquês Peter Lund, e, depois, na década de 70, por André Prous. Suas figuras, a maioria representando animais, são menos espetaculares que as do Vale do Peruaçu, mas são igualmente antigas, com 10 000 anos de idade.

O que torna Lagoa Santa excepcional é que, junto aos desenhos, já foram desenterrados fragmentos de quase 500 esqueletos humanos. O pé dos paredões era uma espécie de cemitério. Um crânio, datado este ano pelo antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, estabeleceu um recorde: é o mais antigo já encontrado nas Américas,com pelo menos 11 000 anos. Neves diz ter pertencido a uma mulher, que batizou de Luzia.

Antiguidade à parte, os ossos ajudam a provar a sucessão de ocupações do local. Para André Prous, os penhascos de Lagoa Santa foram referências para diversos povos. Mas os homens pré-históricos não moravam junto às pedras que decoravam. Eles iam lá para pintar ou para enterrar os mortos. Prous explica que, como no Brasil faz calor, era possível morar fora das cavernas. Bem poucos resíduos de comida e de fogueiras foram encontrados junto aos traços coloridos.

Mas, para os arqueólogos, isso é só uma peça, ínfima, do vasto quebra-cabeças que investigam. Eles escavam e vasculham cada sítio e comparam, minuciosamente, todas as descobertas. Nesse estudo, detectam variações nas técnicas artísticas, na forma dos objetos e na maneira como os esqueletos foram preservados. Essas pistas abrem frestas para a cultura, para a história e para as rotas de migração dos povos pré-históricos.

Ainda ignoramos quase tudo sobre os primeiros brasileiros. Mas estamos aprendendo. Como diz Walter Neves: “As pinturas rupestres e outros vestígios são o caminho para entender o povoamento do Brasil”. De sua parte, a SUPER se orgulha de ter contribuído para esse entendimento.

Descobridor de rabiscos

Eliomar Geraldo Farias, o Loma, como é conhecido, já foi garimpeiro no Mato Grosso e bóia-fria em Goiás. Passou vinte dos seus 35 anos pegando carona em caminhão para todos os cantos do país. No final de 1997, decidiu voltar à terra natal, Botumirim. Queria esclarecer um mistério que o incomodava desde os 11 anos de idade. Foi quando ele viu pela primeira vez os desenhos da chamada Pedra do Veado Pintado.

“O povo dizia que não era nada, mas eu sabia que era importante”, lembra. Assim, 24 anos depois, tirou fotos das pinturas, pegou um ônibus para São Paulo e veio bater na porta da SUPER. Nós checamos a história. Fomos até Botumirim. E valeu. Os rabiscos se revelaram pinturas milenares, até então desconhecidas dos arqueólogos.

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Tinta de pedra

Cacos de minério forneciam as cores

Os artistas raspavam as pedras para arrancar pigmentos coloridos

O vermelho e o amarelo vinham do minério de ferro. O preto, do manganês

Misturado com cera de abelha ou resina de árvore, o pigmento virava tinta

Terra fatiada

Veja como os cientistas analisam uma escavação arqueológica.

Variações de clima e outros fatores dão cores distintas às camadas de terra. Cada fatia de solo indica um período. Quanto mais funda, mais antiga.

Este buraco cheio de terra contém sementes fossilizadas. Deve ter sido um silo, usado para armazenar comida.

O material das fogueiras pode ser datado com mais precisão. Depois, é fácil: tudo o que estiver na mesma camada da fogueira tem a mesma idade que ela.

O buraco estreito e fundo indica que aqui houve uma estaca espetada no chão. Pode ter sido o esteio de uma cabana.

Francês pioneiro

O francês André Prous veio para o Brasil em 1971, em uma missão de arqueologia. Veio e ficou. Tornou-se professor da Universidade Federal de Minas Gerais e foi um dos primeiros a estudar, metodicamente, a pré-história brasileira.

Arte nada moderna

As mais importantes pinturas rupestres do Brasil.

1. Pedra Pintada (PA)

Aqui, em 1996, a arqueóloga americana Anna Rosevelt achou pinturas com cerca de 11 000 anos.

2. Peruaçu (MG)

Tem vários estilos de pinturas entre 2 000 a 10 000 anos. Exibe espetaculares desenhos geométricos.

3. Lagoa Santa (MG)

Suas pinturas de animais, conhecidas desde 1834, têm entre 2 000 e 10 000 anos de idade.

4. São Raimundo Nonato (PI)

Segundo Niède Guidon, da Universidade Estadual de Campinas, possui vestígios humanos de 40 000 anos e pinturas de 15 000 anos.

Da África à América do Sul

Uma nova teoria para explicar a ocupação do continente.

1. Os esqueletos mais antigos do Homo sapiens foram encontrados na África e têm 120 000 anos.

2. Há 100 000 anos, o sapiens migrou para a Ásia. Mas um grupo foi direto para a América.

3. Assim, os primeiros a chegar à América foram os africanos, há mais de 2 000 anos.

4. Depois dos negros, teriam chegado os asiáticos, precursores dos nossos índios.

5. Há 7 000 anos, os africanos teriam sido eliminados pelos asiáticos.

Ancestrais africanos?

No mundo incerto da Arqueologia, a ciência que estuda os ancestrais humanos, a teoria mais aceita sobre o povoamento das Américas sustenta que povos asiáticos atravessaram o Estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia, há 12 000 anos. Eles teriam aproveitado uma descida do nível dos oceanos para passar a pé pelo fundo do mar. Mas, para o antropólogo Walter Neves (na foto acima), antes deles chegaram povos mais antigos, com traços de negros africanos. Neves chegou a essa conclusão depois de medir detalhes anatômicos de cinqüenta crânios de Lagoa Santa, em Minas, e na Colômbia. Se estiver certo, a primeira leva de migrantes teria saído da África e dado a volta ao mundo até chegar aqui. Mais tarde, vieram os asiáticos, ancestrais dos índios de hoje – e que exterminaram os negros.

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