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Alpinismo: Um corpo nas alturas

O organismo do homem sofre várias mudanças ao enfrentar a perigosa aventura de viver sob frio intenso e com pouco oxigênio, quando desafia montanhas acima de 6 000 metros.

Fátima Cardoso

Faltam apenas 300 metros para chegar à barraca. Caminhando com dificuldade sobre a neve, o homem dá dois, três passos e pára para respirar. Inspira profundamente, mas tem a impressão de que o ar não chega aos pulmões. Mais três passos, nova parada. O frio de – 15° C penetra até os ossos, enregela mãos e pés, resfria a garganta até doer, corta os lábios até sangrarem. Depois de longos minutos caminhando, ele enfim alcança a segurança de sua barraca, onde cai prostrado, esgotado pelo cansaço. Corpo humanos não foram feitos para sobreviver onde o ar é rarefeito e o frio, cruel.

Quando no corpo de uma pessoa existe apenas 30 por cento do oxigênio que deveria, considera-se que ela está à beira da morte — ou seja, tanto pode estar na UTI de um hospital ou no topo do Monte Everest, a 8 848 metros de altitude. Se alguém saísse diretamente do nível do mar para lá, desmaiaria em alguns segundos e morreria em poucos minutos. Se demorar algumas semanas para fazer o mesmo percurso, no entanto, o corpo passa por um processo de aclimatação, uma série de mudanças que lhe permitem se adaptar e sobreviver. Mas não por muito tempo.

“A primeira conseqüência da altitude é a diminuição do oxigênio que se respira”, conta o médico Eduardo Vinhaes, mergulhador e alpinista nas horas vagas, que há dois anos participou da primeira expedição brasileira ao Monte Everest. Os efeitos da redução do gás vital no organismo humano são devastadores. Um corpo humano começa a sofrer acima de 2 800 metros. É a partir daí que surgem os primeiros sinais de aclimatação, com a mais óbvia resposta do organismo: aumentar a ventilação pulmonar , ou seja, a pessoa passa a respirar mais rápido e mais profundamente, na tentativa de colocar mais oxigênio para dentro. Ao mesmo tempo, para melhor distribuí-lo a todas as partes do corpo, a freqüência cardíaca também aumenta.

Caso o indivíduo permaneça em altitude muito elevada por mais de dois ou três dias, entram em ação mecanismos mais duradouros. Um dos mais importantes é a produção acelerada de hemoglobina, a substância dentro dos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio dos pulmões até as células. É como se uma nova tropa de carregadores de gás chegasse para ajudar a atender à demanda.

Essas mudanças, porém, não são imediatas. Levam até oito dias para apresentar respostas eficientes, atingindo o ápice em torno de três a quatro semanas. Mesmo quando a aclimatação é feita lenta e adequadamente, subindo entre 300 e 500 metros por dia de desnível, passar por ela não é uma experiência agradável. A dupla de estudantes Rodrigo Chaddad Ranieri e Tomás Gridi-Papp, em Campinas (SP), sofreu alguns sintomas na escalada ao pico do Aconcágua ( 6959 metros), na Argentina, em janeiro deste ano. “Quando atingimos 5 400 metros, tivemos que montar a barraca ajoelhados, por causa da dor de cabeça”, conta Rodrigo. É comum também sentir muito cansaço e perder o apetite.

Um corpo aclimatado faz toda a diferença do mundo. Ao tentar escalar o Monte Makalu (8 470 metros), na Cordilheira do Himalaia, o fotógrafo e guia de montanhas paulista Thomaz Brandolin subiu de 5 100 metros a 5 900 metros em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. “Três semanas depois, na segunda tentativa de chegar ao cume, fazia o mesmo percurso, ida e volta, em 3 horas e meia”, lembra Thomaz, que foi o chefe da expedição brasileira ao Everest.

Quem não respeita os limites e sobe rápido demais, sem dar tempo ao corpo para se aclimatar, pode ser vítima de uma série de distúrbios, chamada mal agudo da montanha. “O mal agudo da montanha provoca dor de cabeça, perda de apetite, náusea e prostração, mas desaparece em dois ou três dias com boa alimentação, muito líquido e algum repouso”, diz o médico Vinhaes. Vinte e cinco por cento dos visitantes de centros turísticos nas montanhas são vítimas do mal da montanha agudo.

A história começa a ficar complicada quando os sintomas perduram por mais tempo, sinal de que há risco de edema pulmonar (acúmulo de líquido nos pulmões) e edema cerebral (acúmulo de líquido no cérebro). Tudo por culpa da falta de oxigênio, ou hipoxia, o gatilho da cascata de mudanças fisiológicas no corpo. É que o aumento de ventilação, ao mesmo tempo em que leva mais oxigênio para dentro dos pulmões, elimina muito gás carbônico, deixando o sangue mais alcalino. Essa é a senha para uma série de alterações no organismo que vão levar ao acúmulo de líquido nos alvéolos pulmonares.

Na maioria das pessoas, esse líquido é absorvido pelo corpo. Quando isso não acontece, o candidato a doente começa a tossir, sente falta de ar e topor. O líquido acumula-se cada vez mais, encharcando os alvéolos, a falta de oxigênio fica cada vez mais grave, e acontece enfim o edema pulmonar. Se o doente não for levado a altitudes mais baixas, pode morrer em cinco dias.

Mecanismo semelhante acontece no cérebro. Neste caso, a série de alterações orgânicas resulta em maior permeabilidade dos vasos sangüíneos, provocando vazamento de fluido para o tecido cerebral e o conseqüente edema. Esse problema é percebido pelo andar cambaleante da vítima, como se estivesse embriagada, além de perturbações na visão e alucinações. Se não for tratado em poucas horas, o edema pode levar ao coma e à morte.

No lato de uma montanha, tratamento só existe um — descer. E à vezes isso pode ser impossível. “Acima de 5 000 metros, é muito difícil resgatar um doente ou um acidentado, porque os helicópteros não chegam até lá”, explica Eduardo Vinhaes. A cabine do helicóptero não é pressurizada, como a dos aviões; assim, um piloto desmaiaria acima dessa altitude. Um alpinista afetado por edema pulmonar ou cerebral precisa descer enquanto consegue andar. Caso contrário, o provável é que fique por lá mesmo: seu companheiro pode não ser capaz de carregá-lo para baixo, ou uma tempestade de neve pode impedir o regresso a tempo.

O perigo é que um alpinista nessas condições nem sempre percebe que há algo errado. É que a falta de oxigênio no cérebro afeta o julgamento — a capacidade de raciocinar, de executar tarefas aparentemente simples e de perceber perigos. Isso acontece porque o cérebro usa sozinho entre 15 e 20 por cento do oxigênio consumido pelo corpo. Na escassez, as funções mais afetadas são as chamadas superiores, que incluem justamente a coordenação motora e o raciocínio.

Por isso, nas alturas do Himalaia, subir montanhas é um jogo bem mais pesado do que aqui embaixo. “Escalar uma parede de gelo com 50 graus inclinação em baixas altitudes não é tecnicamente difícil. A 7 000 metros de altitude é complicadíssimo”, compara Thomaz Brandolin. Como sempre, é tudo culpa da escassez de oxigênio. Calcula-se que a cada 100 metros para cima o alpinista perde 1 por cento da capacidade de trabalho.

Na prática, isso significa o que sentiu o engenheiro agrônomo Ramis Tetu, também participante da expedição ao Everest, quando estava a 6 500 metros: “Antes de ir para o Everest, eu corria dez quilômetros por dia. Lá, na pressa de buscar uma máquina fotográfica, eu corri 30 metros até a barraca e caí em cima dela, tonto, vendo tudo branco”. Tarefas simples, como calçar botas ou arrumar a mochila, bastam para deixar uma pessoa ofegante.

Para compensar um pouco da escassez de oxigênio, os montanhistas levam garrafas com o gás para usá-lo em alguma emergência — como subir alguns metros em direção ao topo, no chamado ataque ao cume, quando já não se tem forças. Isso não significa que o alpinista fique inteirão. O oxigênio suplementar dá um ganho de 2 000 metros, ou seja, quem o utiliza a 8 000 metros respira como se estivesse a 6 000. Acima de 7 000 metros, o oxigênio engarrafado é usado às vezes para dormir. É que a partir de 6 000 metros um corpo não se aclimata mais, só degrada — perde a aclimatação. Traduzindo, o oxigênio é tão pouco que não é suficiente nem para o organismo repor as células que morrem. A 7 000 metros começa a chamada zona da morte, em que a velocidade da degradação é muito rápida. Depois de uma noite de sono, uma pessoa se sente tão cansada quanto antes de dormir. Respirar durante a noite com oxigênio suplementar aumenta ajuda a minimizar a degradação.

A partir de 6 000 metros, quanto mais alto, menor o tempo que se pode ficar lá em cima. A expedição brasileira ao Everest ficou catorze dias no campo base avançado, a 6 500 metros, tentando escalar uma parede de gelo de 450 metros. Thomaz Brandolim e o físico Alfredo Bonini passaram três dias no alto dessa parede, esperando que o vento amainasse para prosseguir, mas não conseguiram. “Se no terceiro dia o tempo estivesse bom, eu teria descido do mesmo jeito, porque não tinhas mais forças para subir”, diz Bonini.

Nem só de falta de oxigênio sofre um homem na alta montanha. Há também o frio intenso. O problema não é apenas a temperatura baixa, que chega a – 15° C ou – 20° C, mas a sensação térmica provocada pelo vento — ou seja, o frio que o corpo está sentindo quando o vento ajuda a tirar calor. Existe até uma tabela: sob uma temperatura de – 20°C e ventos acima de 60 quilômetros por hora, uma pessoa sente o frio de – 50°C. Qualquer parte do corpo exposta congela em 1 minuto.

Além do perigo de congelamento, que pode causar a morte dos tecidos das extremidades do corpo (e em casos graves a amputação dos dedos), o ar extremamente frio e seco contribui para a desidratação. O sangue, já com excesso de hemoglobina, fica ainda mais viscoso que a falta de líquido. “Uma pessoa em altitude deve tomar de 3 a 4 litros de líquidos por dia, enquanto ao nível do mar 1 a 2 litros são suficientes”, recomenda o médico Vinhaes. Simples, quando se esquece que lá em cima não há rios nem torneiras — para conseguir água, é preciso derreter neve por longos minutos em pequenos fogareiros, um trabalho desgastante para uma pessoa esgotada.

Nas montanhas em torno de 8 000 metros, não basta subir, é preciso conseguir descer, e rápido. Nessa altitude, um homem não sobrevive por mais de três dias. Uma expedição científica ao Everest, em 1981, mediu a quantidade de oxigênio no corpo de uma pessoa no topo do mundo, e chegou à conclusão de que a situação do organismo é pior do que a de um doente à beira da morte. “É extraordinário que um montanhista no topo continue vivo”, escreveu o chefe da expedição, o médico americano John B. West. “Sem oxigênio suplementar, um homem deve estar nos limites da tolerância humana”.

Está. O primeiro homem a escalar o Everest sozinho e sem oxigênio (em 1980), o austríaco Reinhold Messner, descreveu assim o seu martírio: “Era uma agonia contínua; eu nunca tinha me sentido tão cansado em toda a minha vida como no topo do Monte Everest naquele dia. Simplesmente fiquei sentado ali, sem consciência daquilo. Por um longo tempo não consegui descer, nem queria. Finalmente, eu me forcei a começar a descida. Sabia que estava no fim das minhas forças”.

Para saber mais:

Computadores de pulso (SUPER número 12, ano 6)

Do alto do Everest, 40 anos nos contemplam

(SUPER número 8, ano 7)

Os males, montanha acima

2 800 metros – Até aí, a maioria das pessoas não tem problemas de altitude. No máximo, pode se sentir cansaço ou dor de cabeça leve.

Acima de 2 800 metros – A partir desta altitude é comum acontecer o mal agudo de montanha, que pode atingir qualquer pessoa. É caracterizado por dor de cabeça, fadiga, falta de ar, distúrbios do sono e náusea.

3 000 a 5 500 metros – É nesta faixa que ocorre a maioria dos casos de edema pulmonar. Os sintomas — falta de ar, tosse forte, letargia e febre baixa — geralmente se desenvolvem depois de 36 a 72 horas na altitude. Pode acontecer também o edema cerebral.

Acima de 5 500 metros – A partir daí, diminui muito a capacidade de aclimatação do organismo. Se uma pessoa permanecer nessa altitude, começa a degradação, ou a perda de aclimatação, devido à pouca quantidade de oxigênio no ar.

8 000 metros – No ar, há apenas um terço do oxigênio que existe ao nível do mar. Acima desta altitude, como no Everest (8 848 metros), uma pessoa aclimatada só ficaria dois ou três dias, antes que a falta de oxigênio levasse à morte.