A vez em que Hemingway inspecionou o pênis de F. Scott Fitzgerald
Hemingway narrou o episódio em seu livro de memórias Paris é uma Festa, mas o relato não é exatamente confiável
Tamanho importa? Essa é a pergunta que permeia a vida de todo garoto que começa sua vida sexual — e também as redes sociais de psicólogos, sexólogos e urologistas que vivem falando do tópico na internet. Querendo ou não, falar de tamanho do pênis sempre rende.
Uma pessoa que já esteve muito preocupada com isso foi o escritor estadunidense F. Scott Fitzgerald. Em 1920, depois de uma briga, sua esposa Zelda havia dito a ele que seu pênis não era suficiente para satisfazer uma mulher. E o assunto tomou conta da cabeça do autor de O Grande Gatsby.
Como muitos, Fitzgerald então levou o assunto para um amigo: o também escritor estadunidense Ernest Hemingway. No livro de memórias A Moveable Feast (em português, Paris é uma Festa), publicado postumamente em 1964, Hemingway conta que encontrou o amigo na capital francesa: “Scott me convidou para almoçar no restaurante Michaud’s, na esquina da rue Jacob com a rue des Saints-Pères. Ele disse que tinha uma pergunta muito importante para me fazer, algo que significava mais do que qualquer coisa no mundo para ele, e que eu deveria responder com a mais absoluta sinceridade”.
Apesar da pauta ser importante, Fitzgerald só conseguiu tocar no assunto ao final da refeição, após muitas taças de vinho no restaurante parisiense. Fez então sua confissão: “Zelda disse que, do jeito que eu era, eu nunca conseguiria fazer nenhuma mulher feliz, e foi isso que a incomodou inicialmente. Ela disse que era uma questão de medidas. Nunca mais me senti o mesmo desde que ela disse isso e preciso saber a verdade”.
Chocado com a confissão, Hemingway se dispôs a fazer uma inspeção e os dois homens marcharam juntos para o banheiro. Lá, Fitzgerald baixou as calças e Hemingway deu uma boa olhada no grande gatsbyzinho.
Os dois voltaram para a mesa e, a seguir, tiveram este diálogo:
Hemingway: “Você está perfeitamente bem. Não há nada de errado com você. Se você se olhar de cima, vai parecer menor do que realmente é. Vá ao Louvre e observe as pessoas nas estátuas, depois vá para casa e se olhe de perfil no espelho.”
Fitzgerald: “Essas estátuas podem não ser precisas.”
Hemingway: “Elas são muito boas. A maioria das pessoas se contentaria com elas.”
Fitzgerald: “Mas por que ela diria isso?”
Hemingway: “Para te colocar para baixo. Essa é a maneira mais antiga do mundo de colocar alguém para baixo. Scott, você me pediu para te dizer a verdade e eu posso te dizer muito mais, mas esta é a verdade absoluta e tudo o que você precisa. Você poderia ter ido ao médico.”
Fitzgerald: “Eu não queria. Eu queria que você me dissesse a verdade.”
Hemingway: “Agora você acredita em mim?”
Fitzgerald: “Eu não sei”, ele disse.
O que é o ego ferido de um homem hétero, não é mesmo? Vendo que Fitzgerald não estava convencido, Hemingway o conduziu então ao Museu do Louvre para que os dois admirassem as estátuas de homens nus. Como isso ainda não foi suficiente, Hemingway apelou para demonstrações: “Expliquei-lhe sobre o uso de uma almofada e algumas outras coisas que poderiam ser úteis para ele saber”, conta o autor em seu livro.
Por mais engraçada que a história seja, ela precisa ser tratada com cautela, pois Hemingway não é um narrador confiável. Ele e Fitzgerald tinham uma amizade complexa, marcada por rivalidades e ressentimentos, e não seria de espantar que o autor tivesse exagerado um pouco no relato.
Hemingway usou os protagonistas de seus livros As Neves do Kilimanjaro (1932) e Do outro lado do rio, entre as árvores (1950) para criticar a obra de Fitzgerald indiretamente. Em Paris é uma Festa, há outros trechos pouco elogiosos sobre o amigo, com Hemingway o chamando de “pequeno cruzador morto” e dizendo que “tem cara de garotinho”.
“Fitzgerald pode ter se sentido compelido a passar por essa humilhação, mas é extremamente improvável que ele arriscasse que Hemingway confirmasse a cruel acusação de Zelda”, afirma este texto da revista literária London Magazine. Sendo verdade ou não, é uma das anedotas literárias mais absurdas de que se tem notícia.





