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Eu, Ecossistema

Os ambientes - e osseres vivos - que estãodentro de você

Mauro Tracco

Não estamos sozinhos. Aliás, longe disso. Cerca de 100 trilhões de bactérias de 500 espécies diferentes habitam neste momento o seu corpo, por mais saudável que você seja. Levando em consideração que somos formados por aproximadamente 10 trilhões de células, pode-se dizer que somos minoria em nosso próprio corpo: são dez seres unicelulares estranhos para cada célula humana. “Essas populações constituem as chamadas floras normais de nossos órgãos”, diz Antonio Pignatari, diretor do laboratório especial de microbiologia clínica da Universidade Federal de São Paulo. É como se você fosse uma biosfera. Alguns lugares – cérebro e ossos, por exemplo – são como desertos, desprovidos de bactérias a não ser em caso de infecções. Já outros órgãos são ambientes tão férteis que vão sendo ocupados por comunidades de bactérias desde a hora em que você nasce. Em uma situação normal, esses invasores não fazem nada e até nos auxiliam ao ocupar o espaço que poderia ser explorado por parasitas nocivos. No entanto, qualquer “desequilíbrio ecológico” dentro de você pode trazer problemas. Veja abaixo a lista das principais bactérias que também são você, onde elas vivem e o que têm feito para dar uma mão nessa história de sobrevivência.

 

1. Boca

Tem uma população constante que cresce à medida que a comida se acumula e decresce cada vez que se cuida da higiene bucal. O desequilíbrio: pare de escovar os dentes, deixe que o lugar junte bastante alimento e rapidamente as colônias de bactérias vão se desenvolver. Se forem as anaeróbias, vão resultar em mau hálito. Se forem Streptococcus mutans (à esquerda), está aberta a porta para que os dentes se tornem cariados.

 

2. Garganta

Lugar difícil de viver. A comida passa direto e não deixa quase nenhum nutriente. Os principais habitantes são pequenas comunidades de bactérias oportunistas que esperam qualquer fraqueza do organismo para sair dali e iniciar uma infecção. As mais perigosas: Streptococcus pyogenes (ao lado, responsável pela amidalite), pneumococo (que pode migrar para o pulmão e causar pneumonia) e meningococo (que pode ir para o cérebro e provocar meningite).

 

3. Estômago

Ambiente extremamente ácido. Os únicos organismos que agüentam ficar pacificamente ali são os famosos lactobacilos vivos (à esquerda). De lá eles se dirigem ao intestino e vão acidificando o caminho, ocupando o espaço que poderia ser explorado por bactérias nocivas. Há ainda outras vantagens: a acidez que eles causam facilita a absorção de minerais e vitaminas.

 

4. Intestino

Não é surpresa que o órgão onde os alimentos se decompõem seja o recordista de bactérias no nosso corpo. São tantas espécies que algumas até se tornaram essenciais: o B. longum auxilia a reter nitrogênio para a síntese de proteínas e os bacteróides transformam restos de alimento em vitamina K, importante para a coagulação do sangue. Eles convivem com o E. coli (ao lado), usado como “termômetro” do nível de poluição da água (são os tais coliformes fecais).

 

5. Vagina

O único ambiente do corpo humano em que a população muda periodicamente, de acordo com o ciclo menstrual. Normalmente, a única alteração na paisagem é o aumento ou a diminuição do número de bacilos de doderllein (ao lado), que mantêm a acidez da região. Se a quantidade deles cai muito, o ambiente fica mais alcalino e pode ser invadido por bactérias problemáticas como a Gardenerella, que causa odor, e leveduras como a Candida albicans, responsável pela candidíase.

 

6. Pele

Três espéceis convivem em harmonia na superfície humana, impedindo que espécies virulentas se instalem. O problema é quando saem daí. As bactérias da pele são as que mais costumam invadir outros orgãos e causar infecções. Aplique injeções, corte ou até coce a pele e você corre o risco de transportar essa flora para outras regiões do corpo, colocando um dos amados ambiente de seu corpo em perigo. O Staphylococcus aureus (ao lado), por exemplo, pode intoxicar.