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Quando a mentira tem pernas longas

Espalhar boatos, quem diria, é uma tarefa frequente de agentes do serviço secreto internacional. Quando se disseminam pela população, os falsos rumores alimentam o ódio, inclinam as pessoas para a guerra e ajudam políticos a chegar ao poder

Por Fábio Marton Atualizado em 31 out 2016, 18h24 - Publicado em 12 mar 2011, 22h00

Talvez tenha sido um tio seu metido a esperto, num almoço em família no domingo. Ou quem sabe um colega do segundo ano. Um dia, e não foi pela TV, você ouviu esta história: “Não acredite no que dizem por aí. A Aids foi criada em laboratório, pelos americanos, e espalhada na África e entre os gays! Eles queriam se livrar dos homossexuais e também dos negros!”.

Você pode ter achado que se tratava apenas de uma lenda urbana, mas o que presenciou foi um autêntico resultado de desinformação – o trabalho de espalhar intencionalmente ideias falsas, entre inimigos ou aliados, de forma a desmoralizar os adversários, engrandecer a si próprio, ou levar as pessoas a conclusões convenientes. O trabalho pode ser no boca a boca, mas, em geral, envolve a imprensa. Diversas agências de inteligência destacaram agentes apenas para disseminar boatos de seus inimigos. A mais experiente nessa arte foi a KGB. A agência de inteligência da União Soviética cansou de plantar notícias em jornais do bloco socialista, notícias que eram republicadas por meios simpatizantes ou sensacionalistas no resto do mundo. Em 1979, por exemplo, o filho do cineasta Charles Pathé, o jornalista Pierre Charles Pathé, foi preso na França por disseminar propaganda soviética secreta por meio de seu trabalho como jornalista, usando pseudônimos e até uma revista inteira patrocinada pela KGB, a Synthesis. Segundo o historiador Richard Felix Staar, em seu livro Foreign Policies of the Soviet Union (“Política Externa da União Soviética”, sem edição no Brasil), outras histórias espalhadas por influência dos agentes da KGB foram as seguintes:

1. O FBI assassinou Martin Luther King Jr. (informação noticiada pelo jornal Literaturnaia Gazeta, em 20 de janeiro de 1988);

2.• Cidadãos americanos compravam bebês da América Latina para remover órgãos (Sovestkaia Kultura, 25 de outubro de 1988);

3.• O massacre de 1978, com 918 mortes causadas pela seita do reverendo Jim Jones, foi obra do governo americano (Novosti, dezembro de 1988);

4.• Os Estados Unidos estão criando uma “arma étnica” que mata apenas não brancos (Zaria Vostoka, 19 de fevereiro de 1989);

5.• O assassinato de John Kennedy foi resultado de uma operação sigilosa da CIA (Pravda, 8 de agosto de 1990).

O boato de que os americanos criaram o vírus da Aids foi lançado pela KGB em 1983. O primeiro jornal a publicar a história foi o indiano Patriot. Ele se baseava em declarações fora de contexto e afirmações de cientistas anônimos, e o rumor não se propagou. Dois anos depois, a trama reapareceu em outro jornal ligado aos soviéticos, o Literaturnaya Gazeta, um tradicional semanário russo que circula ainda hoje. A notícia dava detalhes que aumentavam a verossimilhança: o vírus teria sido criado em Fort Detrick, o centro de pesquisas biológicas do Exército americano, para exterminar populações específicas. “Dias depois, jornais da Europa, da América Latina e da Ásia republicaram a reportagem. A mentira foi tão bem vendida quanto uma campanha de marketing para uma nova marca de sopa”, afirma o ex-agente da CIA no livro Spycraft, sem edição no Brasil. Em 1986, um falso estudo acadêmico afirmava que Robert Gallo, o cientista que primeiro descreveu o vírus HIV, em 1984, era, na verdade, o criador da doença. Jornais africanos falaram do assunto – a KGB distribuiu até panfletos na África com a história. “O boato se espalhou rapidamente pelo mundo por meio dos jornais financiados secretamente pela KGB”, conta Oleg Kalugin, ex-general da agência soviética. “Ainda hoje essa história causa problemas aos americanos, que precisam provar que não criaram o vírus quando participam de ações contra Aids em países africanos”, conta Milt Bearden, ex-agente da CIA e autor do livro O Grande Inimigo.

Segundo Bearden, a agência americana vingou-se do boato da Aids espalhando entre os afegãos sua própria história cabeluda: que os russos estavam colocando bombas com aparência de brinquedo e distribuindo pelo país para matar ou mutilar crianças afegãs. Os países estiveram em guerra entre 1979 e 1989 – em fevereiro de 1989, o New York Times publicou uma reportagem mencionando bombas-brinquedo. Essa lenda foi um sucesso raro. Os EUA podem ter ganhado a Guerra Fria, mas, em matéria de influência de seus boatos, tomaram uma surra da KGB. Segundo Pio Penna Filho, professor de Relações Internacionais da USP, “por uma questão ideológica, os russos tinham muitos colaboradores no Ocidente”. Além disso, a censura dos Estados comunistas impedia que histórias plantadas pelo governo fossem debatidas e derrubadas, fazendo o boato ganhar status de verdade.

A batalha de desinformação entre as potências do século 20 é o ápice de uma história milenar. Em 1274 a.C., o faraó Ramsés 2º teve de recuar em uma colossal batalha de bigas contra os hititas. Chegou em casa cantando vitória, e assim foi registrada a batalha por todas as fontes egípcias; se sabemos que ele perdeu é graças ao que registraram seus inimigos, a que os egípcios não tinham acesso. No comecinho do século 20, o serviço secreto da Rússia imperial criou um livro falso, Os Protocolos dos Sábios de Sião, sobre supostos planos dos judeus para dominar o mundo. Se a desinformação na Guerra Fria consistia em conquistar simpatias ideológicas, hoje se trata de convencer as pessoas do valor de uma guerra. O ex-agente da CIA Milt Bearden cita o exemplo das supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein, jamais encontradas. Tudo começou com documentos que apontavam a compra de urânio pelo ditador iraquiano. Os documentos foram provados falsos, deixando claro o seguinte: alguém gastou tempo e energia com uma armação feita para influenciar a política americana.

Quando a falsificação foi divulgada, ainda em 2003, a Guerra do Iraque estava a caminho. Diz Bearden: “A boa operação suja pode se tornar imortal. Mesmo quando desvendada, continua viva”. A internet, abrigo infinito para histórias de veracidade incerta, dá ainda mais vigor aos boatos. Uma pesquisa no Google por “Aids Fort Detrick” ou “Sábios de Sião” revela que, se a polícia do czar ou a KGB já foram desmascaradas e extintas, os boatos que elas criaram têm vida eterna.

Para saber mais: O Grande Inimigo. Milt Bearden, Objetiva, 2005.

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