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A nova vacina

A ciência já sabe como vencer a gripe suína: vacinar bilhões de pessoas. É a maior operação da história da saúde pública. Mas por trás disso tudo há um passado polêmico

Gisela Blanco

Nos próximos meses, o mundo vai viver a maior ação de saúde pública da história. Para enfrentar uma epidemia que classificou como “incontrolável”, a Organização Mundial da Saúde mobilizou todos os laboratórios farmacêuticos na tentativa de produzir uma vacina contra a gripe suína. Eles estão fazendo sua parte – já fabricaram mais de 1 bilhão de doses da vacina, que é produzida injetando-se o vírus em ovos de galinha . O próximo passo é mobilizar todos os países, o que também já está acontecendo: as nações do hemisfério norte estão correndo para vacinar sua população antes que o inverno comece por lá. No Brasil e demais países do sul, a vacina será distribuída no primeiro semestre de 2010. A OMS diz que o mundo tem capacidade para produzir 4,8 bilhões de doses da vacina até o final do ano que vem. Se o H1N1 não desaparecer, cedo ou tarde vai chegar a sua vez de tomar a injeção. Quando você estiver com a seringa espetada no ombro, vai estar participando dessa história toda – e sua saúde estará a salvo. O que você não sabe é que, ao tomar a vacina, você também estará se envolvendo numa nas histórias mais polêmicas e misteriosas da medicina moderna.

Fevereiro de 1976. É inverno nos EUA, faz muito frio e David Lewis, um soldado de 19 anos, pega uma gripe forte. Dois dias depois, está morto. E os sintomas começam a se alastrar – na base militar em que Lewis trabalhava, em Nova Jersey, 200 militares são infectados. O Exército isola a base e chama o poderosíssimo Centro de Controle de Doenças, órgão do governo americano que combate epidemias (e geralmente é retratado em filmes sobre apocalipse). Os cientistas coletam amostras do vírus e concluem: trata-se do H1N1, o mesmo que havia arrasado o mundo em 1918 – e é o responsável pela atual pandemia de gripe suína. Assustados com a possibilidade de uma nova catástrofe, os EUA decidem fazer uma vacinação de emergência. “Em apenas 10 semanas, pelo menos 40 milhões de pessoas foram imunizadas – quase 25% da população do país na época”, conta o cientista político Richard Neustadt no livro The Epidemic That Never Was (sem versão em português). Até que uma coisa estranha começou a acontecer.

Algumas pessoas que haviam tomado a vacina desenvolveram a síndrome de Guillain-Barré (SGB), que causa danos neurológicos e graus variados de paralisia. A SGB é uma doença extremamente rara, que afeta 1 em cada 100 mil pessoas por ano – 37 vezes menos que a aids, por exemplo. Mas, nas semanas que se seguiram à vacinação nos EUA, os casos aumentaram 680%. Como o da americana Judy Roberts, que desenvolveu Guillain-Barré alguns dias após tomar a vacina – e ficou tetraplégica. Ela acabou recuperando parcialmente os movimentos, e apareceu no 60 Minutes (programa jornalístico mais assistido dos EUA) contando sua história. Outros não tiveram a mesma sorte: 30 americanos que tomaram a vacina morreram de SGB poucas semanas depois.

Guillain-Barré é uma doença auto-imune, ou seja, em que o sistema imunológico agride o próprio organismo. Ele produz um excesso de anticorpos, que acaba danificando a bainha de mielina (um revestimento que protege os neurônios). Daí a suposta relação da síndrome com as vacinas. Afinal, elas estimulam o sistema imunológico – que poderia ficar, por causa disso, hiperativo e descontrolado. Parece haver alguma relação entre vacinas (em geral) e a síndrome de Guillain-Barré, tanto é que o Ministério da Saúde desaconselha a vacinação para quem já teve a síndrome. Mas não há evidências conclusivas.

“Não há nenhum estudo definitivo provando que os casos da síndrome tenham sido provocados pela vacina”, afirma o médico Howard Markel, que é epidemiologista da Universidade de Michigan e consultor do Centro de Controle de Doenças. Apesar do forte aumento nos casos da síndrome nos EUA, ninguém conseguiu provar que eles foram efetivamente causado pela vacina – e não por outro motivo qualquer, como uma infecção por bactérias. Mas o estrago estava feito. Os casos de Guillain-Barré detonaram uma onda de pânico em 1976 e milhares de pessoas decidiram processar o governo americano, que interrompeu bruscamente a vacinação e acabou pagando mais de US$ 4 bilhões em indenizações. A epidemia de gripe suína nunca se confirmou – a única morte registrada foi mesmo a daquele soldado -, e a vacina foi esquecida. Até agora.

Galinha orgânica e sangue importado

Julho de 2009. A Organização Mundial da Saúde admite que o H1N1 está além do controle, e governos e laboratórios do mundo inteiro se agilizam para produzir uma vacina. Não é fácil. O processo em si é até simples (veja ao lado), mas tem uma série de detalhes desafiadores.

Primeiro problema: os ovos utilizados não vêm de galinhas comuns, como as que você come. Têm que ser aves orgânicas, ou seja, que não recebem nenhum tipo de antibiótico (e por isso, são menores e mais difíceis de criar). No Brasil, o Instituto Butantan espera contar com 400 mil galinhas orgânicas, que serão mantidas em granjas especializadas. Segundo problema: para complicar as coisas, os ovos precisam ser fertilizados antes da inoculação do vírus (porque precisa existir um embrião dentro do ovo para que o vírus se multiplique). Isso significa mais 40 mil galos, que são encarregados de fazer sexo com as galinhas, na granja, para fertilizar os ovos. Terceiro problema: o rendimento é baixo. Por algum motivo, cada ovo inoculado com o vírus rende apenas uma dose da vacina anti-H1N1 (bem menos que a vacina contra gripe comum, que rende até 3 doses por ovo).

Apesar de tudo isso, os cientistas acabam obtendo sucesso. O Butantan criou uma linha de montagem capaz de fabricar, se for considerado necessário, 44 milhões de doses até o inverno de 2010 (os primeiros a recebê-las serão grávidas e profissionais de saúde). Mas você deve estar se perguntando: quais são as diferenças entre a nova vacina e a de 1976? Para começo de conversa, o vírus não é exatamente igual ao daquela época – sofreu mutações. Só isso já torna a vacina diferente. Além disso, desta vez ela será produzida com outro tipo de tecnologia. Antigamente, as vacinas eram produzidas com vírus atenuados, porém vivos, que apresentam maior risco de reações adversas. “A vacina atual é feita com vírus morto, ou apenas proteínas dele, que não têm como causar infecção”, explica o epidemiologista Expedito Luna, da USP.

Mas um certo receio persiste. Tanto é que em agosto o governo inglês enviou, em caráter sigiloso, uma carta aos 600 principais neurologistas do país – pedindo alerta para um possível aumento nos casos da síndrome de Guillain-Barré. Em julho, o governo dos EUA assinou um decreto que confere imunidade judicial aos laboratórios produtores da vacina. Além disso, para que ela pudesse ser produzida a tempo, foi preciso fazer concessões. Tanto a União Europeia quanto os EUA autorizaram o chamado fast track – um processo de aprovação acelerado, que pula algumas etapas de teste da vacina. “O fast track é comum para driblar a burocracia nesses casos em que não se pode esperar o tempo habitual, que é de 6 meses a um ano, para aprovar uma vacina nova”, afirma Expedito. No Brasil, o regime de testes ainda não foi definido. “É claro que tudo isso envolve riscos. São riscos que precisamos correr em um caso de emergência”, diz Expedito. É verdade. E o risco de complicações em decorrência da vacina é muito baixo. Mas talvez fosse possível reduzi-lo ainda mais – e sem deixar de imunizar a população contra a gripe suína.

O funcionário público Pedro Grossi, de São José dos Campos (SP), sempre foi ativo e saudável. Aos 53 anos, jogava futebol duas vezes por semana e nadava aos domingos. Em agosto de 2001, resolveu tomar uma vacina contra gripe comum. Três meses depois, começou a sentir um cansaço estranho. “Tive um formigamento na perna esquerda durante uma semana, e fui me sentindo cada vez mais fraco. Até que um dia acordei e simplesmente não consegui me levantar da cama”, conta. Dias depois, Pedro chegou ao hospital já com insuficiência respiratória. Quando ele já estava sem nenhum movimento no corpo, neurologistas de Campinas deram o diagnóstico: Guillain-Barré.

Pedro foi tratado com injeções de imunoglobulina, um anticorpo que combate a síndrome. Ele não anda perfeitamente, mas sobreviveu. Se o diagnóstico de SGB e o tratamento com imunoglobulina forem rápidos, a maioria dos pacientes se recupera em no máximo um ano. Apenas 5% permanecem incapacitados para o resto da vida (e 2 a 5% morrem). Ou seja: não apenas o risco de problemas é pequena, a pessoa pode ser curada se isso acontecer. O problema é que a imunoglobulina é importada, e o Brasil tem pouca: só 50 quilos. A quantidade recomendada para o país, segundo a OMS, seria de 2,7 toneladas (para todos os usos e não só no tratamento da síndrome de Guillain-Barré). O Ministério da Saúde já prometeu construir uma fábrica nacional de imunoglobulina, a Hemobras, mas ela só ficará pronta em 2011.

Dito tudo isso, qual a resposta? Tomar ou não a vacina? “É importante se vacinar, sim. Eu vou me vacinar, e minhas filhas também. Os riscos da gripe suína são muito maiores que possíveis efeitos colaterais da vacina”, afirma a neurologista Patricia Lins. Faz sentido. “Mas é preciso ter imunoglobulina em estoque nos hospitais públicos”, afirma ela. Faz sentido também. O maior perigo, afinal, não é a gripe suína, a vacina contra ela ou síndromes neurológicas raras. É uma coisa muito mais antiga, e mais banal também: a falta de investimentos em saúde no país.

Como o vírus é cultivado…
Processo inclui gente, ovos e paciência

1. Coleta
Médicos vão até pessoas infectadas e coletam amostras de sangue e catarro, que vão para o laboratório – onde o vírus é isolado.

2. Inoculação
Amostras são injetadas em ovos, que são colocados em incubadoras. O vírus se multiplica dentro dos ovos por um prazo de 2 a 5 dias.

3. Colheita
Uma máquina abre os ovos e extrai seu conteúdo, que é filtrado para isolar os vírus. Cada ovo dá para fazer 1 a 3 doses de vacina.

…E como ele vira vacina
Como o vírus se transforma em medicamento

1. Inativação
Os vírus são mortos pelo contato com uma solução de formol. A vacina é elaborada com fragmentos deles – que, quando injetados no paciente, ativam seu sistema imunológico.

2. Atenuação
Neste método, o vírus é resfriado ou diluído (através de sucessivas inoculações de ovos) até que perca parte de sua força. A vacina contém vírus vivo.

3. Vacina de DNA
Técnica ainda em fase experimental. A vacina não contém vírus morto nem enfraquecido – só os genes dele. Isso supostamente torna a imunização mais eficaz e segura.


Para saber mais

The Epidemic That Never Was
Richard Neustadt, Vintage Books, 1983.

http://www.cdc.gov/H1N1FLU
http://www.saude.gov.br