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Viva Afrodite!

Novas pesquisas revelam aquilo que durante muito tempo homens e mulheres não conseguiram - ou não quiseram - ver: o corpo feminino foi feito para o prazer

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h19 - Publicado em 30 set 2000, 22h00

Fábio Peixoto

Está no cinema, nos livros, na educação dos filhos, na postura dos homens escorados na esquina, no olhar das meninas no shopping: o homem é o motor sexual da espécie. A mulher vai a reboque. É masculino o instinto poligâmico de fecundar o maior número de fêmeas que puder e passar adiante os seus genes. É feminina a tendência monogâmica de escolher o melhor parceiro possível para gerar a prole de melhor qualidade. E depois segurar o seu macho no ninho, de modo a melhor proteger os filhos.

Essas premissas têm feito muito sentido e garantido há séculos uma determinada relação de força entre os sexos. Só que as muralhas de Jericó estão prestes a ruir. Uma série de descobertas sobre a sexualidade feminina estão questionando convicções há muito estabelecidas, como a idéia de que os homens gostam mais de sexo que as mulheres ou de que os hormônios masculinos são uma bênção enquanto que os femininos são uma desgraça. Hoje, sabe-se que o estrógeno, a poderosa substância acendedora da libido feminino, não é só coisa de menina – os homens também o têm no corpo e precisam dele para evitar doenças como a osteoporose.

Novas evidências sobre o clitóris e pesquisas de comportamento animal provaram que a mulher nasceu, sim, para ter prazer no sexo e que sua propagada vocação para a monogamia não passa de imposição cultural, sem nada a ver com sua programação natural.

O biólogo Tim Birkhead, da Universidade de Sheffield, Inglaterra, é um dos cientistas que estão se insurgindo contra Jericó. Ele acabou de lançar o livro Promiscuity (Promiscuidade), no qual analisa vários animais e conclui: as fêmeas da maioria das espécies – do gafanhoto ao chimpanzé – acasalam com vários machos. Entre os bonobos – os primatas mais parecidos com o homem – mais da metade da prole de uma mãe é composta de filhos que não foram concebidos pelo seu parceiro habitual. Isso implode o argumento de que as fêmeas são projetadas pela natureza para serem fiéis. Outro exemplo é o do caranguejo do gênero Ocypoda, habitante do litoral brasileiro. Os ocypodas machos produzem uma substância que endurece em contato com o ar. Essa argamassa é usada para bloquear o canal em que as fêmeas guardam o esperma recebido e impedir que outros parceiros a fecundem. Se as fêmeas fossem tão castas, por que o caranguejo ia se preocupar tanto? (Você está pensando no cinto de castidade? Bingo.) Depois da Idade Média, os machos humanos passaram a preferir táticas mais sutis para garantir que os seu genes – e não os dos outros – se propaguem. Criaram teorias científicas para convencê-las de que ter mais de um parceiro não é natural.

“A concepção de que só os homens são poligâmicos é o maior mito da sexualidade”, afirmou à Super a antropóloga Helen Fisher, da Universidade Rutgers, de Nova Jérsei, Estados Unidos. Em seu livro Anatomia do Amor, Helen estudou o comportamento sexual de homens e mulheres em 62 sociedades ao redor do planeta e concluiu que o adultério é tão comum entre nós quanto o casamento. É claro que muitas mulheres (e homens também) optam por ser fiéis. Mas isso é uma escolha, não uma imposição biológica. Em seu mais recente livro (The First Sex, lançado nos EUA no ano passado), Helen avança em suas conclusões, mostrando a face cultural de muitos axiomas tidos como naturais e sugerindo que a superação dos mitos vai guindar as mulheres, neste século, à condição de exercer papéis, inclusive sexuais, equivalentes aos dos homens – ou até de maior destaque.

Nos anos 60, as feministas saíram por aí gritando que homens e mulheres são iguais e, portanto, elas têm tanto direito ao prazer quanto eles. A tese feminista acerta na conclusão mas erra no argumento: homens e mulheres não são iguais. De fato, são totalmente diferentes na forma como lidam com sexo e desejo. Só que essas diferenças não proclamam a supremacia masculina. Ao contrário: a mulher tem mecanismos de prazer até mais sofisticados que os dos homens.

“A sexualidade da mulher tem foco amplo. Inclui romance, lençóis bonitos, dançar, jantar, perfumes. A do homem é concentrada no orgasmo”, diz Helen, a mais destacada autora deste movimento “pós-feminista”, que baseia seus argumentos em pesquisas científicas. O desejo dos homens seria mais constante; o das mulheres, mais intenso. O que desmonta a tese de que a busca do prazer seja assunto exclusivamente masculino. Se fosse assim, como explicar que são as mulheres, e não os homens, que têm um órgão exclusivamente planejado para o deleite sexual?

O clitóris, para quem não conhece, é uma pequena protuberância localizada na junção superior dos pequenos lábios da vulva. Ele tem 8 000 fibras nervosas – uma concentração maior do que em qualquer outro lugar do corpo (o pênis tem metade disso). Mas dissemos “pequena” protuberância? Não é bem assim. Em 1998, a ginecologista australiana Helen O’Connell, do Hospital Real de Melbourne, Austrália, descobriu que o clitóris é bem maior do que imaginava a mais raçuda e aguerrida feminista. Ele mede até 9 centímetros (veja infográfico à esquerda).

A pesquisa sobre o orgasmo feminino também sofreu com muitos anos de confusão e conclusões apressadas. O pensador grego Galeno defendia, no século II, a tese de que as mulheres precisavam ter orgasmo para engravidar. Essa idéia, que permaneceu viva até o século XVIII, poderia servir para valorizar o prazer feminino: quem quisesse ter um filho teria que proporcionar o clímax à parceira. Mas na prática não foi bem assim. As mulheres continuaram a ter filhos sem sentir prazer e aquelas que tinham a desventura de engravidar após um estupro eram acusadas de devassidão – a gravidez funcionava como um sinal de que elas haviam gostado de ser violentadas. Muitas foram condenadas à morte por causa disso.

Apesar do engano fatal de Galeno, atualmente os médicos estão encontrando evidências de que o orgasmo, se não é necessário para engravidar, pode facilitar a fecundação. Indício disso é a movimentação do colo do útero durante o êxtase, que “sugaria” o sêmen depositado na vagina para dentro de si. Dois pesquisadores britânicos, Robin Baker e Mark Bellis, filmaram recentemente esse fenômeno graças a uma microcâmera colocada na ponta de um pênis.

A curiosa pesquisa de Baker e Bellis prova que o orgasmo feminino é fundamental para a reprodução. Segundo eles, por exemplo, é mais fácil uma mulher engravidar do amante do que do marido porque a relação extraconjugal teria dois ingredientes em falta no lar: paixão e prazer. Ou seja, o fato de o homem chegar ao clímax sempre do mesmo jeito e a mulher dispor de um imenso repertório de orgasmos não é casual. A capacidade de ter prazer do corpo feminino existe porque tem uma função. A evolução não costuma dar ponto sem nó.

Os mecanismos do orgasmo feminino são tão complicados que os médicos ainda estão longe de entendê-los. Exemplo: ninguém conseguiu arrumar uma boa explicação para o fato de haver orgasmos clitorianos e vaginais. Freud difundiu a idéia de que o êxtase atingido a partir da estimulação direta do clitóris seria imaturo, comparado ao obtido com a penetração. Hoje ninguém mais classifica o clímax por ordem de maturidade, mas as mulheres garantem que há uma diferença. Difícil de entender, já que não foi identificado nenhum motivo orgânico para isso. “Ambos os estímulos passam pela mesma rede nervosa”, diz Angelo Monesi, psicólogo do Instituto Paulista de Sexualidade. Segundo ele, só 30% das mulheres são capazes de ter orgasmo dos dois jeitos. Mas o psicólogo ressalta que esse não é um sonho impossível – tudo depende de estímulos adequados e, acima de tudo, do estado emocional e psicológico.

A variedade orgástica feminina não pára aí. Há também os orgasmos múltiplos – algo que homem nenhum, por mais sensível, vai conseguir compreender. Quanto mais, sentir. Na verdade, existem dois tipos de orgasmos múltiplos. Um é o multiorgasmo, no qual a mulher consegue emendar rapidamente cada clímax em uma nova fase de excitação e, assim, ter três ou quatro orgasmos seguidos. Mas, sorte mesmo, têm as poliorgásticas. Essas felizardas têm um êxtase depois do outro, sem precisar de novas fases de excitação, porque se mantêm num platô de tensão sexual por muito tempo. Todas as mulheres têm a possibilidade de ter um multiorgasmo, mas poucas provam um poliorgasmo, que depende de características inatas.

Tecnicamente, o orgasmo feminino é um reflexo do corpo, que se manifesta por contrações vaginais. Ele é resultado de uma combinação complexa de estímulos. “Podem ser visuais, imaginários, clitorianos, táteis…”, diz Sônia Penteado, ginecologista da Universidade de São Paulo. Algumas vezes o desejo sexual se reduz por motivos orgânicos, como um tumor na hipófise, que passa a produzir em excesso a prolactina, hormônio inibidor da libido (responsável pela perda de apetite sexual durante a amamentação). Mas esse tipo de problema é raríssimo. Poucas mulheres são fisicamente incapazes de ter orgasmo. Tal incapacidade em geral é fruto de condições psicológicas, como traumas decorrentes de um abuso sexual, de uma educação rígida ou de opressão social e religiosa. Acredita-se que 14% das mulheres são incapazes de ter orgasmo – 6% delas têm algum problema mas já experimentaram essa sensação e 8% jamais vão saber do que se trata.

Mas se as mulheres estão mais sujeitas que os homens aos obstáculos emocionais que atrapalham o sexo, seu sofisticado mecanismo de prazer é de fazer inveja a qualquer varão. A mente feminina tanto pode bloquear o prazer quanto produzi-lo. “Há casos de mulheres que chegam ao orgasmo só com o pensamento”, diz Sônia. As moças dão uma surra nos homens no quesito fantasia sexual. Elas tendem a ser bem melhores na hora de manifestar seu desejo. “A mulher faz curso de sexualidade, de dança do ventre, de strip-tease… O homem só está preocupado em se manter firme”, diz Monesi.

Essa sutileza psicológica feminina impede soluções fisiológicas simples àquelas que sofrem de distúrbios sexuais. Na maioria dos casos, as dificuldades das mulheres não estão na excitação, mas na fase anterior: o desejo, algo puramente emocional. “Por isso não há grande vantagem em criar um Viagra para mulher”, diz Sônia. É que o medicamento atua na irrigação sangüínea e não no desejo. Testes recentes mostraram que a pílula azul não tem efeito significativo sobre o prazer da mulher. Não que o sangue não seja importante para elas: um homem, para ter uma ereção, precisa de 100 ml de sangue. Já a mulher usa quase 1 litro para a lubrificação vaginal e o intumescimento do clitóris e dos grandes e pequenos lábios. Mesmo assim, na menopausa, quando a eficiência da circulação pélvica cai bastante, muitas mulheres não perdem a capacidade de sentir prazer, o que indica o quanto a mente é importante na libido feminina.

Aliás, a menopausa é outro tópico que vem sofrendo revisões. No reino animal, as fêmeas em idade avançada morrem após perder a fertilidade – a evolução é impiedosa com quem não contribui para a perpetuação da espécie. Não é assim com os humanos. Por quê? Recentemente, alguns antropólogos físicos sugeriram que as fêmeas de nossa espécie vivem décadas produtivas após a menopausa pois há milênios isso serviria para manter a taxa de natalidade alta. Nos bandos primitivos, as avós ajudavam a alimentar os netos, o que permitia a suas filhas amamentar por menos tempo e ter outras crianças mais rápido.

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Um homem rancoroso poderia argumentar que a exuberância sexual da mulher é compensada pela tensão pré-menstrual, a famigerada TPM. Muitas mulheres foram queimadas como bruxas na Idade Média por causa da ignorância sobre o assunto. Supunha-se que as atitudes agressivas que iam e vinham eram fruto de possessão demoníaca. Hoje, a fogueira foi substituída por remédios ou implantes hormonais subcutâneos. “Algumas mulheres têm uma irritabilidade tão grande que é necessário medicar”, diz Helena Hachul, ginecologista da Universidade Federal de São Paulo. Também em relação à TPM, os cientistas estão descobrindo que as coisas não funcionam do modo como se imaginava. Pesquisas recentes mostram que nem todas as mulheres sofrem com ela: algumas afirmam ter maior clareza intelectual e desejo sexual nesse período. “A descarga hormonal pode aguçar a competitividade”, afirma Sônia. Ou seja: as mulheres perceberam que a TPM traz coisas boas – não é apenas um momento de fragilidade.

Cada vez mais os cientistas entendem como o desejo se manifesta nas mulheres, o que é ótimo. Para elas, porque ter consciência das potencialidades do próprio corpo é um grande passo para sentir mais prazer e ser mais feliz. Para os homens, bem, para os homens porque a possibilidade de o horizonte deste século estar repleto de mulheres bem-resolvidas, desejosas e felizes é uma grande notícia.

Para saber mais

Na livraria: Anatomia do Amor

Helen Fisher, Editora Eureka, 1995

The First Sex

Helen Fisher, Random House, Estados Unidos, 1999

Mulher – Uma Geografia Íntima

Natalie Angier, Rocco, Rio de Janeiro, 2000

Na Internet: Instituto Paulista de Sexualidade

sites.uol.com.br/inpasex

fpeixoto@abril.com.br

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