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A aborígine de ouro

Por Da Redação Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
31 out 2000, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h09
  • Gilberto Stam

    De todas as 16 medalhas de ouro que deram à Austrália o quarto lugar nos Jogos Olímpicos, de longe a mais festejada foi a da corredora Cathy Freeman nos 400 metros rasos. O estádio olímpico (com lotação recorde de 112 124 espectadores) veio abaixo e o país inteiro vibrou. Mas nenhum coração bateu mais forte que o dos aborígines, que há 60 000 anos habitam a Austrália e fascinam o mundo com suas 80 línguas, suas superstições e seus instrumentos curiosos, como o bumerangue. Na comemoração de encerramento dos jogos – mesmo no interior remoto da Austrália, onde parte deles ainda vive –, grandes grupos deixaram os arbustos e se aglomeraram na frente das TVs, nos bares e em outros locais públicos, para celebrar a vitória de Cathy.

    Filha de pai e mãe aborígines, ela teve sua avó seqüestrada, quando criança, por ocidentais que a criaram achando que a estavam “salvando da barbárie” – como era costume pensar no país até os anos 60. Agora, Cathy transforma-se em uma heroína vibrante dessa gente sem lar. Tirados de suas terras no século passado, transformados quase todos em moradores pobres das cidades e alvo de um preconceito discreto, hoje eles dão passos decisivos para reconquistar a dignidade dentro da sociedade australiana. “Somos cidadãos de terceiro mundo num país do primeiro”, diz o líder aborígine Trevor Close, fundador da entidade tribal Githabul. Até 1967, nenhum aborígine tinha direito de cidadania australiana. Era como se não existissem, embora seu número estivesse crescendo depressa e hoje seja de 420 000 pessoas, 2% da população total do país.

    Cathy não foi alçada ao Olimpo por acaso. Sem se envolver diretamente na política, ela não esconde o orgulho que tem por sua origem. Desde que pisou pela primeira vez em pistas internacionais e conquistou a primeira medalha de ouro, aos 16 anos de idade (agora tem 27), Cathy se esforça para apressar a reconciliação entre seu povo e os demais australianos. Este ano, ela acendeu a tocha olímpica na abertura dos jogos, cerimônia durante a qual o público viu uma encenação do “Tempo dos Sonhos”, nome que os aborígines dão ao seu mito da criação do mundo. É sinal de que a Austrália talvez esteja começando a se orgulhar do seu passado aborígine – que o colonialismo inglês por pouco não apagou da história no século passado.

     

    Para saber mais

    https://www.aaa.com.au/hrh/aboriginal/A Z/atoz1.shtml

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    fdieguez@abril.com.br

    Radiografia tribal

    Quem são os aborígines, onde moram, que línguas falam e quais são suas condições de vida em comparação com o resto dos australianos
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    As quatro maiores

     

    Os aborígines falam 80 línguas. Aqui estão as mais comuns e o número de falantes

     

    Mabuiag

     

    8 000 [Ilhas Torres]

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    Bidjandjara

    4 000 [Deserto do Oeste]

    Arrente

    3 468 [Austrália Central]

    Dhuwal-Dhuwala

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    3 219 [Terra de Arnhem]

     

    À margem do tempo

    Eles têm menos emprego, salário inferior e escolaridade mais baixa que o australiano médio

     

     

    Aborígines

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    Austrália

    População

     

    420 000

    20 milhões

    Crescimento anual da população

    2,3%

    1,2%

    Escolaridade

     

    73,3%

    91,5%

    Taxa de desemprego

    22,7%

    9,2%

    Renda média (semanal, em dólares)

    190

    292

    O segundo nascer do sol

    Quando os europeus chegaram à Austrália, em 1788, havia 750 000 aborígines espalhados pelos manguezais, pelas florestas da região costeira e pelas áreas desérticas, cobertas de arbustos, do interior do país. Sua diversidade cultural era espantosa – reunia 600 tribos, que falavam 250 línguas. Acredita-se que são descendentes de povos vindos da África, de onde teriam saído, mais de 60 000 anos atrás, para ocupar o sul da Ásia. Daí uma parte desceu para a Austrália e outra migrou para o norte, chegando às tundras geladas da Sibéria Oriental, há cerca de 23 000 anos. Quase dez milênios depois, seus primos atravessaram o Estreito de Bering e entraram na América. Um desses aventureiros pode ter morrido em Lagoa Santa, Minas Gerais, deixando para a posteridade parte do crânio. Esse fóssil, batizado de Luzia pelo antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, USP, tem inúmeras características semelhantes à dos aborígines australianos. Os quais contam a história de um outro jeito. Para eles, tudo começa no “tempo dos sonhos”, quando espíritos, animais e seres humanos transformavam-se uns nos outros e se esforçavam para criar os territórios e as leis tribais. O céu, então, ficava muito próximo da Terra e a envolvia na escuridão. O sol finalmente se ergueu ajudado pelas aves e seu brilho marcou o início dos tempos. Deve ter sido essa a imagem que os aborígines viram na medalha de ouro de Cathy Freeman – um segundo nascer do sol. Não é um sonho impossível, afirma o antropólogo Alan Thorne, da Universidade Nacional Australiana.

    “Os próprios australianos ocidentais começam a sentir que os aborígines são a verdadeira base da nossa sociedade. As crenças e valores criados por eles ao longo de milênios são a nossa ligação com a terra.”

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