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O Golfo em chamas

A grande tragédia ecológica deflagrada pelo incêndio dos poços de petróleo do Kuwait.

Em permanente operação, a uma altitude entre 300 e 30 000 quilômetros, uma dúzia de satélites de diversos tipos e habilidades constituiu uma força formidável, talvez imprescindível para a recente vitória dos Estados Unidos na guerra contra o Iraque. Mas o fim das hostilidades no campo de batalha não levou à desmobilização da frota espacial: ela agora está engajada no igualmente importante combate ao fogo nos poços de petróleo do Kuwait—mais de meio milhar de poços, incendiados pelo líder iraquiano, Saddam Hussein. A pronta ação dos satélites ajuda a fechar essas feridas flamejantes e antecipa as seqüelas que, com certeza, deixarão sobre a face da Terra. Antes mesmo que a guerra terminasse, os sensores térmicos do satélite Landsat passaram a registrar os incêndios, medindo a intensidade do calor e identificando os poços onde as chamas estavam ou não sob controle. Assim, foi possível concentrar esforços sobre os casos mais sinistros e apagar, até o final de julho, 175 incêndios.

Inicialmente, muitos pesquisadores recearam que a fumaça dos incêndios alcançasse a estratosfera, acima de 10 000 metros de altura, formando uma sombra colossal capaz de diminuir a temperatura do mundo. Aparentemente, os temores eram exagerados: os rolos de fumaça — que se estendem por cerca de 1 300 quilômetros, como de Belo Horizonte a Florianópolis — não subiram o suficiente para afetar o clima da Terra. Mas as conseqüências locais das queimadas são de tal ordem que parece não haver exagero no veredicto do geólogo egípcio Farouk El-Baz: “É a mãe de todos os desastres ambientais”.

Diretor do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, El-Baz vem monitorando os efeitos do fogo no Golfo Pérsico por intermédio das imagens capturadas pelos satélites americanos Landsat, NOAA 10 e NOAA 11, e o europeu Meteosat. “Os estragos na região excedem de longe tudo que eu poderia imaginar”, lamenta o cientista. Os desertos, por exemplo, estão ficando cobertos de petróleo e fuligem. “O Kuwait foi pintado de preto”, diz Larry Radke, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos Estados Unidos. Ainda assim, os níveis de dióxido de enxofre, que causa a chuva ácida, estavam abaixo do esperado.

As imagens de satélite servem também para analisar o deslocamento das manchas de óleo no golfo rumo à costa da Arábia Saudita. Embora não tenham ficado entupidas as instalações de dessalinização, das quais depende parte do suprimento de água potável do país, a água oleosa armazenada em gigantescas piscinas escavadas na areia pode se transformar numa bomba-relógio ecológica, ao infiltrar-se e contaminar os lençóis subterrâneos.

A desolação atinge com força aqueles que enfrentam as chamas de perto, como William Reilly, dirigente da agência de proteção ambiental dos Estados Unidos, EPA. “Se o inferno tivesse um parque nacional, seria aqui”, desabafou. Ao descer de seu helicóptero junto a uma dezena de incêndios particularmente violentos, há alguns meses, Reilly tinha em mente uma preocupação vital: saber se a fumaça afetaria as monções indianas — ventos que sopram entre maio e setembro e trazem umidade do mar para os campos de cultivo no continente. O problema é que, em tempos normais, a terra acumula radiação solar mais rapidamente que a água e isso aquece e faz subir grandes massas de ar sobre o continente. Como conseqüência, cria-se um fluxo de ar relativamente frio do oceano em direção à terra—os ventos das monções.

Se a Índia fosse coberta pela fumaça, receberia menos calor do Sol, e a diferença de temperatura entre a terra e o mar poderia não ser suficiente para gerar os ventos. As mais recentes análises mostram que, em vista da baixa altitude das plumas de fumaça, essa hipótese é improvável. Apenas 0,3% dos gases e partículas resultantes da queima de petróleo chegaram, até agora, à estratosfera, afirma Klau Hasselmann, do Instituto de Meteorologia Max Planck, de Hamburgo, Alemanha. Algumas plumas erguem-se até 7 quilômetros de altura, é verdade, mas a maior parte está confinada em uma camada atmosférica de 3 a 5 quilômetros de altitude.

Além disso, as partículas de fuligem estão sofrendo um processo que o americano Christopher Velden, da Universidade de Wisconsin em Madison, chama de “autoprecipitação”. Isso significa que, ao contrário do que se imaginava, elas aglutinam água e aceleram a formação de gotas, retornando à terra arrastadas pela chuva. O retorno se dá em limite de tempo considerado bastante curto: de sete a dez dias, diz Radke. Ele e mais 25 cientistas vêm complementando as informações recebidas do espaço com ajuda de aviões, e acabaram descobrindo diversos fatos inesperados, como o de que as plumas não são inteiramente negras. A fumaça contém também partículas brancas e cinza, que caem mais rapidamente para o solo, em comparação com as negras.

Outra novidade são as medidas das correntes de ar no topo das plumas, cujo efeito principal é empurrar a fumaça no sentido horizontal, reduzindo seu impulso para cima. Avaliado no final do inverno, é possível que esse fenômeno positivo esmoreça no verão e abra caminho para a ascensão das plumas. Na dúvida, prossegue o monitoramento cuidadoso do problema. O mesmo vale para o estudo químico das partículas. Muito sujo, contaminado por metais pesados, como chumbo, e até 3% de enxofre, o petróleo kuwaitiano deveria gerar resíduos ácidos e tóxicos . A combustão, no entanto, parece estar sendo imperfeita: a parte do petróleo que não queimou encontra- se na forma de microgotas, espalhadas entre as partículas de fumaça.

Assim se explicaria a pequena quantidade de óxidos de enxofre detectada até agora por Radke e seus colegas. “A poluição por enxofre no golfo não excede os níveis normais de uma grande área urbana”, diz o cientista. Tudo somado, as conclusões dos cientistas são tranqüilizadoras e, de quebra, ensinam muita coisa sobre os fenômenos ambientais. Mas, naturalmente, não tornam o desastre menos condenável, como resume o especialista Robert Chase, da empresa americana Analytic Sciences. “Tanto do ponto de vista ecológico como ambiental, acredito que os incêndios no golfo constituem uma das grandes tragédias do século XX.”.

 

 

 

 

Para saber mais:

O mundo sem petróleo

(SUPER número 6, ano 7)