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E se dividissem o Brasil em Norte e Sul?

Foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que imaginamos como seria se o Brasil virasse dois países. Mas do nosso jeito. Neste "E Se...", a separação é cruel para um famoso casal de Brasília: Eduardo e Mônica

Dizem que os opostos se atraem. E aqueles dois não poderiam ser mais opostos.

Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud. Já ele gostava de novela e jogava futebol de botão com seu avô.

Em comum, um desejo: sair de Brasília, ao menos por um tempo. Respirar novos ares.

“Não aguento mais isso aqui. Sempre as mesmas pessoas, os mesmos papos. E tem tanta coisa diferente para ver por aí. A Amazônia, cara! Não entendo esse pessoal que viaja para Miami e nunca foi a Manaus, a Belém…”, desabafou Mônica entre um gole e outro de conhaque, quando eles se conheceram.

“Não conheço o Brasil muito bem”, admitiu Eduardo, com um sorriso tímido. “Mas pensei nisso quando visitei o Minimundo lá em Gramado, na Serra Gaúcha. Conhece? É um parque com miniaturas, maquetes de atrações de vários países!”

“Mundo, mundo, vasto mundo…”, declamou a moça.

“Mais vasto é o meu coração”, completou o rapaz.

Agarraram-se ali mesmo.

Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato… Mas nada de viajar. Primeiro porque ela precisava terminar o curso de medicina. Depois o avô dele ficou doente. Aí a Mônica engravidou – de gêmeos. A grana ficou apertada, passaram por uma crise. Mas aos poucos tudo voltou aos eixos e nenhum deles sequer se lembrava daquela ideia de mudar de cidade.

Até que mais uma eleição presidencial rachou a nação. Foi quando vieram as manifestações, o plebiscito e a bomba: o Brasil ia se dividir em dois. E cada um dos quase-ex-brasileiros deveria informar de qual país seria agora cidadão: Brasil do Sul ou Brasil do Norte. Com a divisão territorial, uma capital no Planalto Central deixava de ter sentido, o Distrito Federal seria extinto. Brasília seria uma cidade-fantasma. E goiana.

Eduardo tinha a impressão de ter sido atropelado por um ônibus. Nunca gostou de política e tinha acompanhado o desenrolar do plebiscito com ceticismo. Separatismo no Brasil? Nunca. Jamais.

“Como isso aconteceu? Que tristeza”, murmurou, folheando o jornal.

“Tristeza? Eduardo, você não vê? É a nossa chance. O empurrão que faltava para termos a vida dos sonhos!”

Mônica estava radiante, como quando falava de magia e meditação, lá no começo do namoro. O conhaque, a festa estranha, o beijo… O Minimundo. Eduardo sentiu o coração bater mais forte. Mônica estava certa! Sim, ele gostaria de morar na Serra Gaúcha. Ou de experimentar a vida frenética de São Paulo. Melhor ainda: ci-da-de ma-ra-vi-lho-sa. Se bem que ele não sabia com quem tinha ficado o Rio de Janeiro.

“Eduardo, preste atenção. Vai ser incrível! Pense só! Bahia! Pernambuco! Amazônia!”

“Como assim?”

Ele tinha seus argumentos: no Sul estava a maior parte do PIB, a melhor infraestrutura, o agronegócio, a bacia do pré-sal e – enquanto Mônica não o corrigisse ¿ o Rio de Janeiro estava no Sul.

“Temos que pensar nos meninos: onde estão as melhores escolas e universidades?”, ele concluiu.

Mônica rebateu: no Norte era onde o PIB mais crescia, onde os produtos para exportação eram mais competitivos e o turismo poderia sustentar uma grande parcela da população.

“Vamos fazer um exercício de futurologia, Eduardo. Todas as indústrias do Sul vindo para cá, exploração de minério rendendo por gerações, biotecnologia bombando na Amazônia, tudo isso pagando por estradas e aeroportos novinhos em folha. Sem falar nas praias paradisíacas.”

Eduardo, que tinha um pé na hipocondria, desenhou outro cenário: se alguém adoecesse, teriam que ir a outro país para conseguir atendimento de ponta.

“Preciso te lembrar que eu sou médica, Eduardo? Tenho que ir aonde a população mais precisa!”

Em pouco tempo, a conversa virou bate-boca, com direito a acusações de coxinha, petralha, reaça e comuna, fotos rasgadas e bloqueio no Facebook.

De manhã, Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram. Enquanto Mônica tomava um conhaque no outro canto da cidade.

Alguns amigos acham que, assim como o Brasil, eles também vão se separar. Mas todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.