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Tudo embaixo d¿água

A maior represa hidrelétrica do mundo está sendo construída na China. Vai inundar 160 cidades e vilas e desalojar 1,3 milhão de habitantes. Um dilúvio controlado.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 19h00 - Publicado em 31 ago 1998, 22h00

Carlos Tautz

Desde a construção da Grande Muralha, há 2 500 anos, os chineses não faziam nada parecido. No Rio Yang-tsé, o maior da China, está sendo construída uma represa que, quando ficar pronta, em 2009, levará da usina binacional de Itaipu, brasileira e paraguaia, o título de maior do mundo. A hidrelétrica de Três Gargantas aumentará em 10% a produção de eletricidade do país e transformará o rio numa grande hidrovia, possibilitando o controle das enchentes que, neste século, já mataram 200 000 pessoas. Mas seu impacto ambiental será devastador.

O lago formado pela represa terá 1 084 quilômetros quadrados. Não é muito diante da hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, que, em 1975, inundou 4 214 quilômetros quadrados e desalojou 70 000 brasileiros. Só que a China é muito mais povoada: 160 vilas e cidades, como Fengdu, de 65 000 habitantes, serão afogadas, obrigando a remoção de mais de 1,3 milhão. Assim como Itaipu acabou com Sete Quedas, no Rio Paraná, a represa destruirá sítios arqueológicos e históricos de valor incalculável. E afogará uma das paisagens mais belas do planeta, um conjunto de três magníficos cânions, ou gargantas, do Yang-tsé – que dá nome à usina. Com um custo desses, a obra desperta controvérsia no mundo todo.

Tesouros arqueológicos inundados

A idéia de aproveitar o potencial do Rio Yang-tsé, o quinto maior do mundo, habita os sonhos de todos governantes chineses desde o século XIX. Mas só em 1994 foi que o primeiro-ministro Li Peng lançou a pedra fundamental da obra, a maior do planeta na virada do milênio. É um projeto caríssimo, em todos os sentidos – financeiro, humano e ambiental. O orçamento oficial é de 25 bilhões de dólares, mas o custo final poderá chegar a 75 bilhões – uma vez e meia o total das exportações brasileiras em 1997.

Os moradores deslocados estão recebendo casas novas e mais confortáveis. Mas os camponeses que viviam na beira do rio terão de se conformar com terras bem menos fertéis em regiões montanhosas. Boa parte da história arqueológica da China, nascida ao longo do rio, será afogada. Além disso, a barragem aumentará a poluição da água. A sujeira acumulada tornará quase inevitável a extinção de um tipo raríssimo de golfinho, que só existe no Yang-tsé.

Terremotos, enchentes e ditadores

Para convencer as agências financiadoras internacionais, como o Banco Mundial, a emprestar dinheiro para obra, o governo da China usou um argumento de peso. Quase toda a eletricidade do país é gerada em usinas a carvão, altamente poluidoras. Isso faz dos chineses um dos maiores emissores mundiais de CO2, o gás carbônico, que sobe à atmosfera e abafa o planeta, aumentando a temperatura global – provocando o efeito estufa. A hidrelétrica produzirá uma energia limpa, capaz de sustentar a arrancada econômica do país sem envenenar ainda mais a atmosfera. E a economia da China não pára de crescer.

Mas há dúvidas quanto à segurança da barragem. Os geólogos norte-americanos Leonard Sklar e Amy Luers, que visitaram a obra no ano passado, notaram que a região de Três Gargantas está sujeita a abalos sísmicos. Qualquer tremor poderá causar danos à estrutura. “Os engenheiros estão brincando com a natureza”, alertaram Sklar e Luers. Várias represas já desmoronaram na China, nos últimos vinte anos. Outro perigo está no próprio regime de águas do Yang-tsé. O rio provoca enchentes a cada dez anos, em média, por causa do derretimento das neves no Tibete, onde estão suas nascentes. Uma cheia maior do que as habituais pode fazer o lago represado transbordar, ameaçando centenas de milhares de vidas humanas.

Mas talvez o maior problema seja o político. A China vive sob um regime político ditatorial. Os chineses estão impedidos de discutir livremente os prós e os contras da represa. Não há informações na imprensa, fora as oficiais.

Domando o Yang-tsé

O lago formado pela represa de Três Gargantas vai submergir cidades importantes.

Chongquing

A cidade, de 2,2 milhões de habitantes, fica na extremidade do lago a ser formado pela represa. A expectativa da chegada de navios de grande porte gerou uma febre de investimentos.

Navios de 10 000 toneladas (o dobro da capacidade dos que navegam no rio, atualmente) poderão ir até Chongqing, a 2 400 quilômetros do Mar da China.

Fengdu

A cidade será totalmente submersa. Uma nova está sendo contruída para abrigar os 65 000 habitantes.

Com 26 turbinas gigantes, Três Gargantas fornecerá energia equivalente à produzida por 18 usinas nucleares de porte médio, ou 10% do consumo de eletricidade da China.

Wanxian

Dois terços da cidade, de 160 000 habitantes, ficarão embaixo d’água.

O templo de Zhang Fei, do século XII, será demolido e reconstruído em outro lugar.

Três Gargantas

O local foi escolhido por causa de uma ilha no rio, que apoiará parte do muro da barragem. Este trecho é ladeado por imponentes cânions, cujas paredes servirão de reservatório natural para a água.

O lago artificial terá 600 quilômetros de extensão, o equivalente à distância entre São Paulo e Belo Horizonte.

Risco de vida

O baiji, golfinho de água doce do Yang-tsé (Lipotes vexilifer), está ameaçado de desaparecer com a poluição das águas

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Duelo de titãs

Veja as características do projeto das duas maiores hidrelétricas do mundo

Itaipu

Três Gargantas

Turbinas

18

26

Potência instalada

12 600 megawatts

18 299 megawatts

Concreto utilizado

12,5 milhões de m3

27,1 milhões de m3

Vazão

62,2 bilhões de m3 por segundo

116 bilhões de m3 por segundo

Extensão máxima do lago

170 km

600 km

Custo

US$ 16 bilhões

US$ 25 bilhões

Pessoas desalojadas

4 000

1,3 milhão

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