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A “bomba do bem” e a volta do fantasma nuclear

As potências nucleares nunca entraram em guerra uma contra a outra por medo de retaliação. Esse equilíbrio, porém, está com os dias contados

“Com o sucesso de nossa histórica bomba de hidrogênio, entramos no grupo dos Estados nucleares avançados”, anunciava a TV estatal da Coreia do Norte, após um terremoto atípico provocado pela explosão. No mesmo 6 de janeiro, o Conselho de Segurança da ONU se reunia. E, no dia 26, batiam os três minutos para a meia-noite no Relógio do Juízo Final – índice de risco de catástrofe publicado no Bulletin of the Atomic Scientists, lançado em 1945 pelos criadores da primeira bomba nuclear. A única vez em que o mundo esteve mais próximo de seu fim foi em 1953, quando a URSS testou sua bomba H, e o Relógio do Juízo Final bateu em dois para a meia-noite, momento que, pela lógica do Bulletin, marcaria o início de uma catástrofe nuclear.

A Coreia do Norte faz seus barulhos, mas trata-se apenas de mais uma entre várias ameaças nucleares apontadas pelo Bulletin – e nem é a maior. Os EUA iniciaram um projeto ainda mais preocupante: a repaginação de todo o seu arsenal nuclear. Nas próximas três décadas, o país deve torrar um montante estimado em até um trilhão de dólares com novos bombardeiros invisíveis, submarinos, mísseis de cruzeiro, bombas táticas guiadas, laboratórios e fábricas, além da renovação das próprias ogivas. O risco desse programa não é apenas uma ressurreição da corrida tecnológica entre as potências nucleares. A verdade é que ele pode mudar completamente a forma como as potências avaliam o risco de serem atacadas – e também a oportunidade de atacarem.

A intenção, a princípio, parece racional. A ideia seria criar bombas nucleares “humanitárias”. Em vez de produzir explosões mais potentes, elas teriam precisão cirúrgica, com potência ajustável, de modo a causar o grau de destruição necessário a cada missão. E, assim, destruiriam apenas o alvo desejado e reduziriam “efeitos colaterais”. “Minimizar mortes de civis”, diz o ex-subsecretário de Defesa americano, James Miller, “é uma abordagem mais ética”.

Muitos discordam. O perigo desse pensamento aparentemente humanitário está em encontrar usos triviais para uma arma nada convencional. Uma arma extremamente precisa e de potência ajustável é uma tentação para comandantes militares. Afinal, ela oferece o efeito desejado de um ataque nuclear (como aniquilar imediatamente instalações militares) sem produzir os “efeitos colaterais” de uma segunda Hiroshima.

Não foi por bondade que as potências nucleares jamais se atacaram. Essa relativa paz está na ideia de “destruição mútua assegurada” – mais conhecida pela arguta sigla inglesa MAD. Se uma potência atacar outra com uma bomba nuclear, mesmo que de poder reduzido, essa outra retaliará com mais força. Isso provocaria uma espiral de agressão com armas de destruição em massa que acabaria por dizimar ambos os lados. Ironicamente, as bombas nucleares tornaram-se armas para jamais serem usadas. Um “seguro” contra agressões que usa como garantia a própria sobrevivência. Pode não ser a forma mais bonita de evitar confrontos entre cachorros grandes. Mas é a que tem funcionado há 70 anos, desde o fim da 2ª Guerra Mundial.

Agora, porém, podemos estar próximos de perder esse seguro. Porque, claro: as bombas “humanitárias” voltam a tornar o impensável pensável. Elas simplesmente baixam o limiar para uma hecatombe.

A ideia de banalizar as armas nucleares fora rechaçada por Reagan e Gorbachev. Agora ela está de volta. Para valer.

 

O primeiro teste com uma delas aconteceu recentemente no deserto de Nevada. Era o novo modelo da B61, uma bomba nuclear feita para ser lançada de aviões. Com barbatanas móveis, computador interno e ajuste de potência destrutiva. Quando ajustada ao mínimo, tem apenas 2% da potência da bomba de Hiroshima – o que pode tornar seu uso tentador, dependendo de quem estiver no comando de uma operação.

A arma mais desestabilizadora do programa, porém, é outra: o míssil nuclear de cruzeiro. Lançado por ar, terra ou mar, ele funciona como um drone a jato, capaz de levar um explosivo até um alvo distante, voando baixo para despistar satélites e radares.

Só tem um problema. Numa estratégia de dissuasão nuclear, é necessário que os lados num potencial conflito estimem as ações e as intenções do adversário. Hoje, os cálculos são possíveis, porque o mero lançamento de míssil intercontinental, facilmente detectável, já causaria retaliação nuclear do outro lado. Logo, ninguém lança.

Com os mísseis nucleares de cruzeiro, não tem dessa. Eles acabam com qualquer previsibilidade, já que podem ser confundidos com mísseis convencionais. Se um país lançar um míssil de cruzeiro contra um rival, este não terá como saber se ele contém explosivos convencionais ou uma ogiva nuclear. Se reagir conforme o pior cenário, iniciará uma guerra nuclear. A bomba deixa de ser um “seguro” e volta a se tornar uma arma de fato, com todo o potencial apocalíptico contido ali. E essa tese não é nossa. Reagan, Gorbachev e Bush Pai já haviam deixado de lado a ideia de usar mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares, por considerarem algo desestabilizador.

Obama, teoricamente o mais pacífico desse clube, deixou claro que não pensa dessa forma: os EUA pretendem produzir mais de mil peças para serem armadas com ogiva nuclear.

Parece irônico hoje que Obama tenha recebido o Nobel da Paz no seu primeiro ano como presidente. De fato, ele e seu então colega Medvedev assinaram, em 2010, um tratado de cortar seus arsenais nucleares para “apenas” 1.550 ogivas de cada lado. Ainda é muito, mas, para você ter uma ideia, só a URSS chegou a ter 45 mil ogivas em 1986. Só que objetivos assim dependem de um ambiente político favorável, e, hoje, as relações entre Washington e Moscou estão é próximas de uma nova Guerra Fria.

Pior. Some o novo arsenal dos EUA ao plano do sucessor de Obama, Donald Trump, de fazer com que seu país “volte a ser respeitado” à base de tiro, porrada e bomba, e temos uma mistura explosiva, capaz de fazer este mundo instável descambar numa 3ª Guerra Mundial. Terceira e, provavelmente, última.