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Uma breve história do sexo

Desenhos, pinturas e objetos antigos revelam que não há nada de moderno em querer ter o máximo de prazer

Eles já tinham encontrado 13 pedaços. Faltava um.

E então, em 2005, o fragmento de rocha completou o quebra-cabeça daquele objeto sui generis: um falo de 20 centímetros de comprimento e 3 de espessura, altamente polido e com anéis talhados na base da glande. É o primeiro consolo da humanidade encontrado até agora, que pode ter sido usado como instrumento de prazer 28 mil anos atrás.

O local em que o acessório estava, a caverna de Hohle Fels, na Alemanha, é um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo. Foi lá também que a equipe liderada pelo americano Nicholas John Conard, da Universidade de Tübingen, achou em setembro de 2008 os seis fragmentos de uma escultura feminina de pelo menos 35 mil anos de idade. Com 6 centímetros de altura e feita com marfim da presa de um mamute, a Vênus de Hohle Fels, como foi apelidada, tem enormes seios, uma fenda profunda que vai do bumbum avantajado até a vulva e pernas entreabertas, por onde se veem generosos grandes lábios.

Outra Vênus, a de Willendorf, vila na Áustria onde foi desenterrada, mede 10 centímetros, tem 24 mil anos de idade e também exibe peitão, bundão e genitais exuberantes. A diferença em relação à de Hohle Fels é que ela tem cabeça. A outra, não. Em vez disso, o que existe acima do tronco é um anel, indicando que ela pode ter sido usada suspensa por um cordão. Um amuleto, um enfeite.

Referências sexuais da Pré-História não são raras. Existem cerca de 200 Vênus, que recebem dos arqueólogos esse nome em homenagem à deusa da beleza e do amor na mitologia romana. Não faltam também desenhos e esculturas com conotação erótica. Na França, encontraram uma rocha com vulvas talhadas há aproximadamente 35 mil anos e um pênis de 25 centímetros moldado 36 mil anos atrás em um chifre de bisão. Na caverna de La Marche, também em terras francesas, há paredes cheias de desenhos de posições sexuais feitas há 14 mil anos.

O Brasil é outro país rico em registros pré-históricos. No Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, pinturas rupestres tomam mais de 700 sítios arqueológicos. Entre os quatro temas que mais aparecem nos grafismos estão as práticas de sexo, ao lado de representações de dança, caça e rituais em torno de árvores. E tem de tudo: em dupla, a três, em grupo, com animais, em posições mirabolantes.

Segundo a arqueóloga paulista Niède Guidon, alguns achados da Serra da Capivara datam de 50 mil anos atrás, tese que contraria a teoria mais aceita sobre a chegada do homem à América pelo estreito de Behring, entre a Sibéria e o Alasca, há 13 mil anos.

Como não dá para dizer ao certo quando e como nossos antepassados trocavam carícias e fluidos, as esculturas, os desenhos, as pinturas e os utensílios são apenas pistas que os arqueólogos seguem para entender os primórdios da sexualidade humana. E aí as conclusões podem mudar de acordo com a interpretação do freguês.

Uma parte dos pesquisadores defende que as cenas de sexo são apenas artísticas, as representações dos genitais são objetos em homenagem a deuses da fertilidade e as várias estatuetas femininas são fruto de uma era em que as mulheres eram veneradas como a Mãe Terra. Isso explicaria o fato de aparecerem tão voluptuosas, porque estariam grávidas, prestes a dar à luz uma nova vida.

Por outro lado, existe quem alerte para esse tipo de interpretação, considerada moralista por alguns arqueólogos, como o americano Timothy Taylor. Para ele, vulvas destacadas, pênis cuidadosamente polidos e desenhos eróticos falam por si próprios, indicando que a pré-história do sexo era livre de monotonia. A Antiguidade também.

Sex in the City

Receber dinheiro em troca de sexo era uma atividade regulamentada em Roma e na Grécia antigas. Os preços eram controlados e os serviços, taxados para o pagamento de impostos. Há documentos mostrando que não só as mulheres se prostituíam, mas homens também, geralmente para o mesmo público-alvo: a clientela masculina. Na Grécia, existiam duas classes principais de prostituição. As pornais, que atendiam em bordéis ou nas ruas e eram escravas, pobres ou adolescentes rejeitadas pelos pais, e as hetaeras, cortesãs bem educadas que serviam de acompanhantes de homens da classe alta.

Em Roma, as profissionais do sexo também recebiam nomes diferentes de acordo com o lugar em que se exibiam e a classe social. As fornicatrices (do latim fornix, que significa arco), por exemplo, ficavam nas ruas sob arcos ou espaços abobadados. Mas havia um termo para definir todas elas: lupas (lobas), possivelmente uma alusão à loba que, na lenda da criação de Roma, amamentou os gêmeos Rômulo e Remo – Rômulo foi o fundador da cidade. Os bordéis romanos eram chamados de lupanares (casa das lobas). O mais famoso deles, com dez quartos e dois andares, é o de Pompeia, um dos sítios arqueológicos mais preservados do mundo.

Pompeia foi destruída com a erupção do vulcão Vesúvio em 79 d.C., que petrificou e manteve intactos vários objetos, obras de arte e até corpos de vítimas na posição em que morreram. As escavações revelaram esculturas, pinturas e desenhos considerados um tapa na cara da sociedade. Como as imagens de Príapo, deus greco-romano da fertilidade, representado com um falo gigantesco e sempre ereto. O termo priapismo, distúrbio em que a ereção se prolonga e causa dor, foi originado dele. A mitologia egípcia também tem um deus da fertilidade, Min, retratado com um pênis igualmente enorme e em riste.

Mas o objeto que mais arregalou os olhos foi a escultura em mármore de uma figura metade humana, metade bode penetrando uma cabra. Trata-se de Pã, deus grego da natureza associado a Fauno pelos romanos. Pã é responsável por multiplicar os rebanhos.

O culto aos deuses era comum entre os romanos. Só em Pompeia existiam quatro templos dedicados a eles e decorados com imagens que traduziam suas sagas no céu e na Terra.

Interpretações menos divinas mereceram as pinturas que adornavam as paredes dos lupanares, das casas de banho e, dizem os arqueólogos, de residências comuns. Essas mostram claramente duas, três ou quatro pessoas transando em posições variadas. Canecas e lamparinas enfeitadas com imagens eróticas, sinos de vento com falos pendurados e amuletos de pênis também despertaram interjeições de espanto. Sem contar as moedas de bronze que, de um lado, exibem um número – de I a XVI – e, de outro, uma cena de sexo explícito.

Essas fichas povoam o imaginário do homem moderno que habita laboratórios. Alguns dizem que eram usadas nos bordeis de acordo com o serviço que o cliente queria e o número do quarto em que ele receberia. Ou quem sabe o número gravado ali significava o preço pago pelo pedido. Outros acreditam que, da mesma forma que canecas com peitos, bundas e falos são apenas canecas – de gosto duvidoso, diga-se de passagem –, as moedas seriam souvenires decorativos.

Vários achados de Pompeia e da cidade vizinha Herculano vieram à tona no século 18. Foram considerados tão pornográficos que só saíram do porão para a exibição pública no ano 2000, no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles, onde elas se exibem, com discrição, até hoje. O acervo com 250 peças fica no reservado “Gabinete Secreto”. Quem quer visitá-lo precisa mencionar isso na hora de comprar o ticket na entrada do museu. O período máximo de permanência na sala é de 45 minutos e menores de 14 anos só entram com o acompanhamento dos pais ou professores.

Mas nem só de lupanaria vivia Roma. O amor romântico era celebrado nas palavras do mais famoso poeta da época, Ovídio, que viveu entre os séculos 1 a.C. e 1 d.C. Ovídio era bastante respeitado quando decidiu escrever uma trilogia chamada A Arte de Amar, um manual de sedução para homens e mulheres: “O amor é como a guerra. A covardia é inútil nos serviços do Amor. A noite, o inverno, as longas marchas, o sofrimento cruel, o trabalho árduo, todas essas coisas têm de ser suportadas por aqueles que lutam nas campanhas do Amor. Você precisa colocar o orgulho de lado. Se o acesso à sua amada for negado, se a porta dela se fechar contra você, suba pelo telhado e entre pela chaminé, ou pela claraboia. Como ela vai ficar encantada ao saber dos riscos que você correu por ela!”

Apesar das odes ao amor, a obra não foi bem recebida. O imperador Augusto, que governou entre 27 a.C. e 14 d.C., mandou o poeta para o exílio no ano 8 e, segundo sugerem relatos do próprio Ovídio, um dos motivos para esse triste desfecho pode ter sido uma de suas obras. Augusto queria restabelecer a moral romana e criou leis que incentivavam o casamento, a geração de filhos e a monogamia. A Arte de Amar seria um incentivo ao adultério.

Enquanto isso, do outro lado do Mediterrâneo…

Por baixo dos panos

Os egípcios acreditavam que o coração era o centro do corpo e da alma. E que dele partiam todas as veias rumo às extremidades. A principal delas terminava no dedo anular da mão esquerda, motivo que explicaria, na visão deles, o fato de o órgão ser deslocado para esse lado. Os casais deveriam usar naquele dedo um aro de metal para prender o coração do outro – e nós adotamos essa tradição também. O material do anel variava de acordo com as condições econômicas da família. O importante dessa história é que o círculo, que não tem começo nem fim, simboliza a eternidade. Portanto, a aliança é uma união para todo o sempre.

Existem poucos indícios de poligamia entre aquele povo, a não ser nos haréns dos faraós. O adultério era moralmente condenável para ambos os sexos. Só que nem todos os amores duravam para sempre. Há registros de divisão de bens e de divórcios pedidos por homens e mulheres, que tinham os mesmos direitos perante a lei, embora socialmente as esposas fossem submetidas às vontades do marido, e as solteiras, dos pais e dos irmãos.

Sobre os achados egípcios, não se conhecem muitos artefatos que escancaram a intimidade a dois, nem a três, nem a quatro. Os adornos e pinturas são mais simbólicos e fazem alusões à fertilidade e aos deuses. Por exemplo, naqueles tempos, havia a crença de que o sexo levava ao renascimento depois da morte. Como eles precisariam do corpo na vida eterna, há múmias com pênis ou mamilos de metal anexados, para que pudessem usá-los no além.

Não significa que o povo por lá só fizesse sexo para a procriação. Indicativo disso são as fórmulas contraceptivas encontradas no Papiro Ebers, um dos mais antigos tratados médicos preservados até os dias de hoje. O documento data de 1552 a.C. e reúne 700 registros de um conhecimento que pode ser ainda mais antigo. Estudiosos acreditam que o tratado tem compilações de práticas feitas desde 3000 a.C.

Outro papiro, o Kahun, foi elaborado em 1825 a.C e é um compêndio ginecológico de 34 parágrafos, dois deles dedicados a fórmulas para evitar a gravidez.Entre os ingredientes da geleia para aplicação íntima estava o mel, possivelmente eficiente porque reduziria a mobilidade dos espermatozoides, e o leite azedo, por liberar ácido lático, ingrediente que altera o pH da vagina e torna o ambiente nocivo às células sexuais masculinas. Sobre a eficácia das técnicas, não há nada comprovado.

Os primeiros testes de gravidez da história também podem ter sido invenções egípcias. Nos papiros estão documentadas práticas como a de urinar durante alguns dias sobre duas bolsinhas de tecido, uma contendo sementes de trigo e outra, de cevada. Se a de trigo germinasse, a mulher estava grávida de uma menina. Se a de cevada germinasse, era menino. Se nenhuma vingasse, ela não estava grávida, e se as duas fossem para a frente, haveria dúvida em relação ao sexo.

Trigo e cevada contêm fitoestrógenos, que atuam nos vegetais de forma semelhante aos hormônios sexuais humanos. Na gravidez, os níveis de estrogênio disparam. Pode ter aí uma relação entre a ação da substância encontrada em abundância na urina das gestantes e a germinação dos grãos. Sobre o sexo do bebê, segundo uma pesquisa da Universidade de Tel Aviv, em Israel, os níveis do hormônio HCG, produzido somente na gravidez e responsável pela elevação de estrogênio e progesterona no organismo, são em média 25% maiores na presença do feto feminino do que no masculino. Isso sugere que é possível existirem diferenças entre a composição bioquímica da urina das grávidas de meninos e de meninas. Agora, se isso faz brotar trigo em vez de cevada, a ciência ainda não investigou.

Mas voltando à sacanagem… Entre quatro paredes, o negócio esquentava. É o que se vê no papiro mais erótico encontrado na região até agora, pintado entre 1292 e 1075 a.C. e exposto em Turim, na Itália. O documento é conhecido desde 1822, mas só em 1970 teve o conteúdo principal divulgado: 12 cenas em que homens com membros enormes transam com mulheres em posições acrobáticas. O papiro ganhou o apelido de Kama Sutra egípcio. Mas é fichinha perto do famoso livro indiano.

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Como enlouquecer uma romana na cama

Os conselhos do poeta romano Ovídio para homens apaixonados se saírem bem na conquista.

1. Não forceis a barra se ela não tiver vontade
“O prazer que me é concedido por dever não me agrada; eu não quero que uma mulher me deva prazer. Quero ouvir palavras que traduzam a alegria que ela sente, me pedindo para ir mais devagar e me conter. Gosto de ver o olhar lânguido de uma amante que desfalece e que, esgotada,
não quer ser tocada por um bom tempo.”

2. Não vos apresseis
“Creia-me, não te apresses para atingir os limites do teu prazer. Aprendes a chegar ao objetivo gentilmente, com uma excitação progressiva.”

3. Aprendei, de uma vez por todas,
onde fica o clitóris
“Quando tiver encontrado o santuário da bem-aventurança, não deixes nenhum pudor tolo prender tua mão. E então verás a luz do amor trepidar nos olhos dela, assim como raios de sol brilhando em ondas dançantes. Depois se seguirão suaves gemidos misturados com murmúrios de amor, grunhidos e suspiros macios e palavras sussurradas que incitam o desejo.”

4, Não chegueis primeiro
“Tenha cuidado! Observai que, se aprofundar demais tua vela, deixarás para trás tua amada. Também não deixes que te tome a dianteira. Deveis alcançar juntos o prazer prometido. A plenitude da volúpia é quando, vencidos os dois, homem e mulher jazem extenuados.”

5. Apagai algumas luzes
“Não deixes que a luz inunde de todo teu quarto: há muitas partes do corpo que são favorecidas pela meia-luz.”

Este conteúdo foi originalmente publicado no Livro Proibido do Sexo: o amor, o prazer e a sacanagem, da jornalista Marcia Kedouk.