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Por que sou contra Belo Monte

Em entrevista, o cacique Raoni fala sobre a ligação dos índios com a terra e sua luta contra a construção da usina de Belo Monte - que deve afetar o território de 12 tribos

Carol Castro

Nos anos 1990, o cacique Raoni, da tribo dos Caiapós, fez barulho internacional e pôs fim à construção da barragem de Kararaô, no Pará. Quase 20 anos depois, rebatizada como Belo Monte, as obras começam a acontecer. Com dificuldades no português, o cacique fala sobre a ligação dos índios com a terra e a luta contra a construção da usina – que deve afetar o território de 12 tribos.

Qual é a principal dificuldade para uma tribo quando ela é obrigada a migrar para outro lugar?
É muito difícil o índio viver em outra terra. Ele está acostumado a viver no lugar onde os parentes, os avós, os bisavós ocuparam. É onde está o cemitério da família. Ele gosta de ficar onde os parentes antigos ficaram, onde estão enterrados. E tem a questão da comida: eles estão acostumados com aquela área, aquela floresta, onde tem tudo. Tem caça, tem pesca, tem frutas [os índios da região de Belo Monte ainda dependem de caça e colheita para sobreviver]. Quando são levados para outro lugar, não se acostumam.

Você já acompanhou a história de alguma tribo que precisou mudar de lugar e não se adaptou ao novo território?
Aconteceu com os Panarás, Tapayunas, Kaiabis – todas do Mato Grosso. Eles não se acostumaram com outros matos. A tribo Panará ficava no rio Peixoto. Quando o governo abriu a estrada de Cuiabá a Santarém, passou no meio da terra deles e eles ficaram sem nada. A Funai os levou para o Parque do Xingu, onde viveram por 20 anos. Mas não conseguiram se adaptar muito bem, não era a terra deles. Depois de 20 anos de luta, conseguiram arranjar outra terra perto do rio Peixoto, aí voltaram para lá. Ou seja, não ficaram bem na nova terra. Tem também os Tapayunas, que eram do rio Juruena, mas perderam as terras de lá. Quando fizeram contato com os brancos, a tribo quase acabou, morreu [os invasores os alimentaram com carne envenenada]. Os poucos sobreviventes foram levados depois para o Parque do Xingu. Todos esses grupos indígenas precisaram ser transferidos para um lugar que não era a terra de tradição deles. Alguns aceitam, outros não e tentam voltar para a terra, mas já não tem mais floresta. Acabou o lugar onde ele viviam, os fazendeiros derrubam todo o mato. Se acontecer de novo e inundar Belo Monte, para onde eles vão? Onde que ainda restam florestas e terras desocupadas?

E nem todos os índios são contra a construção da usina, certo? Sabe quais são as reivindicações deles?
A maioria dos indígenas perto da barragem é contra a construção da usina. Segundo informação que tive, a maioria é contra. É a minoria que aceita negociar com o governo. Mas não sei o que eles querem em troca. [De acordo com o Instituto Raoni, as tribos fizeram uma lista de pedidos, com cabeças de gados, ambulâncias, barcos, micro-ônibus, tratores, torres de telefonia celular e internet, e indenizações perpétuas. Mas o cacique não endossa os pedidos].

Os índios ainda acreditam que as obras podem parar?
Eles precisam continuar lutando contra a construção da barragem. Nós aqui vamos ajudá-los nessa luta. Eles lá, nós aqui. Tem tempo que estamos nessa briga e não vamos parar, não queremos parar. Não dá para desistir.

Imagem: WikimediaCommons