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As primeiras notícias da Década do Cérebro

Cientistas do mundo inteiro mostram avanços no sentido de decifrar os mecanismos dos pensamentos e das emoções, naquela que é considerada a estrutura mais complexa do Universo.

Lúcia Helena de Oliveira

Certa vez, o filósofo e cientista René Descartes (1596 – 1650) descreveu a mente humana como uma entidade extracorpórea, que se expressava através da pequena glândula pineal, abrigada dentro do cérebro. O pensador francês errou feio quanto à pineal, que tem enorme importância na regulação dos ritmos biológicos, mas está longe de ser o Q.G. de nossas idéias e devaneios. Contudo, Descartes teve o mérito de levantar, há mais de três séculos, uma questão que continua palpitante nos dias atuais: “Como será que a mente não – material pode influenciar o cérebro e vive – versa”, indagou o radiologista Marcus Raichle à platéia de quase 3.000 pessoas, na palestra de abertura do XXII Encontro da Sociedade Americana de Neurociências.

Espremidos nas longas fileiras de cadeiras laranja do Salão Pacífico no Hotel Hilton, os ouvintes eram uma amostra tímida dos 16.000 participantes do evento, realizado em Anaheim, nos Estados Unidos. Tudo nessa cidadezinha californiana costuma girar em torno da Disneylândia, o primeiro parque do império Disney, construído em sua área central. Mas, durante uma semana, contada a partir do último 25 de outubro, um domingo nublado, boa parte de seus turistas só estava interessada em ver alguns dos 4.000 trabalhos sobre sistema nervoso — as apresentações começavam pontualmente às 8 horas da manhã e só encerravam depois das 9 da noite.

O volume de pesquisas tornou o encontro incomparável na área das Neurociências, mas ele não é de espantar: há dois anos, nos Estados Unidos, foi sancionada uma lei instituindo a Década do Cérebro. Enquanto se virarem as folhinhas dos anos 90, os laboratórios americanos se empenharão em decifrar o quebra-cabeça do cérebro humano, com seus 100 bilhões de peças, ou seja, os neurônios. Nesse primeiro balanço das conquistas realizadas, não se conseguiu responder à pergunta de Raichle, um dos pioneiros na aplicação de técnicas como a ressonância magnética e a tomografia de emissão de pósitrons: “Esses equipamentos permitem fiscalizar

o cérebro em pleno funcionamento”, explica. “As experiências com animais de laboratório começam a ser substituídas por estudos com seres humanos vivos. Era a chave que faltava para a compreensão da mente.” Na opinião do radiologista, essa tem de ser a principal pauta dos pesquisadores até o final da década. Nesse período, as entidades governamentais americanas destinam a fatia mais gorda do orçamento ao estudo do sistema nervoso; por sua vez, escolas e empresas privadas que financiarem essa mesma investigação pagarão menos impostos.

“Com essa medida, os americanos estão sendo muito práticos e objetivos”, observa o pesquisador carioca Ricardo Gattas. As doenças degenerativas do sistema nervoso são um dos grandes problemas da população.” De fato, os americanos não escondem a preocupação com os 120 bilhões de dólares que gastam, todo ano, com o tratamento de distúrbios nervosos. Chefe do Laboratório de Neurobiologia do Instituto Carlos Chagas. no Rio de Janeiro, Gattas foi um dos 25 brasileiros presentes no encontro em Anaheim: “No final das contas. a ciência vai avançar bastante com a Década do Cérebro”, admite. Como ele, cerca de 10% dos conferencistas nos Estados Unidos vinham de outros países. “Essa é uma viagem que vale a pena. Todos os trabalhos importantes, realizados no mundo inteiro, devem aparecer aqui”, apostava, no primeiro dia do evento, o cientista Adolfo Sadile, que chefia os estudos sobre a fisiologia do cérebro, na Universidade de Nápoles, Itália.

Há quem dedique toda a sua atenção ao cérebro traumatizado por causa de doenças e acidentes: outros perseguem os mecanismos com os quais o sistema nervoso comanda os diversos órgãos do corpo; não faltam, ainda, pesquisadores interessados em memória e aprendizado — na verdade, as Neurociências se dividem em nada menos do que 53 campos de estudo. Os cientistas se portam como fervorosos torcedores de futebol: cada um defende a sua área como a que traz mais novidades. Nessa saudável competição, os investigadores do comportamento e da mente parecem ter largado com vantagem, devido ao destaque na palestra de abertura. “Compreender a origem das nossas emoções e pensamentos é a última fronteira da ciência”, opina outro entusiasmado participante, o professor Carlos Tomaz, da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. “Por isso mesmo, essa é a parte mais difícil.·

Quando Descartes tirou do cérebro qualquer responsabilidade sobre a memória, a imaginação e o humor, ele não fazia a menor idéia de que a massa cinzenta encaixada no interior do crânio, com cerca de 1,3 quilo, era a estrutura mais complexa do Universo. Descartes também ignorava que os circuitos cerebrais são resultado tanto da ação dos genes como da experiência: às vezes, ao gravarem novos dados, as células nervosas fazem crescer seus prolongamentos, os axônios, para se agarrarem a outras células, formando redes neuronais de infinitas combinações e, graças a esse fenômeno de plasticidade, possibilitando infinitas associações de idéias. Finalmente, o filósofo nem tinha como saber, em sua época, que a versão do cérebro humano surgiu após milhões de anos de aprimoramento, no processo da evolução. Se soubesse de todas essas coisas, Descartes talvez fosse buscar no cérebro, o endereço daquilo que alguns chamam de espírito, alma ou mente. Para os cientistas, no entanto, essas palavras de sentido mais ou menos vago significam coisas cada vez mais concretas.

Veja-se, por exemplo, a chamada microdiálise, técnica recente que rendeu 129 trabalhos entre aqueles mostrados no encontro: uma finíssima agulha perfura o cérebro de animais de laboratório para colher continuamente o sangue; a amostra passa por um aparelho de análise, antes de o líquido ser reinjetado. “Com isso, podemos monitorar qual neurotransmissor está agindo em determinada área cerebral, em diversos tipos de situações”, explica o neurocientista americano Floyd Bloom, do Instituto de Pesquisas Scripps. Neurotransmissores são moléculas mensageiras que as células nervosas liberam para se comunicarem, já que não estão ligadas entre si. “Experiências com a microdiálise também podem ajudar no tratamento de doenças . explica. “Afinal, os remédios para distúrbios nervosos sempre funcionam no sentido de aumentar ou reduzir a produção de neurotransmissores. Se conhecemos qual substância está mal regulada em cada tipo de caso, fica mais fácil o desenvolvimento de drogas eficazes.”

Existem mais de cinqüenta neurotransmissores conhecidos. No entanto, uma mesmíssima substância neurotransmissora pode ter efeitos diferentes, conforme o lado de sua molécula que se encaixa nos receptores dos neurônios. Além disso, desde que o primeiro neurotransmissor foi identificado, em 1921, sua família não parou de crescer. Recentemente, pesquisadores de outro conceituado instituto americano, o Johns Hopkins, encontraram evidências de que o óxido nítrico seria usado como mensageiro no cérebro. “isso pode inaugurar a classe de neurotransmissores cerebrais gasosos”, revela Bloom. Há menos de dez anos, os cientistas descobriram que o óxido nítrico ajuda a modular a ordem de relaxar os músculos no sistema nervoso periférico — como se chama a trama de nervos, que se espalha pelo corpo, feito linhas de comunicação entre o cérebro e os demais órgãos. Essa, porém, é a primeira vez que se nota a presença do óxido nítrico na nobre área cerebral. “Devemos descobrir que região exata do cérebro se encarrega de sintetizar o novo neurotransmissor, antes de especular qual seria a função dessa substância”, diz Bloom.

Diga-se de passagem que, freqüentemente, as discussões sobre o papel de uma substância neurotransmissora gera controvérsia. Pesquisadores da Faculdade de Medicina Bowman Gray, nos Estados Unidos, chamaram a atenção ao estabelecerem uma relação entre o neurotransmissor serotonina e o comportamento agressivo. “Surgiu a suspeita de que no cérebro de pessoas com tendência ao suicídio e de criminosos havia taxas de serotonina menores do que o normal”, conta a médica Babette Botchin. “Resolvemos conferir essa informação em macacos.” Durante 28 meses, a pesquisadora observou pacientemente o comportamento de 75 machos. E garante: “Aqueles com menos serotonina viviam comprando brigas com os outros. Eles mordiam e arranhavam seus companheiros de grupo por qualquer bobagem”. Segundo Babette, a constatação em macacos pode ter implicações importantes para os seres humanos: “Sabe-se que o nível de serotonina é determinado pelos genes “, diz ela. “Isso implica que algumas pessoas já nasceriam com tendência a praticar atos de violência.”

Além disso, na sua opinião, o estudo pode disparar o desenvolvimento de drogas, capazes de aumentar a quantidade de serotonina no cérebro e, assim, controlar a agressividade. Isso é um absurdo”? alfineta o professor Joseph Huston, da Universidade de Dusseldorf, na Alemanha, considerado um dos maiores especialistas do mundo no estudo dos mecanismos cerebrais do comportamento. “No cérebro, nunca uma substância está agindo sozinha. Ok vamos admitir que a falta de serotonina tenha uma participação na agressividade. Daí a dizer que ela pode controlar o impulso à agressão é outra história, que só interessa à indústria farmacêutica. Em breve, ela poderá vender milhões de milagrosos “comprimidos de serotonina”, diz ele, torcendo os lábios, no tom sarcástico que predomina quando os cientistas disparam suas criticas.

As pesquisas também avançaram muito no sentido de identificar os genes responsáveis pela produção dos neurotransmissores. Os planos são implantar no cérebro células alheias que com a ajuda da Engenharia Genética foram codificadas para secretar certos neurotransmissores, deficientes nas doenças degenerativas. Até este ano, essas experiências não dispensavam a manipulação de células nervosas fetais, esbarrando em complicadíssimas questões éticas. E não era só isso: uma vez implantados no cérebro doente, os neurônios de feto resolviam o problema em um primeiro momento, mas depois criavam um tumor fatal, porque continuavam se multiplicando sem parar, como de costume. Recentemente, porém, pesquisadores da Universidade da Califórnia apontaram uma alternativa.

Eles implantaram o gene encarregado de comandar a produção do neurotransmissor dopamina em um retrovírus chamado SV40. Este foi usado para infectar o cérebro de macacos cujos sintomas, como tremedeiras, eram semelhantes aos do mal de Parkinson — doença que, supõe-se, seja provocada pela ausência de níveis adequados de dopamina no sistema nervoso. Ao invadir o núcleo dos neurônios, o retrovírus com o gene da dopamina ordenou que eles passassem a produzir o neurotransmissor deficiente”, afirma Jeffrey Kordower, neurocientista que participou da experiência. “Ao menos em macacos, os sintomas da doença desapareceram.

Apesar de novidades como essa, trazidas dos laboratórios diretamente para o evento, poucas palestras foram tão concorridas quanto a do neurocientista Simon Levay, do Instituto de Educação Gay dos Estados Unidos — os organizadores tiveram de recorrer a cadeiras extras, que mal cabiam na sala com cerca de quatro mil ouvintes. “Existe uma espécie de marca no cérebro determinando a orientação sexual das pessoas”, defende Levay, que buscou uma série de evidências dessa teoria. Alguns testes, por exemplo, apontam que as mulheres heterossexuais têm muito mais habilidade para a linguagem do que os homens — e, no caso, os homens homossexuais, embora continuem perdendo para o sexo feminino, são mais habilidosos na arte do discurso do que os homens heterossexuais. Esse padrão, no meio – termo entre o masculino e o feminino, parece se repetir em outros testes, como os de cálculo e memória visual. “As estatísticas ainda mostram que, em gêmeos univitelinos, quando um deles é homossexual, há 75% de probabilidade de o outro também preferir companheiros do mesmo sexo”, revela. “Isso indica que a homossexualidade pode ser herdada e o cérebro é lugar certo para a expressão dessa herança.”

Será que os genes também podem ser responsáveis pela maneira de pensar? Certos cientistas tentam responder a essa pergunta com a tomografia de emissão de pósitrons (conhecida por PET, sigla em inglês). A imagem gerada pelo computador, ligado ao aparelho, ressalta as áreas cerebrais em que existe maior fluxo sangüíneo. Nelas, há mais consumo de energia — portanto, ali, os neurônios devem estar operando em pleno vapor. A médica Karen Faith, do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos Estados Unidos. aplicou o exame do PET em dez pares de gêmeos, que realizavam várias tarefas, como cálculo, leitura, testes de memória. “Fizemos a mesma batelada de exames em pessoas que nem eram irmãs, mas tinham o mesmo sexo e idade.

Nelas, não encontramos tantas similaridades como nos casos de gêmeos”, diz Karen. Segundo ela, os gêmeos costumam ativar os mesmos pontos do cérebro e com a mesma intensidade, quando realizam uma tarefa em comum. Isso é mais um indício de que já nascemos com uma parte do nosso jeito de ser gravada no cérebro. Portanto, não é nem nos signos apontados pelos astrólogos, nem sequer nos números calculados pelos numerologistas que a personalidade é determinada — ela pode, sim, se encontrar nos genes, que se expressam nos neurônios.

Para saber mais:

O endereço da inteligência

(SUPER número 12, ano 3)

Dez anos para decifrar o cérebro

(SUPER número 10, ano 5)

As primeiras notícias da década do cérebro

(SUPER número 12, ano 6)