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trânsito :perigo constante

No mundo inteiro, os acidentes de trânsito matam mais que conflitos armados e catástrofes ambientais. Saiba como e por que essas tragédias evitáveis acontecem.

Texto Cíntia Cristina da Silva

Antes de entrar no carro para ir ao trabalho ou viajar com a família, saiba que sua vida corre risco. Não se trata de exagero ou sensacionalismo, mas de uma constatação. O Brasil contabiliza todos os anos mais de 30 mil mortos em acidentes de trânsito. E a maior responsabilidade por esse cenário caótico é do próprio motorista. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 90% dos acidentes acontecem por falha humana.

Falta de atenção está em primeiro lugar entre as causas presumíveis de acidentes. À distração somam-se: excesso de velocidade, não manter a distância segura do carro da frente, ingestão de bebidas alcoólicas, desobediência à sinalização e ultrapassagem indevida. O cansaço é um dos vilões que alimentam essa falta de atenção. “Dirigir por horas causa desgaste muscular e a fadiga afeta a noção cognitiva e o senso perceptivo do motorista”, diz Marcos Pirito, Diretor Científico da Associação Paulista de Medicina de Tráfego.

Nesse ranking dos maiores causadores de acidentes, outro campeão é o sono – embora pouca gente admita que cochilou ao volante. Um piscar de olhos ou uma distração de segundos põe em risco sua vida e a dos outros. E aí muita gente vira estatística. Exatamente como as que usamos aqui para mapear os tipos e as causas mais freqüentes de acidentes nas estradas do país.

Engavetamento

Falta de atenção e distânciacurta entre carros causamcolisões múltiplas

Tempo de frear

Quando o motorista aciona o freio, o carro não pára imediatamente. Existe aí a distância de frenagem – o tempo que o carro percorre até que o movimento cesse definitivamente. Quanto maior a velocidade, maior a distância que se deve manter do carro da frente. Em algumas rodovias, há marcações no chão para que o motorista calcule essa distância.

Distração assassina

O engavetamento é relacionado à falta de atenção – campeã nas causas de acidentes. Um motorista se distrai (vai trocar o cd ou atender o celular, por exemplo) e bate no carro da frente, que com o impacto bate em outro veículo. Quem vem atrás e não mantém uma distância segura também corre o risco de fazer parte da maçaroca de automóveis.

Como calcular a distância segura

Mesmo sem a sinalização específica, é fácil calcular a distância segura entre dois carros numa rodovia. Marque um ponto fixo na estrada. Quando o carro da frente passar por lá conte “mil e um, mil e dois, mil e 3”, assim como fazem os pára-quedistas depois do salto, antes de abrir o pára-quedas. Se o seu próprio carro passar pelo ponto antes de a contagem terminar, você deve aliviar o pé para que o carro da frente se afaste.

Colisão fatal

Pára-choque de caminhão degola motoristas

Motoristas guilhotinados

Mais de 1,8 milhão de caminhões circulam pelas estradas do país com um pára-choque que pode causar o “efeito guilhotina”. Na iminência da colisão, o motorista do carro freia e, com a transferência de força, o carro embica e entra sob o caminhão. Resultado: dependendo da gravidade da batida, o motorista do carro perde a cabeça.

Pára-choque assassino

Todos os anos, mais de 15 mil pessoas são vítimas do “efeito guilhotina”. Um novo pára-choque, desenvolvido pela Unicamp, virou lei e desde julho de 2004 todos os caminhões fabricados no país devem ter esse novo acessório. Acontece que ainda há 1,8 milhão de veículos antigos que continuam com os pára-choques assassinos.

Equipamento mais baixo evita tragédias

Como era

O pára-choque de caminhões mais antigos está a 55 cm de distância do solo e não acompanham toda a traseira do caminhão.

Acessório mais seguro

Um pára-choque seguro está a 40 cm do chão e tem um sistema de cabos de aço que, em caso de colisão, força a frente do carro a subir.

Última ultrapassagem

Imprudência e pressa matam inocentes

Vai dar, vai dar… não deu!

Muita gente ignora a sinalização de ultrapassagem proibida. Quem ultrapassa em situações de pouca visibilidade também esquece o bom senso. Alguns motoristas confiam demais em sua habilidade como condutor e na potência do veículo. Nem sempre o cara “pilota” tão bem… Outras vezes ele pode achar quedá para ultrapassar, mas o carro não corresponde.

Cochilo letal

Motoristas com sono e semcinto engrossam estatísticas

Tudo preso no carro

Usar cinto de segurança é obrigatório por lei e mesmo assim nem todo mundo respeita. Os objetos que viajam no carro, especialmente no banco de trás, também precisam estar presos. Por um bom motivo: numa colisão a 50 km/h, um simples laptop de 3 quilos acaba virando um petardo de mais de 90 quilos. Que voa direto na sua nuca. Já imaginou o estrago?

Repouso é fundamental

Sono e direção não combinam. Uma inocente “pescada” de alguns segundos pode acabar mal. O pior é que o motorista nem percebe que fechou os olhos por alguns instantes. Ou melhor, percebe quando acorda depois da batida. Ao menor sinal de olhos coçando, piscando e fadiga muscular é preciso parar e descansar.

Vira, virou

Excesso de velocidadetermina em capotamento

Rápido demais

Ao entrar numa curva acima da velocidade capaz de garantir a segurança da manobra, o carro emite alguns sinais bem claros para o motorista: os pneus começam a cantar e há a transferência de peso – se a curva é à direita, o motorista é jogado para a esquerda. A maioria, quando percebe o risco, instintivamente pisa no freio.

Brusco demais

É aí que está o problema. A desaceleração repentina e a transferência de carga são responsáveis por deixar o carro de pernas para o ar. Outra causa recorren te de capotamentos é a precária condição das estradas de rodagem.Deformações no asfaltoou uma batida no meio-fio podem funcionar como alavancas e “ajudar” a causar a capotagem.

Tonto demais

Após um trauma desses o motorista, ainda que não tenha se machucado com o acidente em si, experimenta uma confusão mental. Aí, o maior perigo é o de atropelamento. Atordoado, o acidentado costuma sair do carro em direção à luz (que vem dos faróis) e cambaleia para o meio da rodovia: o que já estava ruim pode ficar ainda pior.

Controle zero

Aquaplanagem acaba com a dirigibilidade

Pânico só piora

Dirigir na chuva ou depois de um pé d´água exige cuidado extra. Mas nem toda a atenção do mundo é capaz de evitar uma aquaplanagem. Quando o carro entra numa placa de água, nem todo mundo consegue manter o controle da direção. A maioria entra em pânico e começa a frear e a esterçar o volante. Aí, existe o perigo de o carro rodar e/ou colidir.

Rodas flutuantes

Placas d´água se formam em partes da estrada que estejam com asfalto irregular. O pneu perde aderência à pista e começa a deslizar pela faixa de água. O motorista deve respirar fundo e manter o volante firme.

Fauna rodoviária

Animais e humanos podemcruzar seu caminho

Carro X homem

Pedestres que atravessam rodovias são um risco ambulante. Uma pessoa atingida por um carro sofre um trauma violentíssimo. Ser atropelado por um veículo a 120 km/h equivale a despencar do 45º andar. A 80 km/h significa um mergulho do 20º andar e a 60 km/h, uma queda do 11º andar. Ou seja: a velocidade cai pela metade, mas a morte é igual.

Animal X carro

Animais costumam ficar “mesmerizados” pelos faróis dos automóveis. Os eqüinos são os responsáveis pelos acidentes mais sérios nas estradas. Um cavalo costuma pesar entre 400 e 500 quilos. A colisão em alta velocidade com um animal desses esmaga o carro como uma latinha de refrigerante e geralmente é fatal para o motorista.

Molhado e cego

Chuva aumenta o risco de acidentes

Perigo líquido

A chuva diminui a visibilidade e torna a pista escorregadia –principalmente no início da precipitação, quando ainda há poeira e óleo no asfalto. O risco de acidentes cresce, pois muitos motoristas não reduzem a velocidade (poucas estradas no Brasil têm sinalização com limite de velocidade diferenciado para chuva).

Gotas ofuscantes

Numa situação de pouca visibilidade, com chuva ou neblina, nunca se deve acionar o farol alto. A luz do farol alto bate nas gotículas de água, que atuam como um espelho e fazem com que a claridade volte para o motorista. A conseqüência óbvia disso é a perda momentânea da visão.

Sem condições

Estradas malconservadas aumentam perigo

Asfalto vagabundo

Cerca de 6% dos acidentes são causados por problemas nas rodovias, responsáveis por perda do controle da direção ou avaria. A operação tapa-buracos tem ainda muito trabalho… Já defeitos mecânicos, como aqueles causados por falta de manutenção, respondem por 4% das ocorrências.

Reduza, pare e leia

• Anualmente, no mundo inteiro, pelo menos 1,2 milhão de pessoas são mortas em acidentes de trânsito.

• No ranking de mortes violentas da Organização Mundial da Saúde, o trânsito está no topo, seguido de homicídios (600 mil) e guerras (310 mil aproximadamente).

• Cerca de 32 mil pessoas perdem a vida, todos os anos, em ruas e estradas do país.

• Aproximadamente 40% de todas as vítimas morrem nos fins de semana.

• A maior parte dos mortos tem entre 25 e 34 anos de idade.

• De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um acidente de trânsito com vítima gera um gasto médio de 35 mil reais. Com morte, essa conta chega a 144 mil reais. O Ipea levou em consideração o custo da mobilização policial, resgate, internações, medicamentos e impacto no mercado de trabalho.

• Imagine que um grande avião de passageiros caia a cada dois dias. Horrível, não? Pois esse é o saldo de mortes em acidentes de trânsito somente no Brasil.